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O único baptizado dos últimos vinte anos

O único baptizado dos últimos vinte anos

Aldeia de Monte Penedo, no concelho de Mação, vive dia histórico

O Francisco ainda não sabe mas no sábado ajudou a fazer a história de Monte Penedo. O seu baptismo foi um grito de inconformismo contra a desertificação.

Edição de 31.10.2006 | Sociedade
A pequena capela de Monte Penedo, Mação, está cheia de convidados, para assistir ao baptismo do pequeno Francisco, de quatro meses. O primeiro na aldeia nos últimos 20 anos, o primeiro do padre Amândio Mateus, recém-chegado à paróquia.Na aldeia a azáfama é grande. Prepara-se o almoço para os convidados na moderna cozinha da Associação de Melhoramentos de Monte Penedo, Ribeira de Boas Eiras e Espinheiro, dirigida por gente que há duas décadas luta contra o esquecimento (ver caixa).O padre chama os pais e os padrinhos para o altar. A testa de Francisco é benzida com óleo, a água benta é despejada primeiro na taça de estanho e, em seguida, sobre a cabeça do bebé. “Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Francisco contorce-se e chora quando o líquido frio lhe cai sobre a testa. Os convidados sorriem uns para os outros quando o pároco exclama que agora ele já é filho de Deus.Uma felicidade comparável à de Vítor e Marília, que há oito anos trocaram o Bombarral por Abrantes. E há seis meses a cidade pela aldeia. Vieram do litoral para o interior, remando contra a tendência migratória nacional. “Galinha do campo não quer capoeira”, diz Marília, de 30 anos, explicando porque não se adaptou à vida confinada a um apartamento na cidade. Os pais de Francisco cresceram numa aldeia dos arredores do Bombarral e só a trocaram quando Vítor foi colocado no campo militar de Santa Margarida, há oito anos.Foi através da ama da filha mais velha, Alexandra, agora com oito anos, que conheceram a aldeia de Monte Penedo. Paixão à primeira vista, consumada com a compra de uma casa velha. Há seis meses que estão a reconstruí-la pelas suas próprias mãos. A pouco e pouco vão transformando as velhas paredes no que será o seu lar futuro.Contam com o carinho das gentes que ali nasceram e esperam morrer e com o apoio de quem, como eles, trocou já o bulício da cidade pela tranquilidade da vida campestre, só cortada pelo som abafado dos carros que, lá no alto, passam velozes pela A23 (ver caixa).Uma estrada que dentro em pouco passam a fazer diariamente, a caminho do emprego. Marília trabalha numa fábrica em Montalvo (Constância). Vítor trocou a farda militar por um lugar de mecânico de automóveis numa empresa do Rossio ao Sul do Tejo. Ainda não estão instalados na aldeia mas já fazem parte da comunidade. “Isto é extraordinário”A família do casal veio de todos os pontos do país para assistir ao baptizado de Francisco. A maioria não conhecia ainda Monte Penedo e estava admirada com a forma de organização da aldeia. “Isto é extraordinário”, não se cansava de dizer um familiar.Enquanto a missa decorria, dois idosos da terra, sentados no muro que divide a pequena capela da sede da associação, conversavam sobre a última excursão, feita a Espanha. “Vê lá tu que não conseguíamos encontrar um café aberto em Badajoz. Tivemos de ir beber um copo às bombas da gasolina”, diz Gracindo, adiantando com ar matreiro – “e a espanhola que servia era bem bonita”. “Chiu” sussurra um conterrâneo do átrio da capela, pedindo mais contenção sonora para ouvir o padre. Em vão. Gracindo estava mesmo maravilhado com a mulher espanhola e queria que todos ouvissem os seus atributos.Já passava das duas da tarde quando o padre deu a cerimónia por encerrada e o povo, com o estômago a dar horas, se dirigiu para o telheiro onde as mesas, em forma de U, estavam já postas por membros da associação, que ofereceu o espaço, o bolo de baptismo e a confecção da comida. Os pais de Francisco apenas compraram os ingredientes.Quase uma centena de pessoas “atacaram” então a canja de galinha caseira, o bacalhau à Brás e o arroz de pato, deixando ainda espaço para uma panóplia de doces, tudo regado com vinho tinto de colheita particular. Francisco pouco se apercebeu da festa que durou tarde fora. Deitado no carrinho, o protagonista do dia dormia um sono retemperador. Margarida Cabeleira
O único baptizado dos últimos vinte anos

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