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Anúncios de “convívio íntimo” não param de crescer nas páginas dos jornais

Anúncios de “convívio íntimo” não param de crescer nas páginas dos jornais

Há mulheres que fazem 3 mil euros por mês cobrando entre 30 e 60 euros por cliente

Mulheres atendem homens em apartamento um pouco por toda a região. Em tempos de crise, o mercado do sexo continua a encher páginas de anúncios nos jornais. “Foi uma solução, não tinha outra”, explicou a O MIRANTE uma das anunciantes.

Edição de 17.07.2008 | Sociedade
“Espero não fazer isto durante muito tempo. Só mais um ou dois anos até conseguir pagar um crédito de 20 mil euros”. Raquel (nome fictício) tem 26 anos e diz ter vindo da Beira Alta para o Cartaxo para ganhar a vida. “Foi uma solução, não tinha outra. Não é uma questão de gosto, mas de necessidade, porque o dinheiro faz falta”, garante. Por 25 euros (40 com sexo anal), atende homens num apartamento na Rua dos Correios, há dois meses. Em dois meses na actividade, juntou quase seis mil euros limpos. Diz ter um filho de 5 anos e que a única pessoa que sabe que está no mundo da prostituição é o pai da criança. Foi a única que aceitou contar toda a história a O MIRANTE. Todas as outras hesitam à primeira pergunta mais estranha e despedem-se com um “se ainda estiver interessado, ligue-me quando estiver por cá”.A primeira chamada é feita para Alverca. Do outro lado: “E aí, amorzinho, tudo bem”? Simpatia e toda a informação necessária resumida em três frases. “Trinta euros oral e vaginal, 50 euros anal. Estou perto da Praça de táxis, na rua direita. Pode acontecer tudo, basta querer. Quando estiver cá me liga”.De um número de Santarém, atende uma mulher sem sotaque. Diz que tem 38 anos e é portuguesa. O preço é semelhante, 30 ou 40 euros conforme o desejado pelo “cliente”. E se for só para conversar? “Não sei se vale a pena conversar. Acho que não. É difícil conhecer alguém a fundo quando se faz isto”, responde. Atende no centro da cidade, junto ao colégio militar, e impacienta-se com tantas perguntas. “Se estiveres interessado em fazer o convívio vem cá. Para o resto não contes comigo”, remata. Pelo meio já havia confessado que não faz “isto” há muito tempo. Por fim, aceita conversar durante uma hora, por 30 euros, desde que não se entre pela vida particular.Raquel diz-nos que é raro encontrar portuguesas neste “mercado”. “A maior parte são brasileiras, têm filhos e família no Brasil e têm objectivos financeiros para atingir cá”, explica. Mas a ronda de chamadas que O MIRANTE fez desmente a informação. Telefonemas para mulheres de Vila Franca de Xira e Samora Correia e mais duas portuguesas do outro lado da linha.Em Vila Franca uma mulher, de quarenta anos com apartamento junto ao edifício da PT. “A casa não é minha, partilho com uma amiga ‘brasileirinha’”, esclarece. Os preços são exactamente os mesmos, mas podem ir até 60 euros se o cliente quiser levar uma amiga. Tem experiência com mulheres? “Tenho mais ou menos experiência”, ouve-se do outro lado. E controlo de tempo, há? “Não, mas também não vamos ficar aqui umas duas horas”, reage.Em Samora Correia atende-nos uma jovem que anuncia ter 25 anos e que diz ser lisboeta. Os preços mantêm-se. O atendimento é das 9h30 até à meia-noite, com o sábado incluído, junto ao Centro Cultural. Tudo com protecção e sem beijos. Não há mesmo possibilidade de beijar? “Só se houver química, também não sou de ferro”, responde.“Este gajo nunca mais se despacha”A prostituta do Cartaxo, Raquel, trabalha para um tutor, a quem lhe dá uma comissão. “Torna-se mais prático, porque eles assumem a renda, as contas da luz e as despesas da casa. Se houver algum problema com os vizinhos são eles que assumem as responsabilidades”, conta. Foi “contratada” depois de ter respondido a um anúncio de jornal. No anúncio a que agora responde pode ler-se “Ninfas do prazer sensuais em lingerie, loucura total”. Quantas trabalham com ela? “Neste momento estou sozinha, já respondeu a um anúncio desactualizado. Umas vão e depois voltam. Estamos à espera de uma menina que vem hoje ao final do dia”, refere.Duas chamadas para Abrantes. Primeiro atende uma brasileira que diz estar há uma semana em Portugal. Só diz o preço e que recebe num apartamento da Rua 5 de Outubro. Não percebe mais nenhuma pergunta e passa o telefone a uma colega, que começa a descrevê-la fisicamente. Mas para quem estamos a ligar afinal? Trabalham juntas? A chamada cai.Perto do Centro de Emprego de Abrantes diz estar uma russa, sotaque carregado, com 40 anos. Paciente e educada, como todas as que foram contactadas, hesita em responder se atende dois homens ao mesmo tempo. “Que idade têm?”. 25. “Acho que não porque os rapazes novos têm muitas fantasias, já experimentei e foi complicado”, responde. Com mulheres pode experimentar mas nunca o fez.Sobre os clientes com fantasias muito complexas, Raquel responde com determinação. “Nós é que fazemos as pessoas, mas há alguns que eu meto logo a correr”, admite. “Já fui com dois homens, com outra mulher e um homem”, conta. Durante o acto tenta esquecer-se do que está a fazer. “A maior parte das vezes desligo completamente, como me separasse do meu corpo. Outras vezes penso ‘este gajo nunca mais se despacha’”, conta. Homens que transpiram e cheiram mal são o que mais incomoda. Raquel diz não compreender a inconsciência de alguns homens que lhe pedem para ter relações sexuais sem preservativo. “Vêm cá pessoas com esposa e família e não pensam nela nem pensam em nada. Dizem que não têm doença nenhuma, mas nem se preocupam em saber se eu a tenho ou não”, desabafa.
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