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No poupar é que está o ganho

Histórias de pessoas que conseguem chegar ao fim do mês com dinheiro

A maioria dos portugueses vive com a corda na garganta, atolado de dívidas e prestações mas ainda há quem resista ao consumismo, mercê de muitas contas de cabeça e da privação de gastos que a maioria acha banais.

Edição de 18.10.2006 | Sociedade
Não tem conta no banco, não faz férias e veste roupa que comprou há mais de 20 anos. Só faz chamadas do telemóvel “em casos de extrema necessidade”, no supermercado procura sempre os produtos em promoção e em dez anos de casado levou a mulher a jantar fora uma única vez. Isabel diz ser um custo o marido largar uma nota, nem que seja de dez euros. “É um forreta”. José não desmente que gosta de ver o dinheiro a crescer mas garante que quando é mesmo preciso abre a bolsa. Ainda há pouco tempo comprou uma mobília para o quarto do filho de três anos. A pronto pagamento, porque assim consegue ir buscar o desconto de dez por cento. “Os bancos são uns ladrões, chupam os clientes até ao tutano”, diz convicto. É por isso que há mais de dez anos que o homem residente em Tomar não tem conta bancária. O dinheiro do ordenado fica em casa, tão bem escondido que nem a mulher sabe onde ele está.José faz parte de uma minoria de portugueses que consegue chegar ao fim do mês com dinheiro – um estudo da Universidade de Economia do Porto diz que, em 2005, 35 por cento dos portugueses “desviaram” parte do seu vencimento para produtos de poupança (ver caixa).O segredo para se ter dinheiro, diz José, não é só poupar, é saber poupar. Não vale a pena comprar três ou quatro quilos de maçãs em promoção porque quando chegar a comer as últimas elas já estão estragadas. Mas se o óleo alimentar estiver em desconto leva dez garrafas.“Custa a dar o dinheiro de uma só vez mas acabo por ganhar, porque o óleo não se estraga”, diz quem faz as contas de cabeça nos corredores do supermercado. Quando o filho era bebé procurava sempre as embalagens de leite de 900 gramas, em vez de levar a de 400 gramas. “Na altura cheguei a poupar quatro euros por pacote”.Não anda roto nem descalço mas aproveita a roupa e o calçado ao máximo. Ainda hoje veste as calças de ganga que comprou quando saiu da tropa, há 25 anos. “Se elas estão boas e ainda me servem…”, diz quem não enjeita também coisas oferecidas. “Não sou esquisito como muitos pobres que andam por aí”. Há sete ou oito anos deram-lhe um par de sapatos “tão bons que podia dormir com eles”. Com tanto uso, um deles acabou por abrir um buraco na sola mas José resolveu a questão sem desembolsar um tostão. “Pus-lhe um remendo de bicicleta e está como novo”.Ao Algarve só foi uma vez, em trabalho, e não gostou nada. Por isso nunca mais lá voltou. Nem lá nem a nenhuma zona balnear. As férias são passadas em casa, construída só por ele, desde as fundações até ao telhado. Porque é preciso poupar. “Nunca se sabe o dia de amanhã”.Quando a profissão ajuda…Sofia não gosta que lhe chamem forreta. “Sou apenas poupada” diz a militar residente em Alverca. A profissão ajuda também a amealhar mais que os amigos e a chegar ao fim do mês sempre com dinheiro no banco. O facto de usar farda poupa-lhe muitos euros na compra de roupa. E também não tem que se preocupar com compras de supermercado, nem gastos mensais com aluguer de habitação, água, luz e gás. “Vives à conta do Estado, é o que dá”, costumam dizer os amigos a brincar. Sofia diz que apenas usufrui do que lhe é posto à disposição – um refeitório e um quarto na base da Força Aérea de Alverca.Mas admite que poupar é, no seu caso, uma questão “genética”, herdada da família. “Sempre me lembro de os meus pais terem um pé-de-meia para alguma eventualidade e de levarem uma vida sem luxos. Nunca foram de ir jantar fora, por exemplo”.Sofia segue-lhes os passos. Não lhe faltam convites para jantaradas, idas a bares ou ao cinema mas os amigos já se habituaram ao “cansaço” e às “dores de cabeça” que a militar costuma ter nesses dias. “Está-se sempre a cortar” diz uma amiga, que no entanto não leva a mal o estilo de vida de Sofia. “Se calhar ela é que tem razão”.Os fins-de-semana são quase todos passados na base e só em épocas de festa é que vai até ao Norte, onde reside a família. Para não gastar muito dinheiro em viagens. No Verão passado foi “convencida” a passar uns dias no Algarve. Mas só aceitou depois de saber que ficava num parque de campismo e que dividia a tenda com os amigos. E levou o dinheiro contado para a comida. Porque, como diz, “a vida não está para brincadeiras”.Margarida Cabeleira

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