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“É urgente parar o estado de degradação do Rosa Damasceno”

“É urgente parar o estado de degradação do Rosa Damasceno”

Acção popular quer anular negócio de venda do teatro a uma construtora e devolver o imóvel à cidade
Edição de 17.07.2008 | Entrevista
Um grupo de cidadãos de Santarém moveu uma acção popular em tribunal visando a nulidade do negócio que, em 2004, permitiu ao Clube de Santarém permutar, com uma empresa de construção, o Teatro Rosa Damasceno por lotes para construção no concelho de Almeirim. A acção popular, que tem a ex-vereadora socialista Graça Morgadinho como primeira subscritora, exige ainda que a empresa Rosa Tomás se omita de qualquer acto que possa colocar em perigo ou destruir o teatro, que, recorde-se, já só mantém as fachadas de pé e mesmo assim num elevado estado de degradação. A histórica sala de espectáculos, imóvel de interesse público, foi no ano passado consumida por um incêndio e os autores da acção popular defendem a sua preservação e restauro “para que se possa desenvolver as actividades inerentes ao seu projecto”.Porquê só agora esta acção popular?Surgiu agora por iniciativa do coronel Garcia Correia, provedor da Misericórdia de Santarém. Foi ele que me contactou para saber se estava interessada em subscrever esta acção contra o negócio do Rosa Damasceno, numa tentativa de impedir que ele seja feito e tentar uma outra solução para aquele imóvel.Que tipo de solução?Sempre defendi que o Rosa Damasceno devia continuar a ser um teatro, independentemente da sua funcionalidade. Ninguém hoje consegue gerir um teatro com 1400 lugares. Mas é possível criar ali espaços diversificados de índole cultural e não lojas de conveniência, como está previsto.Espaços de iniciativa privada ou de cariz público?E por que não de iniciativa privada também? Mas desde que haja um acordo que case os interesses da cidade com os interesses privados. Penso que isso é o mais importante.Esta acção popular visa anular o negócio entre o Clube de Santarém e a empresa Rosa Tomás?Exactamente, nas circunstâncias em que foi feito. Mas há sempre hipóteses para negociar.Querem garantias de que o edifício se mantenha para fins culturais?Não sabemos quais são as funcionalidades do edifício. Apenas ouvimos dizer que seriam lojas de conveniência, um restaurante.Acredita que esta acção popular pode ter consequências práticas?Acreditamos no poder da justiça e também achamos que os movimentos de cidadania podem mostrar o desejo que as populações sentem e fazer com que os seus desejos sejam respeitados.Houve também uma petição online dirigida ao Ministério da Cultura com finalidades semelhantes. Que pelos vistos não teve grandes resultados.Exactamente. O Pedro Oliveira fez uma petição que penso que ainda não foi entregue ao ministro da Cultura, porque entretanto houve mudança de ministro. Muitas pessoas que assinaram essa petição poderiam também subscrever agora este processo cível que entrou no Tribunal de Santarém.Não há uma sobreposição de esforços, tendo em conta que a Câmara de Santarém tem também um processo pendente em tribunal sobre o mesmo assunto?Penso que não. Este processo só vai dar mais força à câmara, porque estamos a trabalhar no mesmo sentido: mostrar que há vontade dos cidadãos em que haja respeito por um imóvel de interesse público, por um ícone cultural da cidade, independentemente do estado de degradação em que se encontra. É urgente parar esse estado de degradação, porque se caiu o pano no dia em houve o fogo, então cairá o Rosa Damasceno se nada se fizer dentro de pouco tempo.Foi vereadora da Cultura até Janeiro 2002 e também teve alguma quota-parte de responsabilidade política neste processo. Acha que a Câmara de Santarém fez tudo ao seu alcance para evitar que o teatro fosse vendido a um empreiteiro?Só posso falar até ao momento em que fui vereadora. Posteriormente desliguei-me um pouco desses assuntos. Enquanto estive na câmara sempre defendi que o negócio se devia fazer com a câmara e não com um privado. E tentou-se chegar a um acordo com o Clube de Santarém, que era o detentor do imóvel. Houve também deliberações da câmara notificando o proprietário do teatro na altura para fazer obras de preservação que nunca chegaram a acontecer.Essas deliberações nunca foram cumpridas. E tentou-se também apoio do IPPAR para pelo menos intervir no que diz respeito à fachada do edifício, que na altura começava a ruir.Ou seja, a câmara também não exerceu a sua autoridade administrativa.Exerceu, mas o Clube de Santarém também não tinha dinheiro para fazer as obras. E muitas vezes os apoios do Estado também não vêm logo. Além disso, o Clube acabou por preferir fazer o negócio em vez de ficar com aquele menino nos braços que só lhe estava a dar prejuízo. Nesta vida o materialismo por vezes impera.A vossa intenção é que a câmara fique com o imóvel, mas o presidente da câmara já por várias vezes manifestou desinteresse relativamente a essa solução. Independentemente de a Câmara de Santarém poder fazer outra sala de espectáculos na cidade, penso que deve existir sempre ali um espaço de teatro que relembre o Teatro Rosa Damasceno, conciliando interesses públicos e privados. Não chega recuperar o imóvel?Não. O edifício está numa zona de influência de monumentos nacionais classificados e ele próprio está classificado como imóvel de interesse público. Essa recuperação não pode passar só pela fachada. Por respeito ao facto de aquele imóvel ter sido considerado um modelo da arquitectura modernista e ser património da cidade, deve-se manter algo que relembre que ali existiu um teatro. É possível criar algo que tenha a ver com o respeito pela memória, pela tradição, pelas pessoas que estiveram ligadas àquele espaço. E até por respeito a Rosa Damasceno, que foi uma grande actriz. Há que respeitar este sentir popular que deve continuar a existir ali uma sala de teatro ou cine-teatro, que continue a chamar-se Rosa Damasceno. Houve alguma tentativa de diálogo com o actual proprietário do imóvel?Como presidente do Centro Cultural Regional de Santarém, na altura em que lá fizemos um debate sobre o Rosa Damasceno, tentámos que uma das pessoas que estivesse presente fosse o proprietário do imóvel. Nada nos move contra o arquitecto Rosa Tomás, até achamos que é uma pessoa que está a investir na cidade e bom será que outros o façam e que sigam esse exemplo. Tentámos que pelo menos viesse explicar qual era o seu projecto para aquele espaço, para que pudéssemos dialogar com mais elementos na nossa mão. No entanto ele disse-nos que nos próximos quatro meses não falaria sobre o teatro Rosa Damasceno.
“É urgente parar o estado de degradação do Rosa Damasceno”

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