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“Gostaria que houvesse mais justiça social”

Edição de 23.04.2008 | Entrevista
Nos seus poemas critica a guerra, o regime, o clero, os generais da brigada do reumático. Agora não escreve poesia para criticar a vida política? Não há nada que mereça uns versos satíricos? Nem o “Porreiro, pá!” do José Sócrates ou os projectos de arquitectura que ele assinou, por exemplo?Eu no capítulo da política prefiro escrever mais em prosa do que poesia. A sua ligação ao PS amaciou-lhe a veia satírica. A militância obriga ao politicamente correcto? Obriga a manter alguma reserva e silêncio?Eu fui tudo no PS, excepto secretário-geral. Alguém que faz parte de uma comissão política, que é o órgão máximo do partido, tem que ser solidário com o colectivo. Não pode começar a falar pela sua cabeça. Como é que um espírito livre consegue viver tantos anos acorrentado a essa disciplina partidária?Houve alturas em que não foi assim. Acredito que não estivesse sempre de acordo, mas a tal solidariedade de que falou obrigava-o a calar-se. Uma coisa é a pessoa ser pressionada e aceitar calar-se por dever. Outra é não inviabilizar iniciativas em curso que não sejam suficientemente importantes para votar contra. Eu não me lembro de nenhum caso concreto onde tenha sentido a minha consciência violentada. Houve situações em que gostaria que a decisão tivesse sido outra. Mas num grupo parlamentar há a regra da democracia. Respeitamos a maioria. O que sente quando vê populações na rua a manifestarem-se contra a política da saúde? Pessoas idosas, fragilizadas, a viver num interior cada vez mais desertificado e abandonado?Quando fui para a Constituinte nomearam-me para presidir à Comissão de Direitos e Deveres Económicos e Sociais. O artº 64º da Constituição que é o direito à saúde foi aprovado lá. No final da votação, quando tudo começou a bater palmas, o Prof. Miller Guerra disse-me: ‘isto é tudo muito bonito mas estou para ver quem vai pagar?’ Estávamos em 1976.Não está solidário com as populações?As pessoas não são estúpidas. O projecto do Correia de Campos é moderno, necessário e pode melhorar o que está. Não exijo que a população da Anadia saiba isso mas exijo que o Manuel Alegre o saiba. Eu nasci na maternidade Alfredo Costa em Lisboa. Fui lá nascer. Voltamos à questão da saúde. Os meus pais viviam em Portalegre. Eu fui o primeiro filho e o médico disse que o melhor era eles irem a Lisboa porque em Portalegre não havia condições. O que temos hoje corresponde ao que o José Niza imaginou?Corresponde. A população é induzida em pânico pelas declarações políticas. Tive um edema agudo do pulmão. Estive internado em Santa Maria e aqui em Santarém. Numa enfermaria. Com pessoas humildes. Não estive em quarto particular. E constatei que temos um SNS de qualidade. A unidade de coronárias, por exemplo, é uma coisa de nível mundial.Não faz parte dos desiludidos com o 25 de Abril?De maneira nenhuma. Gostaria que houvesse mais justiça social e fiz por isso. Mas reconheço que não se pode exigir o impossível. Acho que certas exigências são demagógicas. Faço um balanço altamente positivo do 25 de Abril. Gosto muito de ser português e de viver em Portugal. Disse uma vez ao MIRANTE que não concordava com as homenagens em vida. Este ano aceitou ser homenageado pela Câmara de Santarém no 25 de Abril. Mudou de opinião? Eu encaro isto de uma forma mais colectiva que individual. O prato forte do programa vai ser a música. Vão homenagear a música portuguesa, os cantores, os poetas, os músicos. Não é uma coisa tipo Salgueiro Maia. É uma homenagem para distribuir por muita gente. Além disso estas homenagens só acontecem pela situação em que estou. Se eu ainda fosse deputado não eram feitas.

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