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O artista que nasceu no circo diz que a magia nunca irá morrer

Carlos Monteiro defende que as entidades públicas deveriam apoiar a actividade

Depois de mais de 50 anos vividos nas pistas de todo o mundo, Monteiro não se conforma com a morte lenta do espectáculo e quer dar vida ao circo com a ajuda do Batatoon.

Edição de 05.06.2008 | Sociedade
Carlos Monteiro, 56 anos, nasceu no circo e sempre viveu para a pista onde domou feras, fez acrobacias em altura, números com cavalos e vestiu a pele de palhaço para fazer rir crianças e adultos. Herdeiro da família Mariano, que se instalou no Porto Alto, Samora Correia, há mais de 30 anos, Carlos não se conforma com a morte lenta do maior espectáculo do mundo. “O circo nunca acaba. Faz parte da fantasia da criança e os pais vão entender isso. Em vez de comprarem um jogo para a play-station vão trazer as crianças ao circo”, vaticina.O empresário reconhece que o circo tem de se adaptar à nova realidade porque tudo mudou. Acredita que é possível colocar ginastas, dançarinos, músicos e actores de topo no circo e valorizar o espectáculo, mantendo a ligação ao circo tradicional. A tenda gigante e colorida é indispensável. Pode ser melhorado o aspecto e o conforto, mas o circo tem de ser na tenda. “É o que atrai qualquer criança. Repare que nos desenhos infantis aparece sempre a tenda do circo e o palhaço”, frisa. A conversa com O MIRANTE decorre na véspera do Dia Mundial da Criança e Carlos e uma equipa de 20 profissionais preparam uma grande recepção para a pequenada com o novo projecto do circo Gottani que aposta na figura do palhaço batatinha da série Batatoon. O personagem criado pelo actor António Branco foi líder de audiências na TVI e todos acreditam que as crianças já têm saudades do palhaço do chapéu e do relógio gigantes.“O circo tem passado e terá futuro se as pessoas perceberem a força deste espectáculo”, refere o criador do Batatinha numa conversa com O MIRANTE. António Branco conta com a ajuda da TVI para reaparecer em força com um espectáculo que foi um dos maiores sucessos de sempre para o público infantil. “Temos aqui um casamento com o circo e julgo que nos vamos entender”, realça.Entidades públicasdesprezaram o circoCarlos Monteiro veste também a pele de relações públicas do circo Gottani para promover o novo formato do Batatoon. O artista já correu o mundo, actuou em alguns dos melhores circos internacionais, e domina a arte circense como poucos. “Lembro-me que os grandes artistas italianos e as vedetas da televisão iam ao circo e vinham à pista dar-nos os parabéns”, recorda.Como não vive da saudade, e não se imagina a fazer outra coisa, Monteiro quer continuar a trabalhar no circo. “Não me imagino a fazer outra coisa. O circo foi a minha vida”, refere. Os filhos perceberam que não havia futuro na pista e optaram por outras vidas no estrangeiro onde está uma boa parte da família que fez sucesso nas pistas internacionais. A maioria dos “Marianos” teve de procurar outras fontes de rendimento e os antigos artistas de circo repartiram-se por várias ocupações profissionais. “Portugal não soube acarinhar os artistas de circo e não havia futuro para os nossos filhos. As entidades oficiais desprezaram este espectáculo”, refere. Carlos Monteiro recorda com emoção o tempo em que “ o circo era recebido em festa pelas pessoas e os artistas eram tratados como estrelas”. Hoje só encontram dificuldades que começam na obtenção da autorização para montar a tenda e prologam-se até ao momento de deixar o local. “Passamos a maior parte do tempo parados num local, mas pagamos impostos de circulação e seguros das viaturas como as empresas de camionagem que circulam todos os dias”, exemplifica o artista que defende que o Estado devia criar alguns incentivos para quem dá tudo para manter o circo vivo. “Se há apoios para as companhias de teatro ou dança, ou para as bandas de música, porque é que não pode haver para o circo? Será por andarmos de terra em terra?”, questiona.Carlos Monteiro compara a sua missão à do pescador que remando contra a maré continua a fazer a pesca artesanal mesmo sendo esmagado pela força dos grandes armadores. Quando há menos público, a entrega não é menor, e Carlos confessa que por vezes o truque, a habilidade ou a graça até resulta melhor.Dos tempos da infância recorda que fez a quarta classe percorrendo dezenas de escolas. Tinha uma declaração do ministério da Educação para poder frequentar as escolas das localidades onde o circo actuava. “Levava as outras crianças e ia bater à porta da sala. Por vezes, as professoras ficavam preocupadas connosco e ajudavam-nos imenso”, recorda. Depois de mais de 50 anos dedicados ao circo, e de alguns sustos e quedas aparatosas na pista, Carlos Monteiro não se arrepende da opção que fez e garante que voltaria a viver para o circo.“Os melhores momentos da minha vida foram no circo. Éramos tratados como estrelas e havia um respeito enorme pelas famílias do circo, ao contrário do que acontece agora.”, lamenta.“Repare que não há nenhum globo de ouro para o artista do circo”, conclui.

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