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Aldeias desertificadas ganham sangue novo

Aldeias desertificadas ganham sangue novo

Monte Penedo e Ribeira de Boas Eiras são escolhidas por gente vinda da cidade

Duas aldeias esquecidas do mundo têm sido alvo de repovoamento por gente cansada do bulício citadino. Uma nova vida sem hipermercados, transportes públicos, escola ou centro de saúde à porta.

Edição de 31.10.2006 | Sociedade
Fica encravada num frondoso vale e a estrada que a liga ao “mundo” é estreita e com muitos remendos no alcatrão. Mas isso esquece-se facilmente quando se depara com o cenário do casario envolto pelo verde da vegetação e pelo cinzento das grandes pedras milenares, que parecem cair sobre a aldeia. Não foi por acaso que a novela portuguesa “Todo o tempo do mundo” foi integralmente rodada ali. Durante uns meses a aldeia desertificada e envelhecida de Monte Penedo, Mação, ganhou vida. E as suas gentes, a maioria com mais de 70 anos, apareceram na história como figurantes.Figurantes são como têm chegado, de há uma década para cá, as pessoas que hoje assumem o papel principal na aldeia. Deixaram para trás a agitação da cidade para repovoar uma aldeia só visitada pela juventude ao fim de semana. De acordo com os dados da Junta de Freguesia de Penascoso, 88 pessoas habitam permanentemente nas duas aldeias, meia centena em Monte Penedo, 38 em Ribeira de Boas Eiras. A maior parte idosos. Desde 2000 até hoje faleceram ali 19 habitantes.Carlos e Ana Lopes foram dos primeiros forasteiros a adoptar Monte Penedo como sua terra. Hoje são responsáveis pelo único café digno desse nome existente na aldeia, propriedade da associação de melhoramentos. Viveram em Carnide, na periferia de Lisboa, até há cinco anos, quando resolveram deixar tudo para trás e apostar na qualidade de vida do interior.Carlos conhece a aldeia há mais de 30 anos, altura em que os pais a “descobriram” e resolveram comprar ali uma casa. Passou a vir para ali aos fins-de-semana e nas férias, ainda a aldeia não tinha electricidade, água canalizada nem estrada asfaltada. Há 10 anos o auxiliar de acção médica no Hospital dos Capuchos adquiriu a sua própria casa na aldeia. E há cinco, depois da reforma, instalou-se ali de vez. Até que a morte o chame, como diz.Quem sempre viveu em Monte Penedo diz que Nossa Senhora da Guia tem feito ali milagres. Como o de transformar um lisboeta como Carlos num agricultor. É no terreno que possui que passa a maior parte do seu tempo, de volta da horta, ou a apanhar a azeitona. Ir a Lisboa é “uma doença” e por isso não consegue lá ficar mais que um dia. O que gosta mesmo é de ao final de cada tarde sentar-se na esplanada do café que explora e ver o sol pôr-se por detrás dos montes. “Não há nada que chegue a isto”.Unidos pela ponteUma velha ponte romana separa Monte Penedo de Ribeira de Boas Eiras, aglomerado que tem sofrido das mesmas maleitas de desertificação e levado a mesma cura de repovoamento. As duas aldeias funcionam como uma única comunidade. Juntas para o bem e para o mal. Até há pouco tempo juntava-se-lhes Espinheiros, lugar com apenas duas casas. Hoje estão vazias, após os seus proprietários terem ido para o lar de Penhascoso.O elo de união das aldeias é dado pela Associação de Melhoramentos de Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiros, que anda há três décadas a lutar contra o esquecimento e que conseguiu até hoje proezas notáveis (ver texto na página ao lado).No mesmo dia em que Francisco era baptizado, Sara comemorava quatro anos de vida. A festa de aniversário estava marcada para o final da tarde, no café da associação, com toda a população das duas aldeias convidada.Em 40 anos Sara foi a única criança a nascer em Ribeira de Boas Eiras. A mãe, Sandra Bento, faz parte do grupo de colonizadores. A professora de matemática viveu na Trafaria (Almada) até há nove anos, quando decidiu concorrer para dar aulas na província. Ser colocada em Mação foi o melhor que podia ter acontecido a Sandra, cujos pais tinham comprado, em 1992, uma casa de fim-de-semana em Ribeira das Boas Eiras. Foi para essa casa que Sandra veio residir, até conhecer o actual marido, natural de Mação, e comprar a sua própria casa na aldeia. Hoje vão à Trafaria apenas de férias, porque a pequena Sara não dispensa a praia da Costa da Caparica.Margarida Cabeleira
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