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Gostava um dia de fazer um disco de canto lírico

Edição de 09.07.2008 | Entrevista
O que anda a fazer neste momento? Ando dia e noite, fechado debaixo de terra, à volta de um disco que se chama Sensual Idade. É um disco sobre as várias facetas da sensualidade humana e que me está a dar um gozo imenso. É a primeira vez que faço um disco temático e em que existem as várias preferências. Já tenho idade para poder falar delas com grande abertura e descontracção. Quem não as compreender, que passe à frente. O que é facto é que consegui um leque de doze canções. Doze poemas extremamente belos. Com esta idade já só procuro fazer aquilo que gosto. Estou profundamente apaixonado pelo meu novo disco. Para além disto, cada vez mais gosto de pintar. O pintor, meu heterónimo, Pedro Chora, está ai para continuar também. E como escritor, estou a pensar num livro muito engraçado que são os Contos Anarquistas, em que corre tudo muito mal, mas depois acaba em bem. Tem quase 40 anos de experiência na música portuguesa. Quais são as grandes vantagens da experiência, o que se aprende com a maturidade? O solfejo da vida, por exemplo?O solfejo da vida é o mais difícil de aprender. Não tem regras fixas. Ainda agora se verificou isso em relação à segurança social. As pessoas tinham um projecto de vida e de repente, alterou-se a regra do jogo. A experiência dá-nos talvez o calo da construção. Ou seja, aprendemos a edificar devagar e a saborear mais. O desfrute na minha idade é mais sensual, mas contemplativo, mais ‘ousado’. Também pelo filtro que temos pelas nossas aquisições pessoais. No entanto, a capacidade de nos surpreendermos é uma coisa que devemos manter sempre. Eu todos os dias aprendo e por isso surpreendo-me.Onde gostava de celebrar os seus quarenta anos de carreira? Eu não sou convidado há muitos anos, no concelho de Torres Novas onde resido. Mas gosto muito de Torres Novas e gostaria de celebrar aí os meus 40 anos de carreira. Não sei se vai existir ou não abertura da vereação da cultura para o fazer. Se existir, tanto melhor, se não existir faço-o, se calhar, no Coliseu, em Lisboa. Mas eu preferiria fazê-lo, por exemplo, no Teatro Virgínia, em Torres Novas. Qual foi o melhor conselho que alguma vez lhe deram?Talvez um da minha mãe. Sendo eu professor efectivo nos liceus, disse-lhe, certo dia, que ia tentar arriscar, resistir, sobreviver sendo apenas compositor, músico e maestro. Então, ela disse-me: “Tem cuidado”. Estas duas palavras são simples, mas ditas por uma mãe, olhos nos olhos, têm um significado muito especial. E estando agora na pele de músico numa altura em que a vida dos professores está muito complicada, solidarizo-me com todos os professores portugueses e com a sua justíssima luta contra uma ministra que nitidamente está demasiado afastada da realidade de docente para saber aquilo que está a fazer. Arrepende-se de alguma coisa que tenha feito? Arrependo… arrependo. Mas eu sou do Belenenses. Estou habituado a sofrer.O que é que nunca fez, no domínio artístico, por receio?Não fiz. Queria não morrer sem fazer. Estou na altura vocal para o fazer e gostava de um dia de fazer ainda um disco de canto lírico. Era algo que me daria um gozo enorme! Gostava de gravar com orquestra, os clássicos mais conhecidos. Mas é a tal coisa… um subsidio do Ministério da Cultura que um dia caia do céu dos trambolhões, quando eu já estiver noutra dimensão. (risos) Vai ter férias este Verão? Acho que as pessoas devem tentar viver, mesmo trabalhando muito, como eu estou a trabalhar, pondo uns chinelos, umas bermudas e sentindo-se com gosto de viver a vida. A passagem por esta vida é tão breve e tão... bastarda, que há que a viver com o máximo de prazer que seja possível. Portanto, seja na casa de Riachos, seja na casa do Algarve, eu mesmo, estando a trabalhar, vou tentar sentir-me em férias. Isto, sem perder os 1000% de profissionalismo que tenho. Sou anarquista, portanto sou organizado.

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