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Cegueira súbita não lhe tirou a vontade de dançar

Cegueira súbita não lhe tirou a vontade de dançar

Marylu Martins perdeu a visão em três meses na sequência de uma depressão

Dançava desde muito nova. Aos 38 anos perde a visão. Depois de um período conturbado em que se adaptou à sua nova condição, Marylu Martins voltou às danças de salão ensinando, com o marido, os passos para os estreantes nestas lides.

Edição de 30.04.2008 | Sociedade
No filme “Perfume de Mulher” (1992), há uma cena memorável. Al Pacino, que protagoniza um tenente-coronel cego reformado, pergunta a uma rapariga (Gabrielle Anwar) se quer dançar. “Estou à espera de uma pessoa a qualquer momento”, responde a jovem. “Vive-se uma vida num momento “, replica. Ao início hesita mas é persuadida. Dançam o tango e é ele, invisual, que a conduz. Uma cena intensa que marca o espectador. No caso de Marylu Martins, 44 anos e invisual há seis, passa-se o contrário. Quem a conduz nas danças, neste caso de salão, é o marido, Hélder, com quem está casada há 18 anos. Os mesmos em que pratica, por exemplo, a rumba, o chá-chá-chá, a valsa, o merengue e, claro, o tango. “Na dança é sempre o homem que conduz mas a mulher também tem que aprender a sua parte para as coisas sairem bonitas”, explica o marido, técnico de electrónica durante o dia que à noite veste o papel de professor de danças de salão.Residente em Tomar, Hélder Martins actualmente ensina danças de salão na Sociedade Nabantina e na Filarmónica Frazoeirense, em Ferreira do Zêzere. O facto da esposa ser invisual não é impedimento para que Marylu continue a ser a sua companheira de demonstrações dos passos aos novos adeptos destes ritmos. Dos mais básicos aos mais complexos. “Costumo dizer que se não fosse cega ela conseguia fazer isto de olhos fechados, sem ver”, brinca. Marylu, que elege a quente rumba como a sua dança favorita, interrompeu esta actividade uns meses antes de ter perdido a visão. A culpada tem um nome: depressão. “Tomei um medicamento que era contraproducente para quem, como eu, sofria de glaucoma (pressão intra-ocular) e acabei por cegar em apenas três meses, no decorrer dessa depressão”, explica. Foi preciso que decorrerem quatro anos até voltar a reencontrar o ânimo que a levou de volta à pista de dança. “A certa altura, quando já estava recuperar da depressão, o Hélder estava a precisar de alguém que o acompanhasse num curso de dança intensivo que estava a dar e foi assim que voltei”, explica. “Não era a cegueira que me impedia de dançar. O que me impedia de dançar era a depressão”, faz questão de frisar. À espera de uma oportunidade no mundo do trabalhoA forma exemplar como dança, muitas vezes soltando-se do marido e rodopiando, surpreende muitos dos que observam o casal. Frequentemente recebe elogios e palavras de incentivo pela sua performance. Marylu revela o segredo: “Gosto muito de dançar e já dancei muito na minha vida. Depois já estou muito habituada ao Hélder e há muita cumplicidade entre nós.” Habituada a estar no centro das atenções, Marylu não esquece, no entanto, o comentário menos elegante que, certo dia, uma senhora lhe fez, no final de uma aula. “A Marylu como é cega mesmo que dance mal toda a gente lhe diz que dança bem… por isso esteja descansada”, conta a rir. “Esta pessoa nitidamente não sabe o trabalho que está por detrás de cada passo e o esforço que existe da minha parte”, completa. Dos momentos menos bons nem vale a pena falar. Optimista por natureza, Marylu Martins é assumidamente vaidosa e faz questão de andar sempre bem arranjada. Descreve-se como uma pessoa muito dinâmica, incapaz de estar de braços cruzados à espera que as coisas aconteçam, como que por milagre. Foi também por essa razão que acabou agora um curso de telefonista no Centro de Reabilitação em Lisboa, aguardando uma oportunidade de estágio numa empresa. Antes já tinha tirado, na mesma instituição, um curso de massagista mas que não lhe deu o emprego ambicionado. “É preciso que as pessoas saibam que, com a mesma força de vontade que deixei de ver e continuo a dançar (e acho que bem) tudo o que faço na vida é sempre com muito empenhamento”, atesta. “Só me vou abaixo quando vejo que todo o meu esforço não é reconhecido”. Marylu diz que sempre que dança entra num mundo mágico. Por isso vai dançar e ensinar a dançar até não poder mais. Quanto à rasteira que a vida lhe pregou aos 38 anos, tem definida uma teoria muito curiosa, na qual se apoia sempre que se sente o ânimo a esmorecer: “A vida é uma aprendizagem. Se isto me aconteceu é porque a vida me quer ensinar algo”.
Cegueira súbita não lhe tirou a vontade de dançar

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