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A delicada aventura das famílias numerosas

A delicada aventura das famílias numerosas

Pais e mães debatem-se com inúmeras dificuldades para criar três e mais filhos

A maioria dos casais opta por ter entre um e dois filhos, mas ainda há quem se aventure a formar uma família numerosa. Vivem intensamente o dia a dia com orçamentos apertados, criatividade, cansaço e paciência quanto baste.

Edição de 31.10.2006 | Sociedade
São cinco da madrugada em Povos, Vila Franca de Xira. Anabela Pereira, 37 anos, aproxima-se do quarto dos filhos. Os três jovens entre os 11 e os 17 anos ainda dormem, mas a mãe quer certificar-se de que tudo está bem antes de sair para iniciar mais um dia de trabalho atrás do balcão do Café Vilafranquense.Há 10 anos que o horário de mãe e filhos é desencontrado, mas essa é apenas uma das dificuldades com que se debate Anabela Pereira para gerir a sua família numerosa. Tal como muitas mães e pais que enfrentam diariamente múltiplas dificuldades para sustentar e educar três ou mais filhos. A tarefa é duplamente complicada quando se está sozinha a tomar conta do lar. Como é o caso de Anabela. Para contornar a falta de tempo de manhã, deixa tudo preparado de véspera. Roupas arranjadas, cozinha arrumada, banhos tomados. “À noite não há tempo para ir ao sofá. A minha vida é casa e trabalho”, confessa a mulher que dois dias por semana ainda vai trabalhar como doméstica numa casa da cidade para garantir uma mensalidade mais desafogada. Vive actualmente na casa dos pais com os três filhos, mas em breve irá começar uma vida nova num apartamento que já alugou.O tempo é escasso, mas nem isso proíbe Anabela Pereira de estar perto dos filhos. A relação que foi criando ao longo dos anos é próxima apesar da distância física. À noite faz uma ronda pelos quartos e aproveita para perguntar como correu o dia. “Os filhos percebem que não estou com eles porque estou a trabalhar”, assegura.Difícil mesmo é gerir o apertado orçamento familiar. Sobretudo quando há livros para comprar para os dois mais novos. O filho mais velho já deixou a escola. “O meu subsídio de férias deste ano só deu para os livros escolares da minha filha”, garante.A ginástica orçamentalAs roupas muitas vezes são oferecidas e o calçado é comprado à vez. “Este mês compro uma botas à filha, no outro umas sapatilhas ao rapaz”, ilustra. A mesma estratégia é usada por Paula Ramos Serra, auxiliar de acção educativa, mãe de três filhos e residente em Azambuja. “Nunca compro casacos cor-de-rosa à Catarina para que possam dar também para o Rodrigo”, ilustra. As compras da mãe ficam para segundo plano. Paula Ramos Serra, 35 anos, tal como Anabela Pereira acredita que as dificuldades financeiras são a maior barreira que vislumbra à sua frente. “As pessoas costumam dizer que põe-se mais um pouco de água na panela da sopa e já está, mas não é bem assim”. As contas do casal são pagas à justa e por vezes falta para as actividades extracurriculares. “O meu filho mais velho já me pediu várias vezes um computador, mas é uma despesa que não posso fazer”, ilustra.Ao estrangulamento financeiro que chega todos os meses junta-se as questões logísticas que normalmente sobrecarregam a mãe. O pai é motorista e nem sempre está em casa. Fica tudo arranjado de véspera para que seja mais fácil levar os três, de oito, três e dois anos, a pé até à escola. A hora de ajudar o mais velho com os trabalhos de casa é uma das tarefas mais desgastantes. Que vem sempre depois de um dia de trabalho. O cenário repete-se em casa de Pedro e Brigitte Braz, pais de dois rapazes e de uma rapariga, residentes em Santarém. A mesa de refeições da vivenda geminada no Jardim de Cima transforma-se num espaço de estudo para os deveres escolares. O pai, inspector do trabalho, ajuda na tarefa, enquanto a mãe, farmacêutica no Hospital de Santarém se ocupa do jantar. “Quando as coisas não estão a funcionar bem trocamos de posições”, diz o pai com ar divertido.A família vive desafogadamente, mas confessa que se acabaram as manhãs de sono, as férias de sonho e as roupas de marca. Apesar de tudo a maior dificuldade tem sido a conciliação de horários de trabalho e creches e escolas. Uma missão quase impossível que só foi superada com a ajuda da instituição “Avós”.Pedro Braz, 41 anos, que integra a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, lamenta que não existam mais apoios reais às famílias de maior dimensão, à semelhança do que acontece em outros países. “A sociedade não está preparada para sustentar a vida familiar. A partir de determinada altura, digam o que disserem, a legítima ambição profissional é incompatível com a família”, alerta Pedro Braz.Ana Santiago
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