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O filho de uma varina que fez carreira como diplomata

O filho de uma varina que fez carreira como diplomata

José Amador foi vice-cônsul de Portugal em Londres durante vinte e cinco anos

Correu o mundo em missões de serviço e diz que viajou sempre com Vila Franca de Xira na cabeça e no coração. Filho de uma varina, recorda as suas origens com humildade. José Amador mostra uma vontade férrea de servir o seu concelho sem a obrigação de ter um cartão partidário. Afirma que se sente bem no meio do povo e comove-se quando recorda o seu percurso de vida.

Edição de 24.07.2008 | Entrevista
O senhor não nasceu em berço de ouro?Nasci em Vila Franca, num bairro que acomodava varinos, na travessa do Mercado, que hoje é quase uma avenida. Estávamos no final dos anos quarenta, no final da guerra. Os meus pais são originários da Murtosa, eram varinos. Toda a minha universidade foi a vivência com as gentes do rio e com a massa trabalhadora que se fixou nesta região para trabalhar em actividades ligadas ao rio e à indústria.Cresceu num momento em que a vida era dura.A vida era complicada, as famílias eram numerosas e tinham muitas dificuldades. Mas tive uma infância muito feliz. Nasci em casa com a ajuda duma parteira e de parto natural. A minha mãe, que ainda está viva, era varina e levava-me dentro duma alcofa quando ia vender o peixe. O meu pai era funcionário da Administração do Porto de Lisboa. Eram pessoas muito honestas e trabalhadoras.Condições que o senhor herdou? Tudo o que vivi na infância e juventude ajudou a formar o meu carácter. A honestidade, valores de honra, o respeito pelo próximo, a solidariedade entre as pessoas e o comportamento cívico empenhado ainda hoje são marcas na minha personalidade.Estudou em Vila Franca?Fiz a instrução primária na Escola do Bacalhau que hoje muito me honra ter o nome do meu ilustre amigo, já falecido, embaixador Álvaro Guerra. Tive a felicidade de fazer até à 4ª classe com o professor Afonso, homem de grande valor que teve a percepção de que eu e outros meninos pobres deveríamos continuar a estudar. Os meios eram precários mas com grande esforço e distinção passámos a admissão aos liceus. Vila Franca de Xira só tinha um liceu privado e as propinas eram muito caras. Faz agora 50 anos, infelizmente não comemorados, que abriu a Escola Industrial e Comercial Afonso de Albuquerque por onde passaram a maioria dos meus contemporâneos e onde fizeram o ensino secundário pessoas que pela sua formação e conhecimentos têm oferecido ao país valiosos contributos. Desde logo a senhora presidente da câmara de Vila Franca, Maria da Luz Rosinha e o cartoonista António que é um artista reconhecido internacionalmente.Como era o ambiente de Vila Franca nas décadas de 1950/60?Vila Franca tinha uma dicotomia muito perfeita e a fronteira era o Alegrete, onde está hoje o monumento ao campino. Havia os varinos, as pessoas do campo: ganaderos, campinos e trabalhadores agrícolas e as pessoas dos serviços. O norte do concelho, nos montes, tinha os rurais. Vila Franca era um pólo comercial importante. Toda a região vinha aqui fazer as compras. Era o Vasco da Gama e o Colombo da região. Culturalmente era uma vila muito activa porque tinha lutas de assunção de um operariado mais consciente e do mundo rural. Vila Franca era um espaço de debate e de conhecimento.É nessa altura que aparecem vários fenómenos culturais?Houve vários fenómenos que formataram várias gerações. Vila Franca era o paradigma de uma vila com importância pela sua situação geográfica e pela importância cultural que adquiriu. A construção da ponte em 1957 aproximou as pessoas da margem sul e ajudou a vila a desenvolver quer no ponto de vista comercial quer cultural.O senhor esteve ligado a vários projectos culturais?Fiz parte da secção cultural do União Desportiva Vilafranquense (UDV) que tinha biblioteca, ciclos de conferências sobre vários temas que deu origem ao Cine-clube Vilafranquense. A actividade cultural era rica e fomentou uma actividade política activa. As pessoas formavam-se no ponto de vista humano, mas também adquiriam formação política. Tive o privilégio de fazer alfabetização, pelo método de Paulo Freire (humanista e linguista brasileiro) num trabalho de que me orgulho. Na altura, a Igreja católica tinha um movimento cultural muito activo dinamizado pelo padre Moniz, grande amigo desta terra. Vila Franca tinha uma oferta, com o encanto das coisas proibidas, que permitiu o desenvolvimento intelectual de centenas de jovens e alguns de nós procurámos humanizar a comunidade.Vila Franca perdeu essa força cultural?Não diria. Hoje há uma maior oferta de programas culturais, mas