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Uma visita sem guia às pegadas de dinossáurios da Pedreira do Galinha

Uma visita sem guia às pegadas de dinossáurios da Pedreira do Galinha

Ver o filme explicativo é uma sorte e visita guiada só se houver grupo superior a dez pessoas
Edição de 28.02.2008 | Sociedade
O MIRANTE vestiu a pele de turista e foi visitar o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire. E saiu do local algo desiludido. As estatísticas oficiais dizem que mais de 50 mil pessoas visitam anualmente denominada Pedreira do Galinha. Se todas tiverem o mesmo tratamento da reportagem do nosso jornal dificilmente voltarão.O rádio anuncia as 14h00 quando chego à localidade do Bairro, concelho de Ourém, para uma visita ao monumento. Precisamente à hora em que abre ao público após o almoço. Decido dar mais um tempo à chegada de potenciais turistas e dirijo-me ao único café existente na estrada principal que liga a Fátima. O restaurante O Transmontano fica a 600 metros do monumento e até tem um letreiro com um dinossáurio verde a anunciá-lo, mas não é por isso que a clientela aumentou. Enquanto se espera pela bica mete-se conversa com o proprietário que, de braço ao peito, vai dizendo não ter ficado mais rico com a descoberta das pegadas. “Quem cá vinha continuou a vir, o resto são os motoristas dos autocarros das escolas e pouco mais”. Os gaiatos que vêm em excursões trazem farnel e só ao domingo é que costuma servir refeições a turistas. Deixa-se o carro numa rua da aldeia e faz-se o resto do caminho a pé. Empurra-se a porta que anuncia a recepção e os olhos batem de imediato numa espécie de cabide suspenso onde estão penduradas t-shirts de várias cores e modelos. Em frente, estantes recheadas de artigos para todos os gostos, desde réplicas de dinossáurios a pedras de formatos e cores diferentes. Ao lado há sacos pendurados, mais camisolas, livros, postais, conchas e até garrafinhas de azeite. A panóplia de artigos não podia ser mais eclética e quase esconde o balcão em semicírculo onde se encontram duas jovens recepcionistas. Diz-se ao que se vai e pergunta-se o preço do bilhete. “Dois euros” refere uma das jovens. Dá-se a moeda e recebe-se um folheto denominado guia de visita.Vídeo informativo só com hora marcadaA visita devia começar “pela observação de um vídeo de enquadramento, seguida de um percurso pedestre circular com cerca de mil metros”, mas a funcionária avisa logo que não o posso ver. “Estamos à espera de um grupo de estudantes e como o filme demora 17 minutos não o podemos passar agora para si porque eles podem chegar entretanto”. Mas eu cheguei primeiro… - atrevo-me a dizer. A funcionária responde: “Eles têm visita marcada”. E eu não. “Passa a entrada e segue pelo trilho da direita. O caminho está assinalado, tem 1,5 quilómetros e demora mais ou menos 30 minutos”, despacho-me.E lá vou eu, de máquina fotográfica a tiracolo e óculos escuros a proteger a vista do sol. A grande laje onde estão a pegadas observa-se de todo o percurso, que tem sete painéis informativos, em português, francês e inglês. Há bancos para descansar e caixas também em madeira para pôr o lixo. Numa delas encontra-se amarrotado um livrinho de 18 páginas com o título “A minha visita ao Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire – guião de exploração pedagógica”. Soube mais tarde que é dado à chegada mas apenas a estudantes.Ofegante, chego finalmente à parte de cima da extensa laje onde estão as famosas pegadas. Percorro o circuito assinalado por cordas e estacas em ferro e começo a ficar desorientada porque não consigo distinguir as pegadas entre as dezenas de buracos que encontro. “Fazia-me falta um guia” penso com os meus botões. Visitas guiadas só para grupos superiores a dez pessoas e com marcação prévia. Preço dos bilhetes só dá para manter um guiaRegresso à base mesmo a tempo de encontrar três autocarros de turismo. Finalmente avisto gente, ao fim de 35 minutos sem ver vivalma. São três da tarde e a recepção está cheia de miúdos. Duas professoras queixam-se quando lhes é dito que nem todos podem ver o vídeo. A lotação da sala é limitada e para todos o poderem visionar não conseguiriam depois visitar o monumento antes do seu encerramento, às 19h00. “Chegaram uma hora atrasados…”, justifica uma das recepcionistas. “Viemos de tão longe. Não tem mais guias?”, pergunta uma das professoras da Escola da Sé, no Porto. “Isso ando eu a pedir há dez anos”, responde a jovem.A recepcionista vê-me e chama-me: “Se quiser ver agora o filme pode entrar com este grupo”. Respondo que me tinha dado jeito era vê-lo antes. Ela encolhe os ombros e abana a cabeça em sinal de compreensão. “Pois é, uma pessoa normal não distingue as pegadas facilmente”. Perguntei se não tinham livro de visitas. “Só o livro de reclamações. Se quiser…”. Digo que não vale a pena e saio para o sol com a frustrante sensação de que sou uma pessoa normal, porque não descobri as benditas pegadas sem a ajuda de um especialista. Da próxima, se a houver, juro que convido para meu guia o professor Galopim de Carvalho.Os trilhos de dinossáurios foram encontrados por acaso na Primavera de 1994, numa pedreira explorada pelo empresário Rui Galinha, situada no Bairro, concelho de Ourém, e foram classificadas como monumento natural em 1996, depois de o Estado adquirir a pedreira por 4,5 milhões de euros. Ao longo dos últimos anos a direcção do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros apresentou soluções para a acentuada erosão da laje onde estão as pegadas. Nenhuma foi levada à prática. A erosão, motivada pelo facto de a laje ser de pedra calcária (macia), está a deixar a zona onde estão as pegadas bastante danificada.
Uma visita sem guia às pegadas de dinossáurios da Pedreira do Galinha

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