uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante

Futurologia

Edição de 31.10.2006 | Opinião
A previsão do futuro é um dom magnífico.A vontade de conhecermos o que vai suceder em tempos que virão é algo de natural e, em muitos casos, reveste utilidade.Há quem recorra a astrólogos, adivinhos, tarólogos ou espíritas.Eu prefiro consultar as previsões metereológicas, consultar as tabelas de marés, ler artigos de analistas de economia ou ver os resultados de sondagens.Sei que o grau de falibilidade é grande.Nem mesmo em áreas científicas muito avançadas, a previsão do futuro é assim tão fácil.Em certos casos, é possível fazer uma análise genética e determinar se um bebé virá ou não a sofrer certa doença fatal, quando atingir a idade adulta, embora nem todos os pais o desejem saber.Todavia, nem sempre se verifica esse rigor.O meu dentista não me garante o que vai suceder com os meus dois dentes inferiores frontais. A tendência para a acumulação de tártaro e um possível recuo da gengiva pode bem determinar, que, daqui a uns vinte anos, eu os venha a perder. Por mais cuidados que tenha, é impossível prever que eles se vão manter.Há dias, o perito médico do tribunal dizia-me não saber afirmar o que iria acontecer com um jovem de catorze anos, que foi atropelado.A vítima ficou a sofrer de um ligeiríssimo encurtamento de uma das pernas. Presentemente, é mínima a tendência que ele tem para claudicar.No entanto, o clínico não sabe afirmar como se passarão as coisas quando o rapaz vier a atingir os quarenta anos de idade.A carga sobre uma das pernas será sempre superior e haverá um certo sobrepeso que pode ir agravando a situação e, eventualmente, determinar que ele venha mesmo a coxear seriamente ou ter dificuldades sérias em locomover-se.Como se pode imaginar, para mim, como juiz, seria bem útil ter uma exacta previsão do futuro, quanto a este caso. Ajudar-me-ia imenso para determinar o montante da indemnização.Já o perito médico manifestou uma opinião bem mais humana e completamente diferente. Para ele, é positivo que não se consiga prever tudo:- Ainda bem que eu não consigo determinar como será a vida deste jovem daqui a vinte e cinco anos. Imagine que eu estaria agora a dizer que ele vai passar a ter de usar bengala, só poderá conduzir veículos com caixa automática, terá muitas limitações na prática de desporto e ficam-lhe vedadas uma série de profissões. Estaria a fazê-lo sofrer, com uma antecedência desnecessária.Os processos judiciais de acidentes com crianças ou jovens são, efectivamente, dos mais impressionantes.Certa vez, no Cartaxo, uma menina de cinco anos de idade, encontrava-se no infantário.Uma auxiliar transportava uma terrina de sopa, muitíssimo quente.Conjugaram-se uma série de infortúnios.Em primeiro lugar, o sistema de colocação dos alimentos, nos dois espaços onde as crianças comiam, não era o melhor. Implicava que os que tinham idade superior a três anos faziam um certo percurso, até se sentarem à mesa.Havia algumas falhas. Na medida em que se encontrassem sempre acompanhadas, seria improvável suceder algum acidente.Mas naquele dia fatídico, quando as crianças se encontravam num corredor, a educadora teve de atentar particularmente numa delas, a fim de lhe ministrar um medicamento.Ora todos os meninos encontravam-se sossegadinhos, quando surgiu a tal auxiliar, que embateu contra uma menina.A sopa entornou-se sobre a criança, causando queimaduras no pescoço e no peito.Era Inverno e a menina envergava uma camisola de lã de gola alta. Mas o líquido penetrou-lhe através do pescoço.Uma falha assinalável foi cometida.Duas auxiliares encarregaram-se de prestar apoio à vítima e decidiram não lhe retirar o vestuário, mantendo a camisola vestida. Tinham medo que fizesse mal.É fácil compreender que tal foi muito prejudicial. O líquido quentíssimo manteve-se em contacto com a pele da criança, agravando significativamente as lesões. * Juiz (hjfraguas@hotmail.com)

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...