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Violência praticada por doentes mentais podia ser evitada com acompanhamento clínico

Não há condições para garantir cuidados de saúde mental a todos os doentes

O psiquiatra Pedro Afonso considera que os casos de violência que têm aparecido nos últimos tempos envolvendo doentes mentais podiam ser evitados se existisse uma rede de cuidados psiquiátricos eficaz.

Edição de 17.07.2008 | Sociedade
Há duas semanas um homem que sofre de esquizofrenia sequestrou durante oito horas a mãe e a irmã na casa onde residem, no bairro de São Domingos, em Santarém. No dia 13 de Junho um outro homem a quem foi diagnosticada a mesma doença mental agrediu a sua mãe em Foros de Salvaterra, concelho de Salvaterra de Magos, que continua internada em estado grave no Hospital de S. José em Lisboa. Estes são apenas dois casos de violência perpetrados por pessoas com problemas psiquiátricos que se tivessem outro acompanhamento médico podiam ser evitados. Essa pelo menos é a convicção do psiquiatra Pedro Afonso. Este médico natural de Santarém que exerce no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos, em Lisboa, considera que o “aumento do número de crimes empreendidos por indivíduos que sofrem de doenças mentais pode traduzir uma falha do seu acompanhamento psiquiátrico”. Para esse facto contribui a falta de condições nos serviços de saúde da região, a exemplo do que acontece um pouco por todo o país. Considerando que a proximidade e acessibilidade aos cuidados de saúde mental é fundamental para evitar situações que se podem tornar graves, como estes dois casos recentes, o médico lamenta que o distrito de Santarém não disponha do número de camas de internamento, de psiquiatras, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais “necessários à cobertura assistencial da população”. Pedro Afonso diz mesmo que a saúde mental é “o parente pobre da medicina e tem sido esquecida por vários governos”. O especialista recorda que o serviço de psiquiatria do Hospital de Santarém não tem capacidade para acompanhar todos os casos e que apesar da abertura da unidade do Hospital de Tomar ter vindo dar uma ajuda não é suficiente. Sem um acompanhamento permanente e eficaz corre-se o risco de haver descompensações em doentes problemáticos que podem tornar-se violentos se não tomarem a medicação regularmente. A somar a isso está o facto de na generalidade os doentes psiquiátricos não admitirem que estão doentes e de as famílias terem dificuldade em os controlar. Abandonam os tratamentos e não comparecem nas consultas. “O agravamento do estado clínico pode conduzir a alterações graves do comportamento e episódios de agressividade”, explica o psiquiatra. Pedro Afonso lembra que durante muitos anos subsistiu a ideia de que o melhor para os doentes mentais era o internamento e a sua exclusão da sociedade. Actualmente pratica-se um modelo que defende a inclusão das pessoas com problemas psicológicos na comunidade e junto das suas famílias. Em consequência, as doenças mentais deveriam ser tratadas nos hospitais gerais e centros de saúde como outra doença qualquer. Só que este modelo não funciona porque “a rede assistencial não cobre devidamente toda a população” e há “uma percentagem significativa da população que não tem acesso a este tipo de cuidados”, acrescenta o clínico. As autoridades policiais nem sempre conseguem controlar as situações e obterem o internamento compulsivo dos doentes que provocam problemas. Veja-se o caso do homem de 30 anos que já tinha sido detido várias vezes pela PSP de Santarém por andar na rua com caveiras roubadas em cemitérios. Em Abril a polícia conseguiu enviar o homem que sofre de perturbações mentais para acompanhamento no serviço de psiquiatria do Hospital de Santarém, mas desde essa altura perdeu-lhe o rasto e desconhece se está internado, ou se teve alta. Em relação ao sequestrador de S. Domingos também não foi fácil conseguir-se o seu internamento (ver texto nesta página) que só foi consumado ao fim de dois dias de peripécias.

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