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A alma de Monte Penedo

Edição de 31.10.2006 | Sociedade
Tem 70 anos mas a energia e vivacidade de uma jovem de 18. Não fosse o facto de andar de muletas, depois de ter partido uma perna, e ainda hoje fazia furor em qualquer bailarico. Idalina da Graça Reis de Matos é a actual presidente da Associação de Melhoramentos de Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiros. Mais que presidente, é a alma de um projecto que pretende dignificar a vida da população idosa daquelas aldeias do concelho de Mação.Nasceu em casa dos pais, no coração de Monte Penedo, mas aos nove anos rumou com uma tia para Lisboa, para estudar. Fez o magistério primário em Castelo Branco e começou a dar aulas em Salvaterra de Magos. Sem nunca perder o contacto com a aldeia que a viu nascer e para onde voltou há 12 anos, depois de ter herdado a casa de família.Com o marido em Lisboa, foi pedreira, carpinteira, pintora, capataz de si própria na recuperação da casa herdada. Mas como “ainda” tinha algum tempo livre, resolveu voltar a estudar e inscreveu-se numa universidade sénior, em Lisboa. Três vezes por semana fazia 180 quilómetros para aprender italiano. Ia de carro até Abrantes, onde apanhava o comboio para Braço de Prata, local onde o marido a esperava para a levar à escola.Chegava sempre atarefada às aulas. E atrasada. Porque aproveitava o facto de haver um café no rés-do-chão do edifício onde funcionava a escola para comprar um rissol e um sumo. O jantar que comia enquanto subia a escadas de acesso ao primeiro andar.Uma perna partida, há sete anos, obrigou-a a parar com a correria, mas não por muito tempo. Três anos depois, em 2002, fundou ela própria o que chamou de academia de cooperação e cultura – “não gosto nada do termo terceira idade” – em Mação. “Se Maomé não vai à montanha…”, diz quem acredita que se aprende até morrer. Todas as terças-feiras 16 alunos, incluindo ela própria, estudam literatura, história de arte, história das religiões, teatro. Está convidada para ir à Hungria, visitar a família de um dos homens que andou na construção da A23. Um dos trabalhadores de Leste a quem a professora reformada ensinou a língua portuguesa, gratuitamente. “Achei que tinham dificuldades com a língua e um dia fui ter com um encarregado da obra, prontificando-me a dar-lhes umas aulas”. Hoje mantém uma ligação afectiva com a maioria deles, que entretanto já regressaram aos seus países de origem. “Esta mulher não pára”, diz um dos seus conterrâneos.

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