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Voluntário…mas pouco

Edição de 31.07.2008 | Opinião
Fui a Moçambique há cerca de quatro anos e quando regressei jurei que haveria de voltar para cumprir um sonho e uma missão: voltar ao território onde descobri pela primeira vez a África profunda e oferecer durante algum tempo o meu trabalho como voluntário numa das muitas organizações que trabalham no território. Já vi muita miséria e muita fome. Como em Moçambique nunca tinha visto igual. Passei alguns dos melhores momentos de férias naquelas praias paradisíacas. Viajei com pessoas que nasceram lá e que regressavam aos mesmos lugares muitos anos depois. Assisti a encontros com o passado e, com a memória que tinha dos retornados das ex-colónias, quase que senti na pele o drama dos milhões de portugueses que viveram na pele a época da descolonização. Fui incentivado por um médico, que fazia parte da minha comitiva, a cumprir a promessa de voltar como voluntário para ajudar a minorar o sofrimento daquele povo. Sei que ele voltou pouco tempo depois e foi cumprir o prometido.Guardo na memória a visita a algumas escolas onde não havia sequer cadeiras para as crianças se sentarem. Sentavam-se ou deitavam-se no chão e escreviam em cadernos que pareciam recuperados do lixo. E, num almoço que nos serviram no meio do mato, vi crianças ao colo das mães que eram literalmente comidas em vida pelas moscas. Não conto mais porque as imagens da televisão e do cinema mostram todos os dias o que eu jamais conseguiria descrever com palavras. Foi nessa altura que me lembro de ter tremido só de pensar como seria viver ali dois ou três meses naquele convívio com o sofrimento e com a mais cruel de todas as realidades que é o desprezo pela vida. Durante alguns meses troquei ideias sobre o assunto com alguns amigos que me acompanharam e fui revendo os contactos que tinha na minha agenda. No meio do vendaval que é a vida, de repente, dois familiares muito próximos ficaram sozinhos e a precisarem da minha ajuda. Assoberbado com o trabalho comecei a sentir dificuldades em sair a meio da tarde para lhes prestar a ajuda que eles precisavam e ainda precisam nos dias de hoje. Quando tenho que roubar um dia ao trabalho para uma consulta médica, para comprar medicamentos ou,  até, para uma simples visita de conforto, parece que o tempo nunca chega e o trabalho fica todo por fazer.Certos dias, quando regresso dessa pequenina missão de dar uma hora, ou uma parte do dia, ao meu dever de filho e sobrinho, lembro-me das promessas de me oferecer como voluntário para acções de solidariedade em Moçambique e penso no tamanho do meu egoísmo. Nada que eu não vença com espírito de missão e com a certeza de que não nasci para cruzar os mares. E ainda com a firme convicção e desgosto de que o meu grãozinho de loucura, com o passar dos anos, ficou muito mais pequeno do que eu verdadeiramente sempre desejei. JAE

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