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Voluntário Serafim das Neves

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Edição de 17.07.2008 | E-mails do outro mundo
Afinal tínhamos todos razão. Foi fogo posto. Quando comecei a ver as imagens do incêndio florestal na televisão, cheirou-me logo a fogo posto. A mim e a nove milhões e novecentos mil portugueses. Nem percebo porque é que a Judiciária e a GNR demoraram tanto tempo a chegar àquela conclusão. Investigam em câmara lenta?A parte que eu gosto mais das reportagens televisivas sobre incêndios é a das investigações que os repórteres fazem logo em cima do acontecimento. Há sempre um popular, um presidente de câmara ou um comandante de bombeiros que se encarrega de dizer a frase mágica. “Foi fogo posto!”. Às vezes a frase transforma-se em refrão e cantam todos em coro. “Foi fogo posto, não há dúvida!”.E, não raro, as câmaras de filmar apanham um gajo de mota a fugir do local, ou pelo menos o rasto dos pneus.Desta vez foi um gajo que mandou uma prisca acesa pela janela do carro. Agora também será fácil encontrar quem mandou a beata acesa pela janela do carro. O lote de suspeitos foi reduzido consideravelmente com a lei do tabaco. Fumadores a sério, daqueles que vão a fumar no carro e atiram a prisca acesa para o mato já são raros. Eu já deixei de ir para a boiça com a Maria como fazia antes. E como eu gostava daqueles piqueniques com sesta e sobremesa ao natural! Acabei com a prática dominical por causa do fogo posto. Um dia apanharam-me de calças na mão. Eram um bando de labroscas com bocados de mangueira e varapaus. Apontaram para mim e gritaram: “Agarra que é incendiário!”. Sabia lá eu que havia fogo. A única coisa que eu tinha incendiado já tu sabes qual foi. O que vale é que a Maria lhes atirou com o resto do arroz de tomate às ventas e conseguimos zarpar na motoreta. Se caçarem o gajo que atirou a beata para a berma da estrada espero que haja clemência. Eu se fumasse também não apagava o cigarro no cinzeiro do carro. A Maria não me perdoava se eu sujasse o que tanto trabalho lhe deu a limpar. Coitado de mim. Coitado do incendiário da Azambuja. Coitados de nós todos que nos tornamos criminosos involuntários por…amor (?).Já que estou em maré de vítimas aproveito para falar do senhor que vai ter que pagar mil e tal euros ao comandante dos bombeiros de Coruche por ser contra o silenciamento da sirene do quartel. Sinceramente acho que é justo que assim seja. Se no caso das touradas até é aceitável que se mantenha a tradição, já no caso das sirenes tenho opinião contrária. Só de me lembrar das vezes que acordava sobressaltado com aquele uivo lúgubre de anúncio de catástrofe até acho que mil e duzentos euros ainda foi pouco. E vou terminar porque acho que já estou a ficar mais radical que um manifestante anti-touradas. Um bacalhau afogueado do Manuel Serra d’Aire
Voluntário Serafim das Neves

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