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António Chambel

António Chambel

53 anos, médico

Nasceu em Abrantes no dia 13 de Junho de 1955. Queria ser engenheiro mas aos dezoito anos entrou para medicina. É médico de clínica geral e gere uma clínica privada com o seu nome que abriu há dez anos em Almeirim. Privilegia a relação entre médico-paciente.

Edição de 17.07.2008 | Três Dimensões
A primeira coisa que disse quando entrei para a escola foi que queria ser engenheiro. Na altura andavam a construir as estradas na aldeia e a tecnologia fascinava-me. Quando cheguei ao 7.º ano tinha a opção de escolher entre medicina, medicina veterinária e agronomia. Ganhou a medicina. Sempre quis trabalhar em meios pequenos. Fugir da cidade. Foi o que aconteceu. Nasci em Abrantes, estudei em Lisboa. A meio caminho fica Santarém que era uma cidade que já conhecia. Por uma questão de dar continuidade a um grupo de amizades optámos todos por fazer estágio no hospital velho de Santarém. Trabalhei como clínico geral no Centro de Saúde da Chamusca durante 13 anos. O meu pai costumava dizer que quanto mais dava, mais tinha. O meu pai era carpinteiro e tinha apenas a 4.ª classe mas ensinou-me muita coisa na vida. Ficou orgulhoso quando lhe disse que queria ser médico. Infelizmente, faleceu num acidente de viação quando eu estava no segundo ano do curso. Foi algo que me marcou. Tenho dois filhos, de 23 e 17 anos. O mais velho é fisioterapeuta e a mais nova vai entrar este ano para o curso de Psicologia. Há que ter atenção ao aspecto ético. Em 1984 comecei a dar consultas em privado em Benfica do Ribatejo. Na altura, falei com o colega que lá estava. Achava que era correcto falar com ele uma vez que estava a montar um consultório. Qualquer pessoa tem o direito de abrir uma clínica ou um consultório mas quanto a mim vai-se perdendo uma coisa que se chama ética.Costumo dizer que os desafios se fazem, em média, até aos 45 anos. A certa altura surge o dilema. Atendia doentes no Centro de Saúde de manhã e na medicina privada à tarde. Decidi deixar a medicina estatal. Foi um desafio que encarei. Comecei com outro colega e quando abri a clínica em Almeirim, há 10 anos, trabalhavam aqui doze clínicos. Agora são mais de 20. Alarguei o projecto e abrimos especialidades que, na altura, não existiam em Almeirim. Como a reumatologia. Antes as pessoas tinham que ir a Lisboa a consultas desta especialidade. Defendo o conceito João Semana. Um dia perguntei a um colega porque é que ele não tinha ido de fim-de-semana. Respondeu-me que tinha operado uma doente. Isto diz muito de um médico. O doente é um todo e o médico tem que cuidar do seu bem-estar a todos os níveis. A pessoa tem que sair satisfeito com o modo como foi atendida. Continuo a associar a componente humana ao lado da componente médico-cientifica. Estou com a consciência tranquila. Infelizmente não pudemos, no privado, passar exames complementares de diagnóstico. Muitas vezes o doente tem uma doença grave e necessita de fazer um exame. Tem que ir ao médico de família pedir para que lhe passe o exame. Se sou o médico que o acompanho porque é que não posso pedir o exame? É uma perda de tempo. Esta questão angustia-me quer como profissional, quer como cidadão. É mau para todos. Falta coragem política. Deve existir um bom entendimento entre os serviços públicos e os serviços privados.Nunca deixei de consultar uma pessoa por questões de dinheiro. A crise sente-se na saúde como noutro sector. Tenho pessoas que me encontram na rua e me dizem, directamente, que gostavam de ser consultadas por mim mas que, de momento, as suas condições económicas não o permitem. Não levo dinheiro para ver exames complementares de diagnóstico ou para uma revisão oito dias depois. Gosto de cuidar do meu jardim. Os meus avós eram pequenos agricultores e os meus pais também trabalhavam no campo ao fim-de-semana. Herdei este gosto. Os meus hobbies permitem-me desligar. Para além de jardinagem, faço atletismo e leio bastante.
António Chambel

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