há muito menos gente empenhada. Hoje há equipamentos, há projectos, há técnicos, mas não há entusiasmo em volta da cultura. Hoje não se fomenta o convívio cultural entre as pessoas nas tertúlias. As pessoas não se juntam para conversar. O café perdeu a sua importância como ponto de encontro para se partir para outras actividades. Não posso dizer que no meu tempo era bom e agora é um caos, tenho encontrado gente jovem com grande valor. Não há é políticas de intervenção e estímulos para a sua participação. Estímulos que existiam na sua juventude?Na minha época premiava-se o mérito e havia uma solidariedade muito forte. Uma das minhas maiores honras foi o facto de ter feito da 1ª à 4ª classe com os mesmos alunos. Os mais frágeis eram ajudados para superar as suas dificuldades. Havia uma grande rivalidade entre campinos e varinos?Não é verdade. A relação entre a comunidade varina e os campinos foi sempre muito cordial porque os varinos tinham uma ética piscatória que não feria nem os bens do rio nem a troca de produtos com os homens do campo. Os campinos vinham abastecer uma vez por semana e levavam o peixe do rio que era pescado pelos varinos enquanto deixavam os produtos agrícolas. Mas não houve proibições de varinas casarem com campinos?Cada um defendia o seu pedaço. Entre os varinos havia o hábito de fazer a conjugalidade da sua perpetuação no seu reduto e a maioria das varinas casava com varinos. Não havia uma atitude discriminatória, mas apenas um hábito. Isto fez com que alguns casassem com primos originando problemas com os filhos dada a conflitualidade genética. Havia uma demarcação dos dois grupos?Essa separação foi mais visível nos dois clubes que surgiram em Vila Franca. O Águias que era o clube dos varinos e o Operário que era o clube dos senhores da vila e pessoas do mundo rural. As sedes sociais estavam separadas pelo Alegrete. As rivalidades futebolísticas acabaram por passar para a comunidade, mas perderam-se no tempo e começou a haver uma coesão da vila. A coesão social é algo que não existe actualmente…É preciso políticas que estimulem os jovens para alterarem os comportamentos em relação aos outros. Isto faz-se com persistência e com estímulos à participação cívica. O individualismo não cria sociedades saudáveis. Há dezenas de pessoas no movimento associativo no concelho de Vila Franca a quem tiro o meu chapéu pelo seu trabalho, mas precisam de ser mais ajudadas. A comunidade tem de se organizar melhor. Têm sido gastas fortunas neste concelho sem resultados. Não podemos continuar a gastar dinheiro em iniciativas pseudo-culturais sem consequência e deixar o associativismo morrer. É preciso premiar os projectos com mérito e não dar a todos por igual para contentar toda a gente. É preciso uma reforma na política de apoios?Tem de ser feito um estudo profundo da realidade do concelho que tem diferenças acentuadas entre as freguesias e traçar o rumo que se quer seguir para devolver a Vila Franca a dinâmica cultural e associativa que já teve e que foi exemplo no país.O museu do Neo-Realismo é uma mais valia para Vila Franca?A cidade precisava de atracções culturais. Foi feito um enorme investimento mas os resultados podem não atingir o que se pretendia. Temos uma peça bem desenhada, mas vazia de pessoas. O museu já está a ser usado como ferramenta política…De que forma?O Neo-Realismo escondeu uma linha política muito identificada. Por mais que a programação tente ser isenta, é difícil porque o museu está conotado politicamente.A localização do museu agrada-lhe?O museu e os espaços públicos têm de respirar, tem de ter ar puro. O museu é mais uma asfixia para a cidade como foi o centro comercial. O VilaFranca Centro foi um erro de casting a premiar um grupo que se instalou aqui e tem manobrado o território.É a força do poder económico sobre o poder político?Toda a gente sabe disso. Estou a estudar o Plano Estratégico do Município de Vila Franca e o estudo de caracterização empresarial do concelho, estudos muito bem pagos e vejo um conjunto de projectos que nunca foram debatidos publicamente e com os quais muita gente não concorda. Veja este conjunto de urbanizações em Vila Franca sem necessidade porque há centenas de casas devolutas. É evidente que o orçamento da câmara está pegado a estes projectos, mas tem de haver uma correcção. Vila Franca é um canal de atravessamento, mas não pode ser o Canal Caveira.A Nova Vila Franca é um mau projecto?Não sei. O que eu sei é que debaixo dos prédios vai ficar água de que tanto precisaremos no futuro e a cidade não precisa de mais ofertas de habitação.
O filho de uma varina que fez carreira como diplomata

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