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Campino António Guarda homenageado em Vila Franca de Xira

“Ainda trabalhei numa fábrica mas dei-me mal. Galinha de campo não gosta de capoeira”
Edição de 09.07.2008 | Entrevista
Vivia no campo junto ao gado. Dormíamos em barracas de caniço que fazíamos na várzea de Samora. Ao fim de semana íamos a casa para lavar a roupa e buscar o farnel para a semana toda. Levava couves, batatas, pão, linguiça e toucinho para comer. Fazia-se lume junto da barraca e ali se comia e bebia. Era uma vida dura, mas saudável. Se isto voltasse atrás, metade dos campinos que aí andam não queriam esta vida.Quando andamos a lidar com animais todos temos medo. Tive um aperto grande na Herdade da Adema, Samora Correia. Estava a pôr o brinco no bezerro e a mãe estava longe. De repente, sinto a vaca a soprar-me ao ouvido, muito zangada. Voltei-me de repente, empurrei o bezerro para a frente da vaca e fugi no cavalo. Foi a minha sorte, a vaca era brava e dava cabo de mim se me tivesse apanhado. Uns tempos antes, estava a meter umas vacas nos currais para tentar, tropecei e cai do muro abaixo. Fiquei com um pé todo desfeito, fui operado e ainda tenho a mazela. De vez em quando tenho dores, mas é a vida.Um dia fui trabalhar para uma fábrica de tintas de Alverca, mas dei-me mal com os diluentes e vi-me embora. Só fui porque ganhava pouco no campo mas não aguentei. Depois fui para a Malhada das Meias, Samora Correia, trabalhar com um tractor e como guarda-florestal. Galinha do campo não gosta de capoeira e eu nasci no campo.No dia em que acabei a terceira classe recebi como prenda ir guardar vacas para a casa do Engenheiro Jorge Neto em Benavente. Não havia vagar para fazer a 4ª classe e a família precisava da minha ajuda. A minha brincadeira de criança era trabalhar na agricultura e a cuidar dos animais. Comecei a trabalhar aos nove anos a guardar ovelhas e ganhava 25 tostões (1,25 cêntimos) por diaTinha um cão que me ajudava a pôr os brincos nos bezerros. Pregava com os animais no chão e sentava-se em cima deles. Mas não lhe mordia. Chamava-se Cadete e era o meu braço direito, quando era preciso mantinha as vacas à distância enquanto eu punha o brinco nos bezerros. Tive outros, mas nenhum como aquele. Tenho aqui a fotografia do Cadete.Em 1973, o feitor da Malhada das Meias aumentou a féria de um colega em 100 escudos, eu ganhava 500 escudos e ele 600. Fiquei chateado com aquilo e fui à procura de trabalho para ganhar mais. Falei com o feitor e perguntei-lhe quanto tempo tinha que dar à casa. No fim da semana quando fui receber tinha 100 escudos a mais. Voltei para trás e disse-lhe que estava dinheiro a mais. Disse-me que ficava assim, mas fui-me embora no fim do mês na mesma porque já tinha dado a minha palavra ao senhor Palha e fui para a Herdade da Adema. Estive lá 19 anos e 18 dias e tenho as melhores recordações. Fiz muitas esperas de toiros. Comecei a ir ao Colete Encarnado em 1976. Nas primeiras vezes eu dizia que éramos quatro campinos e meio a fazer o trabalho porque eu tinha pouca experiência. Íamos buscar os toiros à Curraleta e trazíamos os animais atrás dos cavalos. Agora não tenho cavalo para isso, não vou. Para dar barraca, prefiro ficar a ver os outros.Os campinos hoje estão muito mudados, vestem a farda, mas não sabem trabalhar como deve ser. Quando os vejo a fazer asneiras, fico triste e lembro-me dos mestres que tive e de grandes campinos como o António Carniça, Orlando Vicente, José Tavares, Carlos Silva e outros. Os tempos eram outros. Hoje não se respeita o traje de campino e veste-se de qualquer maneira.Esta homenagem que me fizeram no Colete Encarnado foi uma coisa bonita. Eu não ligo muito a estas coisas, mas a minha família ficou muito satisfeita. É bom estar com esta camaradagem e ver que as pessoas gostam dos campinos e destas festas.

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