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Lenda do Senhor Jesus dos Lavradores revivida em Riachos

Lenda do Senhor Jesus dos Lavradores revivida em Riachos

Milhares de pessoas na procissão que se realiza apenas de quatro em quatro anos

As colchas às janelas, o alecrim e as pétalas de rosas espalhadas pelos passeios e as casas caiadas de fresco anunciam que é dia de procissão.

Edição de 31.07.2008 | Cultura e Lazer
25 de Julho. 19h00. Apesar do tempo chocho, a Rotunda dos Bois, em Riachos, enche-se de gente para receber a imagem do Senhor Jesus dos Lavradores, seguido por uma parada de máquinas agrícolas – numa perfeita alegoria às antigas juntas de bois que trabalhavam a terra. A carrinha Toyota creme que transporta a imagem vem de Torres Novas. É lá que a estatueta, pertencente à Santa Casa da Misericórdia, é guardada. Mais precisamente na igreja de Santiago. Mas, de quatro em quatro anos, o Senhor Jesus dos Lavradores volta a Riachos para a Igreja de Santo António – onde permanecerá quatro dias.Milhares de pessoas acompanham esta procissão. Entre elas boieiros (os tratadores de bois), camponesas trajadas, Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, famílias do Menino Jesus, autoridades locais, comissão de festas, acólitos, pároco, banda filarmónica, escuteiros e muito povo. As juntas de bois e os cavaleiros juntam-se ao desfile. O incenso e os cânticos acompanham os passos. Para quem não quer ou não pode seguir a procissão, todos os lugares são bons para a mirar: as varandas estão cheias e as bermas dos passeios também. Depois de quase um quilómetro de marcha o Senhor Jesus dos Lavradores entra na Igreja de Santo António, por volta das 20h00. A lenda é antiga, mas ainda há quem a conte. A O MIRANTE, quem a contou foi o responsável da paróquia riachense, o padre Fernando Gonçalves, 69 anos, que este ano presidiu, pela primeira vez, ao cortejo: “Muito possivelmente no século XII ou XIII terá acontecido a lenda, que foi relatada de boca em boca, que andavam os bois a lavrar no campo e que a um determinado momento ficaram encalhados. Entretanto, os homens começaram a escavar e descobriram uma caixa de pedra onde estava um crucifixo. Como a zona de Riachos, nessa altura, era pequenina, não tinha uma igreja imponente. Este crucifixo era demasiado grande para a pequena capela que então existia (a actual data de 1950). Por isso levaram o crucifixo para a igreja paroquial de Santiago, em Torres Novas. Em troca dessa imagem a sede do concelho deu aos agricultores, que tinham feito o achado, a imagem do Menino de Deus”.Mais prosaicamente, a história pode ser contada de outra forma. Nas épocas de invasão (espanholas e francesas) as pessoas tinham por hábito esconder os seus bens mais preciosos. Muito provavelmente também enterraram esta imagem. Integrada na Festa da Bênção do Gado, esta manifestação continua ligada a dois elementos distintos: o profano (festa de agricultores) e o religioso. “Numa época em que não havia médicos, em que a medicina não estava avançada como hoje, era normal que as pessoas recorressem a quem lhes podia acudir: o transcendente, a divindade. Por isso faziam-se bênções e romarias. Mais tarde, a igreja terá baptizado muitas dessas festas. E esta é possivelmente um desses casos”, recorda o padre Fernando.Finda a procissão, não faltaram os comentários. “Os bois vieram muito depressa”; “fez-se poucas paragens”, “os bois estavam muito nervosos este ano”, foram os mais ouvidos pelas ruas de Riachos. Para o padre Fernando, que diz ter ‘medo’ das multidões (visto que estas “se manipulam muito facilmente”), o balanço da procissão é positivo. Mas relembra que “tudo isto é muito trabalhoso, nomeadamente a preparação das pessoas”. Diz que a própria dimensão da Festa da Bênção do Gado e os 80.000 euros que a câmara investiu são demasiado megalómanos. “As pessoas sentem esta procissão. Não nego. Isto é uma espécie de catarse. É como ir ao futebol e deitar cá para fora uma quantidade de coisas que andam oprimidas. Mas existe a necessidade de ir para além do sentimento. O sentimento sem a razão e a acção não tem profundidade e desaparece”, recorda o padre Fernando. O sacerdote acha que a melhor imagem da Igreja continua a ser a caridade e a esse propósito aproveita para saudar o trabalho das várias equipas de voluntários do centro de assistência social de Riachos. “Nós temos aqui uma belíssima equipa de voluntários. Se lhes tivéssemos de pagar, 200 contos mensais não chegariam para compensar o trabalho que fazem. Isto é mais importante do que qualquer procissão”, desabafa.
Lenda do Senhor Jesus dos Lavradores revivida em Riachos

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