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A fábrica que acabou com o desemprego na Azambuja

A fábrica que acabou com o desemprego na Azambuja

Sugal continua a dar trabalho sazonal a grande parte da população
Edição de 18.10.2006 | Entrevista
A fábrica de transformação de tomate, Sugal, começou a laborar há 50 anos na Azambuja tirando muita gente da vida dura do campo. Ainda hoje a unidade dá emprego sazonal na vila.Como foi criar do início uma sociedade agrícola?Quando começámos a trabalhar na Azambuja o meu sogro tinha aqui oito propriedades que faziam 40 hectares. Hoje fazemos 1.800 hectares no Ribatejo e outros tantos em Elvas. Fomos aumentando e crescendo.Com que tipo de cultura começaram?Aqui na Azambuja só havia o trigo. Cereais basicamente. Fomos os introdutores do milho na Azambuja. Depois em 1957 fomos convidados para fazer parte da sociedade que fundou a Sugal. Depois é que começou a desenvolver-se a cultura do tomate. Não foi difícil para um veterinário abraçar a agricultura?Não, tinha já muito relacionamento com a agricultura e a veterinária é uma ciência também ligada à natureza. Com quantas pessoas começaram?Quatro pessoas. Azambuja na altura do Inverno não tinha culturas. Havia desemprego. Nós aumentámos o número de postos de trabalho, aumentámos a área... Depois de 1958/59, quando a fábrica começou a tomar outra dimensão, praticamente acabou a falta de emprego na Azambuja.Como surgiu a ideia da fábrica de tomate?Um dia fui falar com o senhor Teodoro Prudêncio da Casa Prudêncio e Filhos. E ele convidou-me para a sociedade da Sugal. Disse-lhe que ia falar com o meu sogro. Entrámos. Um dos sócios Prudêncio pôs como condição avançar com o dinheiro que fosse preciso, mas sem assinar letras. Isso gastou-se na conta das máquinas e no pessoal. Havia que ter um fundo de maneio para a fábrica trabalhar. Pôs à disposição a sua quota. Outro dos sócios, Alberto Teotónio Pereira, morreu. O cunhado quis vender a quota, tal como José Prudêncio. E nós comprámos. Uma noite telefonou um dos sócios a dizer que também queria vender. Lá fizemos umas contas e comprámos tudo. Porque é que os outros sócios desistiram?Lançar uma indústria, uma marca ou um produto tem sempre uns anos muito difíceis. Com o concentrado de tomate acontece a mesma coisa. Em 1958 não se viu nada, em 59 pouco se vendeu e as pessoas começaram a desanimar. Diziam que nunca mais vinha lucro. Era só pôr dinheiro e andar para a frente e começaram a desistir. O senhor acreditou?Eu acreditei. Estava à frente daquilo, sabia o que aquilo era. Era trabalhar para vender um produto bom e esperar. Visitava a Europa várias vezes a falar com os clientes e mostrar amostras. Fomos fazendo clientes. Em 1958 fizemos 200 toneladas de concentrado. Este ano fizemos 36 mil toneladas.Foi difícil montar a fábrica de raiz?O equipamento é todo italiano. Ainda hoje vem tudo de Itália. Fomos comprando. Pouco a pouco. Naquele tempo durante a campanha a fábrica tinha muita gente. Cerca de 200 pessoas. O tomate era uma cultura que exigia muita mão-de-obra e pouco investimento. Há 10 ou 12 anos deu-se o inverso. Muito investimento e pouca mão-de-obra. Hoje é mais fácil fazer 50 hectares de tomate que era naquele tempo fazer cinco. Estava mais concentrado na fábrica?Estava nas duas coisas. Com o gado, com a agricultura e com as searas. A fábrica era aqui tão perto que passava lá quando vinha para casa.Foi coincidência instalar a fábrica mesmo frente a sua casa?Não. O senhor Teodoro Prudêncio tinha uma propriedade mesmo ali ao lado e juntámos os dois e fizemos ali a fábrica. Até havia um rapaz meu amigo que dizia com piada: “Este diabo tem a dor de cabeça mesmo em frente à vista”. (risos)Alguma vez despediu alguém?Fui obrigado a despedir algumas pessoas. Mas nunca perdi nenhum litígio em tribunal. E tive muitos processos no tribunal de trabalho. Neste momento temos mais de 150 trabalhadores em todas as empresas.Como vê o encerramento da vizinha fábrica da Azambuja?É inevitável, mas vejo com desgosto porque vai ficar muita gente desempregada. Sobretudo para homens com 40 e 50 anos é muito difícil vir a arranjar emprego noutra empresa. Isso apoquenta-me e entristece-me. Mas as fábricas e as instituições não são casas de misericórdia. Os americanos chegaram a essa conclusão e as pessoas aqui também tiveram uma certa culpa com todas estas greves. Não compreendo porque os espanhóis produzem o mesmo carro 500 euros mais barato…Dizem que são custos de transporte…Não sei… Porque é que as outras empresas também se vão embora? O português é um belíssimo operário, mas é preciso estar muito bem enquadrado. Se tiver uma boa chefia produz. Se calhar ali na General Motors isso não funcionava tão bem… Lá fora fazem todos boa figura. Porque estão bem enquadrados e têm bons chefes.Era capaz de deslocalizar a produção para fora?Se tivesse necessidade deslocalizava para a tornar rentável. A pouco e pouco tem passado o legado aos seus filhos. Tem sido uma sucessão tranquila?Fiz este raciocínio. Estou com 70 e tal anos. Qualquer dia tenho para aqui qualquer coisa e cai tudo em cima deles. Eles são quatro filhos. Já está cada um em cada pelouro. Eu vou orientando as coisas e eles vão ganhando experiência. Fiz uma sociedade familiar. São sociedades anónimas que têm uma administração, cuja assembleia geral reúne de três em três anos. Dão conta do recado ficam na administração. Não dão conta do recado vão-se embora. Está tudo previsto nesse sentido. E as filhas?As filhas têm participação, mas não estão na actual administração. O protocolo estabeleceu que eram os rapazes que ficam na administração. Se não der certo não quer dizer que amanhã venha um neto ou uma neta… Quem tiver mais unhas…
A fábrica que acabou com o desemprego na Azambuja

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