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Viver sozinho

Viver sozinho

O MIRANTE percorre os vários caminhos da solidão

A solidão nem sempre é uma desgraça. Há quem prefira viver só ou na companhia de um animal de estimação. A televisão, a rádio e os locais públicos ajudam os mais solitários a combater o desespero de não ter com quem partilhar.

Edição de 11.10.2006 | Sociedade
Para muitos foram as circunstâncias da vida que os levaram a viver sozinhos. Os momentos de solidão são ultrapassados com actividades diversas ou até com a ajuda de animais. Mas também há aqueles para quem morar sozinho é uma opção fundamental para o seu equilíbrio. São oito horas da manhã e Rosa (nome fictício) acaba de acordar. Ainda mal despertou e já está a dar os bons dias carinhosos a Sissi, a gata que é a sua companheira. Rosa mora sozinha há 15 anos, altura em que a filha se casou e a mãe faleceu. Com uns joviais 66 anos Rosa diz que já se habituou a estar sozinha. Por outro lado, afirma que “tem um feitio especial” e não se “entende” facilmente. Por isso, não se importa de morar sozinha. Ou melhor, com a sua Sissi “que entende tudo, até se estou adoentada”. Para si, uma das poucas contrariedades de morar sozinha é ter que cozinhar só para uma pessoa: “não gosto nada. Tenho que sujar uma quantidade de louça só para uma pessoa”.Para se entreter vai até ao Jardim Municipal Constantino Palha, lê, ou vê televisão (preferencialmente novelas ou filmes policiais).” Quase todos os dias tira também um bocadinho para passara pela Comissão de Reformados, Pensionistas e Idosos de Vila Franca (CURPIV).É aqui que encontra Cesaltina Brícios, a presidente da associação. Com 72 anos, Cesaltina Brícios mora também sozinha há cerca de 10 anos desde que o filho saiu de casa. Hoje já se habitou a estar sozinha em casa, onde de resto está pouco tempo. A única coisa que a assusta Cesaltina é o facto de “me poder acontecer alguma coisa e não tenho aqui ninguém…”.A necessidade que sentiu de fazer alguma coisa para se ocupar, “para não estar em casa a pensar em coisas tristes”, levou-a até à CURPIV há oito anos. É lá que passa a maior parte do dia. “Isto dá muita vida, às vezes até demais”, diz Cesaltina Brícios referindo-se ao trabalho que tem que levar a cabo todos os dias na associação.Viuvez solitáriaA viuvez é uma das razões que leva a que muitas pessoas sejam obrigadas a morar sozinhas. É o caso de Manuel Carvalho de 84 anos residente em Vila Franca de Xira. Quando há três anos a mulher faleceu, o octogenário diz que sentiu morrer também um bocadinho de si. “Era uma boa companheira que eu tinha. Faz-me falta…”, lamenta.Ressalva, no entanto, que “deve haver pessoas que se sentem mais infelizes do que eu porque não sabem fazer nada”. Manuel Carvalho orgulha-se de ter conhecimentos da maior parte das tarefas domésticas, o que lhe dá o gozo de não ter que depender de ninguém. É com as actividades domésticas – como engomar, limpar ou cozinhar – que ocupa uma parte significativa do dia. “Há sempre coisas para fazer”, refere. Por isso é só depois da sesta que sai para se “empatar com alguém conhecido e conversar um bocadinho”.Estes são momentos preciosos que o ajudam a não sentir-se só. “Tenho mesmo que sair e dar estas voltinhas e conversar. Meter-me em casa não é saudável”, justifica. À noite volta a casa onde ninguém o espera. Mas Manuel Carvalho diz que já se habituou. A televisão faz companhia até que o sono chegue.A caixa mágica é também a companheira habitual das noites de Maria Efigénia Machado. Com 66 anos a “professora” de Samora Correia mora sozinha há oito anos, quando a mãe faleceu. Solteira, Maria Efigénia recorda o “pânico” que sentiu quando se viu sozinha.Uma solidão que diz ter aumentado em Julho quando se reformou e acolheu as últimas crianças. Durante décadas foi ama/explicadora de muitas das crianças do ensino básico de Samora Correia.Com doença (otosclerose) a limitar-lhe o desempenho, Maria Efigénia optou pela reforma. Oito anos depois de ter ficado a morar sozinha e com o fim da ocupação que tinha desde os 17 anos, diz estar ainda a aprender a estar só. “Sinto-me muito sozinha por vezes. Dá-me em lágrimas até…”, conta com um nó a garganta.Para ocupar o dia, depois da fisioterapia e de descansar, aproveita para ir até à biblioteca, ouvir rádio ou “quando tem mais paciência” vai à missa. Chegou a fazer tricô e croché, mas a doença tem-lhe vindo a limitar os movimentos e a desmotivá-la. Foi também a doença que a afastou nestes últimos meses de uma paixão de sempre: a escrita. “Não me tenho sentido capaz”, justifica-se. Sara Cardoso
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