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A escritora que era obrigada a ir a touradas porque o pai não queria o camarote vazio

A escritora que era obrigada a ir a touradas porque o pai não queria o camarote vazio

Rosa Lobato Faria foi convidada da Biblioteca da Quinta da Piedade no Dia Mundial do Livro

É poetisa, romancista, actriz e cronista. Rosa Lobato Faria começou a escrever influenciada pelas cantigas que ouvia no Alentejo onde passava férias. Não é apreciadora de touradas, mas na adolescência assistia a corridas todos os domingos. O MIRANTE falou com a escritora convidada da Biblioteca da Quinta da Piedade, na Póvoa de Santa Iria, no Dia Mundial do Livro.

Edição de 30.04.2008 | Entrevista
Em que altura descobriu a paixão pela escrita?Tinha seis anos quando comecei a escrever poesia. Escrevi poesia durante toda a vida. Em adulta comecei a escrever coisas pequenas, como contos e crónicas. Muitas crónicas. Sempre achei que não tinha aquela capacidade, nem paciência, de pesquisa para me aventurar noutros estilos. Só muito mais tarde, já depois dos 60 anos, é que comecei a escrever romances. E nunca mais parei...Houve alguém que a tenha influenciado a escrever?Era influenciada sobretudo pelas cantigas que ouvia no Alentejo. Sou de Lisboa, mas tinha uns tios que moravam lá e ia passar lá as férias. Achava as cantigas que lá se cantavam muito bonitas. E pensava que também gostava de fazer versos tão bonitos e comecei a escrever. Poesia e escrita são coisas muito diferentes?Muito. Uma mesma palavra pode ter significados diferentes em diferentes géneros literários. Por exemplo, quando dizemos árvore num poema, a palavra árvore é um símbolo. Mas se dizermos árvore num romance temos que saber que árvore é aquela. Se no local onde se passa a nossa história existe aquele tipo de árvore, se cai a folha ou não. São duas visões opostas do mundo que nos cerca.Onde vai buscar a inspiração para escrever?Não sei. São coisas que não procuro. Faço o meu dia-a-dia normalmente e, de repente, começa a surgir-me a ideia. Penso que seria giro fazer um livro sobre esse assunto que aparece no meu pensamento. Mas não passo logo para o papel. Deixo andar um tempo com as ideias no pensamento para ver se a história tem realmente pernas para andar. Nesses momentos, as pessoas falam comigo e nem as oiço com atenção. Quando sinto que a ideia está amadurecida, escrevo.O que faz quando lhe falta a inspiração?Nunca me falta a inspiração porque ninguém me obriga a escrever. Escrevo porque quero. É um prazer. Na altura de escrever, escrevo. Não sou uma pessoa que se angustia por não saber o que há-de escrever.Porque é que os livros de poesia não são best-sellers?A verdade é que muito pouca gente gosta de poesia. Dizem que gostam mas não gostam. A grande verdade é que a poesia requer uma cultura maior, uma análise muito mais profunda. É mais complicado gostar de poesia do que gostar de prosa. A prosa, pelo menos a minha, não é tão complicada e penso que as pessoas se identificam mais.Os jovens estão a ler mais? Tem uma visão optimista?Quero ter uma visão optimista. Desde a primeira feira do livro que fui até agora noto uma diferença enorme. Vejo muito mais gente. Agora, se todos eles compram livros ou se vão ler os livros que compram, não sei. Quero acreditar que sim.O público português reconhece o trabalho dos artistas ou esquece facilmente?Há uma parcela do público que gosta do trabalho do artista e o acarinha. Mas esta é uma situação que não depende do público. Grande parte da culpa é do Governo que detesta os artistas. Acham que somos uns gajos malucos de que ninguém quer saber e, por isso, não existe estímulo. O que torna tudo muito mais difícil.Qual foi o trabalho que mais a marcou?O romance de Cordélia uma vez que tive que fazer uma pesquisa muito difícil. Fui para a prisão onde convivi com as reclusas. Passava os dias lá. Só não dormia na prisão porque não era permitido. Foi uma experiência muito marcante. Pedi para me colocarem em contacto com pessoas que tivessem morto os maridos ou amantes. São pessoas iguais a nós. Com sonhos. A única diferença é que nasceram do outro lado da rua. Tiveram apenas uma educação diferente. Por isso debatem-se com outras dificuldades que eu não tive. Mataram por necessidade. Mataram para não morrer.Qual é sua opinião sobre as tradições ligadas à festa brava como as corridas de toiros?Para ser muito franca, detesto touradas. Acho uma coisa bárbara. Mas acho que é uma tradição que talvez valha a pena preservar uma vez que tem raízes antiquíssimas.Alguma vez viu uma corrida de toiros?Vi muitas corridas de toiros ao vivo. O meu pai era capitão de porto na Figueira da Foz e tinha um camarote na praça de toiros. Ele achava uma falta de educação deixar o camarote vazio sempre que havia tourada. Por isso, recrutava a família para assistir às touradas.O que gostava mais numa corrida de toiros?Dos forcados (risos). Quando éramos adolescentes já gostávamos mais das corridas de toiros por causa dos forcados. Eram os nossos namorados. Uma coisa muito leve que durava apenas aquele tempo em que eles estavam na Figueira da Foz. Era uma coisa muito inocente.O que é que ainda lhe falta fazer?Não faço projectos. Vou fazendo as coisas à medida que surgem as ideias e os projectos. Felizmente, não posso dizer que me falta fazer algo para completar o meu percurso. Completar o quê? A vida é uma passagem tão breve. Estamos cá apenas para aprender e quando já sabemos algumas vamos embora.Sente-se realizada?Nunca ninguém se sente completamente realizado. Gostava de ver as minhas netas crescidas, por exemplo. Mas vou andando, vivendo e aproveitando os dias.
A escritora que era obrigada a ir a touradas porque o pai não queria o camarote vazio

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