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Centro Hospitalar do Médio Tejo é realidade teórica

Centro Hospitalar do Médio Tejo é realidade teórica

Presidente da Administração Regional de Saúde critica política de capelinha e protestos descabidos

António Branco diz que a cultura de rivalidade não tem ajudado, que não há articulação dos recursos humanos entre hospitais e que há zonas do país onde a falta de médicos de família é bem pior que no Ribatejo. Uma entrevista onde António Branco dá ainda conta dos problemas que o novo aeroporto pode trazer à localização de uma urgência básica a sul da região

Edição de 14.02.2008 | Entrevista
Viu-se obrigado a emitir um comunicado a um domingo a esclarecer questões relativas às urgências no Centro Hospitalar do Médio Tejo. Há muita desinformação a inquinar este processo?Fiquei algo surpreendido com as questões suscitadas publicamente porque há cerca de um ano houve grande discussão sobre esta matéria e o ministério até quis transformar o esclarecimento então dado em protocolo com as câmaras, o que não era sequer necessário. Não há nada de novo desde essa altura, em que foi perfeitamente esclarecida a situação de haver duas urgências básicas e uma urgência médico-cirúrgica num contexto de gestão integrada de urgências.Tem havido uma instrumentalização política dessa questão?É uma boa explicação. Aliás, à dimensão dos problemas que temos, o Médio Tejo é pródigo em explicações esquisitas. Provavelmente devia haver até haver sociólogos a estudar a zona. Veja-se a questão dos doentes sem médico de família. O concelho do Seixal tem à volta de 50 mil pessoas sem médico de família. As três freguesias de Torres Novas que não têm médico - que estão numa situação em que as alternativas não são as ideais mas tem havido capacidade para atender toda a gente sem atrasos relevantes – têm sido uma inspiração para o protesto extraordinária.Falar do Médio Tejo então é generalizar demasiado, já que fala apenas na situação concreta de Torres Novas…Pois se metade do trabalho da comissão de utentes do Médio Tejo é baseado em três freguesias de Torres Novas! E depois são as ameaças – e nisto é que acho que faz falta uma explicação sociológica. A iminente ameaça a tudo e a um par de botas que se verifica no Médio Tejo é uma coisa extraordinária. Não tem nada de paralelo na região.Tem a ver com a tão falada política de quintal, do olhar só para o umbigo?Acho que o Médio Tejo não tem ganho nada em olhar de forma pouco ponderada para estas questões.Reclamar o acesso à saúde é um dever dos utentes…Não está em questão a legitimidade de reclamar o acesso à saúde. Mas sim o ambiente, que felizmente não é permanente, mas é recorrente, de defesa contra a ameaça de alguém que quer tirar tudo.Quer dizer que se tem passado muitas ideias falsas ao longo deste processo?Exactamente. Há um caldo de cultura de rivalidades que não tem ajudado nada. O mesmo que é a causa remota ou mais óbvia do erro de planeamento na criação de três hospitais no Médio Tejo.Então não se aprendeu nada?Não, não se evoluiu muito...Há poucos dias referiu a necessidade de se reduzir o défice de exploração do Centro Hospitalar do Médio Tejo. Como é que isso se faz sem prejudicar a qualidade dos serviços prestados?O sistema de financiamento é nacional, não há um pagamento diferenciado aos hospitais. O facto do centro hospitalar estar instalado em três edifícios não é inédito. Será talvez no que respeita ao facto de ter unidades tão idênticas em termos de espaço. É mais fácil quando há um hospital e um outro que, mesmo que se chame hospital, tenha uma dimensão mais pequena. Por isso sabe-se que custa dinheiro gerir a manutenção de três hospitais, mas nada parecido com aquilo que está a acontecer com o Médio Tejo.Já há muitos anos que se anda a dizer que algo tem de mudar, mas colocar a questão na prática tem sido complicado…Se fosse fácil já estava feito. Ou melhor, se fosse só cortar na despesa dizia-se não se gasta nisto, naquilo e naqueloutro. A dificuldade resulta exclusivamente do facto de neste domínio não se poder fazer isso sem assegurar que os doentes não são prejudicados. Mas provavelmente podem cortar-se algumas gorduras existentes…Não só nas gorduras como nas opções que não terão sido felizes do ponto de vista estratégico, como aliás ficou explícito numa análise feita há ano e meio pela ARS e a Administração Central em relação aos custos por doente para o mesmo nível de serviço, comparativamente a vários hospitais. O estudo, terminado em Abril do ano passado, apresentava um leque de correcções estratégicas. Algumas vão ter mesmo de ser feitas.Tais como?Há uma coisa que não pode acontecer. Mesmo que haja disponibilidade assistencial não podemos ter vários serviços de pediatria – não a valência em si mas a sua gestão - ou várias direcções de serviço. A gestão conjunta obriga a que não possa haver sobra de recursos humanos numa unidade, para determinada área, e faltar em outra unidade. Ou seja, tem de haver uma articulação dos recursos existentes. Aquilo que foi identificado foi que, à excepção de três ou quatro valências, o Centro Hospitalar do Médio Tejo ainda não é uma realidade.Para estancar o défice encara a possibilidade de algum dia uma das unidades do Médio Tejo encerrar? Ou ser concessionada a privados?Encerrar nunca foi posto em cima da mesa. Mas algumas soluções vão ter que passar por situações que rentabilizem melhor o espaço. A situação actual não é sustentável e nós temos a responsabilidade, não só política mas também civil, de não deixar aquilo cair. Mas também me atrevo a dizer que, em termos de bairrismos, a situação já foi pior. Não é um exemplo de má gestão ter parte do hospital de Abrantes devoluto e sem qualquer utilidade?O hospital de Abrantes tem um piso que está a ser preparado para uma unidade de cuidados continuados, um serviço externo à própria unidade em termos de financiamento. É uma receita extra que rentabilizará a unidade e o centro hospitalar. Tem-se falado muito na unidade de Abrantes como um hospital vazio, o que não é verdade, além da sua capacidade instalada ser a maior dos três. Em termos do centro hospitalar a situação actual é ter o hospital de Torres Novas, que é o mais pequeno, completamente cheio, e o de Tomar ser o mais equilibrado em termos de capacidade instalada. Mas todos têm as tais gordurinhas.A questão da mobilidade entre os três hospitais é outro sintoma de que alguma coisa falhou. Continua a não haver uma rede de transportes públicos eficaz a ligar as três cidades.Ainda antes de haver os três hospitais foi feito um trabalho sobre esse assunto com debates entre diversas entidades, nomeadamente autarquias e direcção geral dos transportes. Procurou-se mobilizar soluções em matérias que nunca poderiam ser resolvidas pelos hospitais, apesar de a saúde ter de estar envolvida nessa malha. Mas daí para cá a situação não evoluiu grande coisa. Assim é difícil evitar a contestação popular e o descrédito de quem administra a coisa pública…Todos os locais têm transportes colectivos, o que não existe é uma articulação que torne fácil e expedita a circulação entre as três cidades que têm as unidades.A actual remodelação governamental não pode levar a uma mudança na estratégia para o CHMT?Os objectivos não foram alterados.Não temeu ser arrastado na remodelação?A minha actual situação, desviada da profissão onde gosto de estar, é particularmente confortável. Ou seja, não será para mim um castigo regressar em qualquer altura ao centro de saúde e ao exercício da medicina. É claro que nesta remodelação pusemos o cargo à disposição da nova ministra, que aliás foi minha chefe, quando presidiu ao cargo que agora ocupo. Não vai haver dificuldades de relacionamento.Margarida Cabeleira / João Calhaz
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