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“A encomenda é a coisa mais desagradável para qualquer criador”

“A encomenda é a coisa mais desagradável para qualquer criador”

Américo Silva fundou a Associação de Artistas Plásticos do concelho de Vila Franca de Xira

Natural de Vila Franca de Xira, Américo Silva, 78 anos, desenvolve actividade artística nas áreas do design, gravura, fotografia e museografia. O fundador e actual presidente da Associação de Artistas Plásticos do Concelho de Vila Franca de Xira, a residir actualmente em Lisboa, abriu as portas do seu atelier em Portas de Benfica (Amadora) e partilhou com O MIRANTE as suas visões sobre a arte e a região.

Edição de 03.07.2008 | Cultura e Lazer
Américo Silva, artista plástico natural de Vila Franca de Xira, nunca viveu apenas das peças que desenvolve no seu atelier mas sempre se rodeou de arte. Desde jovem que se ligou a “coisas de carácter cultural” e o vínculo ficou para sempre. Ainda em Vila Franca o artista, que entretanto se mudou para Lisboa, envolveu-se em grupos dinamizadores de actividades culturais. “Não tínhamos grandes facilidades de fazer muitas coisas mas fazíamos o que podíamos dentro dessa área. Éramos perseguidos porque achavam que fazíamos comícios, o que não era verdade”, recorda.Já em Lisboa, não hesitou em trocar um emprego estável que lhe dava mais garantias financeiras, no Gabinete de Urbanização da Câmara Municipal de Lisboa, por uma oportunidade que surgiu de integrar a Fundação Calouste Gulbenkian. Foi o casamento definitivo com a arte. “Fui trabalhar no projecto do edifício, depois passei para o sector das exposições e fiquei ligado a todo o movimento artístico”, recorda. Daí a fazer formação nas áreas da gravura e da pintura foi um pequeno passo. Nascia a sua actividade individual como artista plástico, materializada na sua primeira exposição, em 1983, no Ateneu Artístico Vilafranquense. E quem foram os artistas que mais o marcaram? Américo Silva prefere dizer que “são muitos, portugueses e estrangeiros”. Picasso e Amadeo Souza-Cardoso estão na linha da frente.Desenvolve trabalhos como designer, gravador e fotógrafo mas não consegue destacar uma actividade como a sua predilecta. “Eu não faço nenhuma distinção entre elas, porque se conjugam todas umas com as outras. Não consigo fazer nada que não tenha a intervenção do desenho, do design, do objecto, do traço…”, explica. O trabalho de todos os artistas sofreu, nos últimos anos, “uma mudança impressionante”. Com o digital toda a gente se tornou fotógrafa e já “quase não há meios para fazer a fotografia de modo tradicional, nem papel existe já”. Toda a gente é artista, então? Não. “O artista não deve ter medo de usar os mecanismos. Tem que fazer a parte para que está sensibilizado, fazer o projecto, criar o conceito e a imagem, e depois ela desenvolve-se naturalmente por outros processo”. A arte está na alma e na capacidade do artista sensibilizar os outros, não na máquina. E é preciso cuidado para que não se tornem dependentes do computador.E o público, deixa-se sensibilizar? “As pessoas gostam, mas só gostam. O nosso povo é muito desinteressado pelas coisas artísticas, nunca foi sensibilizado para estas questões. Até na escola o lado artístico foi preterido por outras coisas. O Ministério da Cultura não existe. Nunca fez nada nesta terra”, continua. A nível local, em Vila Franca de Xira, a situação é diferente, porque “a presidente está interessada nisso”. “Há duzentas e tal associações que a câmara todos os anos junta e dá um pequeno subsídio”, considera. Do passado ligado ao Partido Comunista, recorda a mágoa de não aceitar “essa condição de comunistas e socialistas não se entenderem”. E acrescenta: “hoje não sei se há partido para mim”. Nas suas obras, a política nunca saltou para a arte porque quer que o seu trabalho “tenha uma leitura em todos os sentidos”. Américo Silva não se chateia quando as pessoas não conseguem perceber o que faz. “Também há colegas meus que eu não entendo, mas sei que têm um objectivo. Quando respeito é porque sei que há alguma coisa lá”, conta.O artista não nega a sua origem Ribatejana, tendo já efectuado trabalhos sobre a região. Os campos, as lezírias, os touros, os cavalos, a condição das pessoas as formas de falar são elementos que nunca esquece. Reflectem-se muitas vezes nas obras dos artistas ribatejanos, admite, mas acha exagerado falar-se no conceito de “arte regional”. “Se me disserem que há uma literatura regional eu digo-lhe logo que sim. Porque o Alves Redol conseguiu dar ao seu trabalho e àqueles que os seguiram esse cunho de uma coisa muito regionalista. Mas na pintura acho que não. É evidente que as coisas do campo e lezírias estão todas ali, mas não conheço nenhuma corrente nesse sentido”, explica.Divide o seu trabalhar pelo atelier em Portas de Benfica (Amadora) e outro que tem numa casa em São Martinho Porto. Com tantos anos de arte, há dias em que lhe falta a inspiração? “Então não falta? Às vezes há dias em que não me apetece fazer nada”, confessa. Mas o que mais o irrita é quando está a trabalhar e as coisas lhe correm mal. A falta de inspiração não é um drama. Pior é quando tem um trabalho de encomenda. “A encomenda é a coisa mais desagradável para qualquer criador”, defende. Mas é “normal”. “Quem tiver um atelier para sobreviver não pode dar-se ao luxo de fazer obras para si próprio”, esclarece.Aos 78 anos de vida, Américo Silva tem em mãos um novo desafio. Faz serigrafias sobre cerâmica. Pega nas imagens que já trabalhou como gravuras ou fotografias e converte-as em imagem para aplicar nos objectos de cerâmica. “O gozo de fazer é pegar num objecto e transformá-lo em variadíssimas coisas. O que eu gosto é de esta capacidade de transformação do mundo”, conclui.
“A encomenda é a coisa mais desagradável para qualquer criador”

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