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Houve negligência do Estado na formação de profissionais de saúde

Edição de 14.02.2008 | Entrevista
São frequentes as reclamações populares devido à falta de médicos, sobretudo nas extensões de saúde rurais. Essas unidades têm os dias contados?Houve provavelmente na região de Santarém um excesso de voluntarismo na criação de extensões de saúde. Foi-se longe de mais. Desde há uns anos que algumas foram desactivadas e não tenho dúvidas que mais algumas têm de ser.Por falta de médicos ou por uma questão de escala?Por questões de escala e porque de cada vez que os médicos e enfermeiros andam a circular de umas extensões para outras menos tempo têm para tratar doentes. Penso que isso não é uma coisa muito misteriosa (risos).... Mas a ideia que às vezes se passa de que se quer acabar com as extensões não tem qualquer fundamento. Os centros de saúde têm condições humanas e materiais para se constituírem como alternativa às urgências hospitalares em termos de primeiro diagnóstico?Desde há 12 anos, em todas as áreas, o movimento de atendimento nos centros de saúde tem aumentado e nos hospitais baixado, incluindo nas urgências. As falsas urgências são filtradas nos centros de saúde.Não é serem filtradas, as pessoas são atendidas noutro lado. E todos os centros de saúde têm equipamento e meios humanos para garantir essa assistência?Todos têm meios para assegurar a assistência para a grande maioria das situações. Há alguma falta de recursos humanos, mas a carência no Ribatejo é inferior às das zonas suburbanas de LisboaNa nossa região há muitos milhares de pessoas sem médico de família e muitas especialidades nos hospitais que não funcionam por falta de médico. Como é que se consegue dar a volta a isso?Um exemplo: em 1989 entraram para o curso de medicina 180 estudantes, num ano em que se aposentaram mais de 600. Ou seja, com aquele caminho a coisa ia correr mal. Este ano entraram cerca de 1.400. Só que entre entrar o estudante de medicina e sair um médico especialista no mínimo dos mínimos são nove ou dez anos. Tudo o que se faça hoje só vai ter efeito daqui a uma década.Houve um descuido evidente do Estado nessa matéria.Não é descuido, é negligência em termos de programação das profissões de saúde. Não é só com os médicos. E depois há a distribuição pelas especialidades. Num prazo relativamente curto as carências de médicos de família vão-se atenuar. Há mais médicos a sair das faculdades e mais médicos a optar por essa especialidade. Esperamos para este ano 40 novos especialistas, praticamente o dobro do ano passado.Depois resta esperar que se candidatem às vagas que a ARS tem aberto sem grandes resultados.O problema principal tem sido que não há médicos para contratar.Custa a entender que uma região que está a uma hora de Lisboa tenha tanta dificuldade em cativar profissionais de saúde.Se até há carência a um quarto de hora de Lisboa… Nos médicos de família esse fenómeno não acontece. Ao nível das especialidades hospitalares sim. Há excedentes de médicos por exemplo em Lisboa e carência noutros pontos do país.E como é que se podem cativar esses médicos para exercer noutros locais?Mercado de trabalho, reforma da administração pública, PRACE...Acha normal haver tantos médicos a alegarem objecção de consciência para não provocarem abortos nos hospitais?Não tenho nenhum padrão. Não faço a mais pequena ideia se são muitos se são poucos. Não consigo achar estranho nem normal.“Sede dos agrupamentos de centros de saúde podiaser numa caixa postal”A Sub-Região de Saúde de Santarém vai dar lugar a quatro agrupamentos de centros de saúde (ACE). O que vai ser feito dos actuais funcionários?Pode acontecer alguma coisa de semelhante aquilo que aconteceu com a extinção da Sub-Região de Saúde de Lisboa, em que a maioria dos funcionários foi incorporada aqui na ARS e alguns transferidos para centros de saúde, num processo que ainda não está terminado. Mas neste momento não temos um escrutínio rigoroso para saber se no fim disto tudo há sobras ou não.Quando é que os agrupamentos vão começar a funcionar na prática?A lei está para publicação. É de esperar que os agrupamentos estejam todos criados até Março ou Abril.Estão confirmadas as localizações das sedes dos agrupamentos em Constância, Torres Novas, Almeirim e Santarém?Ainda não há decisões relativamente a isso. Mas as localizações das sedes até podem ser numa caixa postal.Há quem não pense assim, como o ex-presidente da Câmara de Tomar, António Paiva, que criticou a possível escolha de Constância para sede do agrupamento que vai servir o seu concelho.Esse é um episódio da teoria do deserto de que o presidente da Câmara de Constância não gostou.Qual a razão para a escolha de Constância?Constância, naquela zona, é o centro de saúde em que o excesso de construção é mais óbvio. Para 800 ou 900 inscritos tem instalações que davam para cinco mil. É um centro de saúde muito bonito mas completamente desproporcionado em termos de dimensão. Em Tomar e Abrantes há dificuldades de instalações. Do ponto de vista da centralidade e das acessibilidades Constância faz sentido pois está perto de tudo. Além disso ninguém vai aos agrupamentos receber assistência, tal como não ia à Sub-Região de Saúde de Santarém. Houve também aí alguma desinformação?Uma coisa que pretende desconcentrar aparece como qualquer coisa que se tira às pessoas. Ou seja, aquilo que está hoje em Santarém, se este modelo for aprovado, vai estar em quatro sítios diferentes.

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