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A mulher que toureava como um homem

Edição de 09.07.2008 | Entrevista
Falou com naturalidade de Conchita Citron. Como é que viu e vê as mulheres na arena?A Conchita era uma mulher, mas a tourear era um homem. Era uma senhora. Muito feminina. Com uma educação extraordinária e com uma cultura geral muitíssimo elevada. Tomara que a maior parte dos toureiros a tivessem. Mas a tourear, era um homem…Quando diz que era um homem fala da coragem?Da coragem sim. Para se ser toureiro é preciso ter três coisas: o valor, a técnica a arte. Mas principalmente valor e a arte porque a técnica aprende-se. O valor é que não se aprende e a arte também. Eu tinha um pouco de arte. A Conchita reunia tudo isso. Ela captava sobretudo o público feminino. Naquele tempo não havia mulheres a tourear. Toureava a cavalo e a pé. A cavalo toureava um toiro igual aos homens. Os toiros eram sorteados. Como cavaleira não era inferior a 90 por cento dos cavaleiros. E pessoalmente gosta de ver uma a mulher a pé?Gosto mais de ver a cavalo. Talvez seja influência da Conchita. Era boa equitadora. Muito elegante e tinha muitos conhecimentos técnicos. E da toureira Ana d’Azambuja? Aqui da terra…Começou, mas não acabou. Teve muitas dificuldades. Era jeitosa a tourear. Tinha valor, mas depois desistiu. Pressão dos toureiros. Por ser mulher. Pressão sobre as empresas para não tourear. E dos ganaderos. Hoje essa pressão está mais esbatida?Já não há tanta, mas ainda há. Os homens ainda acham que o toureio é para homens, machos. Eu digo que não. Que também é para as mulheres. É receio de que elas possam brilhar mais?Não… é o sexo fraco, dizem eles. Respondo-lhe como me disse uma vez um matador de toiros, o mexicano Carlos Arruza. O maestro tinha saído fora do tentadero e veio deitar-se debaixo de um sobreiro. Esperou que Conchita saísse da arena. Perguntei porquê. “Se ela saca uma mama para fora dão-lhe uma ovação. Tu se tiras alguma coisa vais ao comissariado”, disse-me. Essa é a visão que muitos homens tinham e que transmitiam nas conversas de café. É uma asneira. No toureio ainda há muito a fazer…Felizmente nem todos pensam assim. E há figuras. A cavaleira Ana Rita que é de cá. Vamos ver se consegue porque os cavaleiros têm que ser ricos. Têm muita despesa. E isso é igual para rapazes e raparigas. As escolas de toureio são fundamentais para criar as figuras?São, mas antigamente não havia escolas de toureio e criavam-se figuras. Antes contava sobretudo o valor e a arte. A técnica ia-se aprendendo. Agora quando vão tourear já vão com técnica. Antigamente as bezerras eram só para as figuras do toureio. Aprender a arte também exige rigor e disciplina?E humildade. Cá em Portugal não vejo grande vontade. Conheço as escolas de cá, não muito bem, mas vejo que falta um pouco a disciplina entre o mestre e os alunos. Há muitos toureiros que têm pouco valor, mas dominam a técnica. Dominam-se a eles. Houve um toureiro que me disse a mim e à quadrilha: “Sou um medroso. Dizem que sou valente porque me ponho de joelhos. A maior parte das vezes que me ponho de joelhos é quando estou com mais medo. Ajoelho-me porque sei que não posso andar para trás”.

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