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Uma vida dedicada à arte de barbeiro

Uma vida dedicada à arte de barbeiro

Nasceu em Vila Viçosa e radicou-se em Santarém,

João Vinagre gosta do que faz e não se sente cansado. Diz que os barbeiros são como os pássaros, que descansam em pé. A 17 de Fevereiro juntou mais um aniversário na conta.

Edição de 28.02.2008 | Identidade Profissional
Há 58 anos que João Vinagre não faz mais nada do que cortar cabelos. Pelas suas mãos, munidas de tesouras e navalha, passaram milhares de cabeças com mais ou menos cabelos, barbas grandes ou outras mal semeadas. Veio do Alentejo para Santarém e dali mais não saiu. Nasceu em Vila Viçosa que era, como outras localidades pequenas do Alentejo, escassa em perspectivas de emprego. Ou se saía para os principais centros urbanos ou se tentava um ofício. Aos 14 anos não pensou duas vezes e entrou como aprendiz para uma barbearia, quando soube que havia uma vaga. “Havia pouca escolha. Como não tinha arcaboiço para ir trabalhar no campo, tinha que optar por um daqueles ofícios tradicionais – alfaiate, barbeiro ou sapateiro, por exemplo. Já a minha mãe dizia que quem tem um ofício tem um benefício. Hoje, felizmente, não me posso queixar”, constata o barbeiro. Que do alto dos seus 72 anos ainda apresenta a mesma motivação para trabalhar.João Vinagre foi barbeiro toda a vida. Nunca aprendeu outra arte mas aperfeiçoou-se na sua. Diz que quem não é bom no que faz não vinga. Com o primeiro ordenado de 25 tostões por semana foi ao cinema. No tempo que os filmes de Zorro e Cantinflas marcavam pontos. Os penteados desse tempo eram todos muito iguais. Nas crianças, com tesoura e máquina, mais justinhos porque também eram cortes mais baratos. Nos clientes adultos o cabelo “despontado” era coisa para custar três escudos.Após oito anos de trabalho como aprendiz, João Vinagre tentou a sorte em Elvas, a 32 quilómetros de Vila Viçosa, quando um colega lhe falou num barbeiro que precisava de um empregado. Durante oito anos ali exerceu e com um bom ordenado para a época, 300 escudos, como oficial de barbeiro. Mas a ambição era maior. Viu no Diário de Notícias que precisavam de um barbeiro em Santarém. Telefonou e chegou a acordo. Mantinha o ordenado e tinha cama, mesa e roupa lavada. Antes de viajar para a capital do Ribatejo ainda esteve ano e meio na terra natal.Esteve dois anos na barbearia de José de Oliveira, na rua Capelo e Ivens. Mudou-se para a Barbearia Moderna, na travessa das Condinhas, onde esteve durante duas décadas. Na primeira como empregado e na segunda já como sócio do proprietário. Há 25 anos surgiu a hipótese de João Vinagre voltar a mudar de casa. Desta feita para a Barbearia Elegante – o antigo Salão Elegante com 80 anos de actividade - no número 16 da rua Guilherme de Azevedo. Começaram por ser quatro sócios, depois três. João Vinagre mantém-se nos cortes de cabelo com Amorim Ribeiro, que também já soma 32 anos de casa. António José Guedes, que também foi barbeiro, está como sócio do lado de fora.O corte de cabelo foi evoluindo com o tempo. Na década de 70 levou um abanão quando mais gente começou a andar de cabelos compridos. “Foi preciso passar do corte tradicional e aplicar novos penteados, caso do corte francês com recurso à navalha. Em 1971 mandámos vir a Santarém dois técnicos, um deles campeão nacional de penteados, que fizeram demonstrações”, recorda João Vinagre. Leu livros e aprimorou técnicas numa actividade que começava a ser encarada como uma arte. Hoje, pelo contrário, está em voga o corte justinho, à máquina. O barbeiro lembra na brincadeira que não tirou o curso para passar cabelos à máquina. Mas adapta-se aos tempos, mesmo quando vê cabelos no ar com gel ou com outros feitios. “A base é sempre a mesma. Depois adapta-se ao penteado que o cliente quer”, acrescenta. Muitas histórias para contarEm 58 anos de vida profissional, João Vinagre tem muitas histórias para contar. Certo dia, um cliente foi lá cortar o cabelo como era hábito. Meia hora após o trabalho terminado regressou à barbearia a dizer que a mulher tinha notado que uma patilha estava mais acima que a outra. “Sentei-o na cadeira, observei-o e vi que estava bem. Disse-lhe depois que o que ele tinha era uma orelha mais acima que a outra”, graceja, recordando que acabaram os três bem dispostos.Nunca cortou o cabelo a mulheres porque não calhou, mas diz que sabe. E respeita a profusão de cabeleireiros que têm surgido, onde tanto cortam cabelos a mulheres como a homens. João Vinagre gosta do que faz e não se sente cansado. Diz que os barbeiros são como os pássaros, que descansam em pé. A 17 de Fevereiro juntou mais um aniversário na conta. “Vou continuar nesta actividade até sentir que não estou em condições de fazer um bom trabalho”, conta quem passou uma vida em pé, em volta das cadeiras com clientes. O mesmo local onde fez muitas amizades, põe a conversa em dia sobre futebol, política e mulheres. “Tenho clientes que ficam aliviados quando vêm para o barbeiro e têm aquela meia horinha para eles e para descansar”, constata. E orgulha-se das três gerações de clientes que ali passam, pais, filhos e netos.
Uma vida dedicada à arte de barbeiro

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