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“É muito complicado viver nesta tristeza”

“É muito complicado viver nesta tristeza”

Mãe do homem que se barricou em Santarém relata o drama de conviver com a esquizofrenia

Flora foi sequestrada e ameaçada de morte pelo próprio filho há duas semanas. Antes disso, já o marido a agredira quase mortalmente com um machado na cabeça. Ver Vídeo em: http://www.omirante.pt/omirantetv/noticia.asp?idgrupo=2&IdEdicao=51&idSeccao=514&id=22996&Action=noticia

Edição de 17.07.2008 | Sociedade
“Não consigo dormir descansada, sempre a pensar coisas más e a viver em sobressalto. É uma dor muito grande”. As palavras saem com mágoa da boca de Flora Manoni, 57 anos, mãe do homem que, na passada semana, se barricou em casa com ela e uma irmã. Júlio, de 33 anos, começou a sofrer de esquizofrenia no início da adolescência. Esteve internado em Lisboa mas, ao deixar a medicação, a doença ganhou terreno. O último episódio, no bairro de São Domingos em Santarém, assustou a família e os vizinhos.O marido de Flora, combatente português no Ultramar, conheceu-a em Moçambique e acabou por casar com ela. Foi ele quem levou o drama da esquizofrenia para a sua porta. “Quando o conheci nada fazia suspeitar que era doente. Depois ele começou a ter cada vez mais crises. O meu marido sofria de esquizofrenia e certo dia deu-me com um machado na cabeça que quase me matou. Estava a ter outro ataque”, relata a nossa interlocutora.A esquizofrenia é uma das doenças mentais mais incapacitantes e graves do mundo. Não só para o doente, como também para quem convive com ele. “É terrível vivermos com alguém que tem este problema, porque nunca sabemos o que farão a seguir. O meu filho, Júlio, nasceu em Portugal e desde pequeno sempre trabalhou. Aliás, nunca notámos a doença até que ele foi trabalhar para Espanha, já adulto. Quando regressou, queixava-se frequentemente de dores de cabeça e que não se sentia bem. Foi nessa altura que aconteceram as primeiras crises. Disse que se sentia perseguido, como se estivesse sempre alguém a vigiá-lo”, afirma Flora a O MIRANTE.Apoiada no umbral da porta que o Grupo de Operações Especiais arrombou para imobilizar e deter Júlio, Flora tenta verbalizar o drama de conviver com a doença. “Comecei a viver com medo, sobretudo depois de ele ter tentado rebentar uma botija de gás. Foi internado e medicado, quando voltou não se lembrava de nada e não sabia porque tinha feito o que fez. Voltou a casa e arranjou outro emprego. Mas como deixou de tomar a medicação, piorou outra vez”, recorda.“Vivo sempre nesta tristeza, a conviver com esta doença. Passam-se dias em que ele é uma pessoa normal, ninguém diria que tem uma doença tão ruim. Nem consigo descansar, sempre a pensar no que ele pode fazer de um dia para o outro. É muito difícil. Eu não sabia que as pessoas com estes problemas podiam ser internadas, senão era o que eu tinha feito. É mesmo o melhor que qualquer pessoa pode fazer. Eu, como mãe, tenho muita pena de não o ter ajudado mais. O meu filho fez o que fez porque é doente e não tem culpa disso”, refere Flora Manoni.O filho foi internado num hospital psiquiátrico em Lisboa, mas Flora ainda não o foi visitar. “Ainda não fui a Lisboa vê-lo, tenho algum medo”, desabafa. Mesmo com o filho já em tratamento e com a casa vazia, Flora ainda não consegue dormir descansada. Vêm-lhe à mente imagens do filho em sofrimento, num hospital que não conhece e não compreende. “Ele à noite vinha sempre beber um copo de leite à cozinha, agora não imagino como será”, afirma, emocionada, a mãe do agressor. Recorde-se que Júlio esteve barricado durante oito horas, período em que manteve reféns a mãe, Flora, e a irmã, Sara. Durante esse tempo o indivíduo afiou facas com que ameaçava matar os familiares, atirou mobiliário da janela e gritava palavras para os populares. Foi dominado na sequência de uma operação do Grupo de Operações Especiais da PSP.
“É muito complicado viver nesta tristeza”

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