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Uma tórrida solidão

Uma tórrida solidão

Para muitos seniores o conceito de férias já não faz sentido

Os centros de dia e residências para idosos têm iniciativas para oferecer um Verão mais animado, mas a solidão, a dependência, a vida ocupada dos familiares deixam pouca margem para pensar numas férias de sonho. O MIRANTE visitou o Lar Grande do Forte da Casa e o Centro de dia de Vale do Paraíso.

Edição de 31.07.2008 | Sociedade
Maria Teresa da Silva Godinho tem 80 anos. É viúva e noutros tempos foi costureira. Há cerca de dois anos teve um AVC que lhe levou a autonomia e, por conhecimento do filho, fez-se interna no Lar Grande do Forte da Casa - uma das três residências do Instituto de Apoio à Comunidade (IAC) no concelho de Vila Franca de Xira. Como tem dificuldades em movimentar-se, raramente sai a rua. Só se os filhos a vierem buscar. Passa o dia no quarto, onde lê as revistas, que os filhos lhe levam quando a visitam, e vê as telenovelas que passam na televisão. À hora das refeições dá um dedo de conversa com as colegas de residência. Muitas das vezes para falar da Instituição que as acolhe. “A limpeza e o pessoal são cinco estrelas, mas a comida é uma agonia. Já alguma vez comeu três vezes de seguida pescada frita com arroz?”. Diz que já não tem sonhos, que se sente muito só, mesmo estando acompanhada e pede desculpas pelo desabafo. Passa o Verão da mesma maneira que passa o Inverno. O ano passado inscreveu-se na colónia de férias da instituição e foi passar uma semana numa quinta em São João dos Montes, em Alhandra. “Mas estar lá ou não estar é a mesma coisa, vai tudo dar ao mesmo”, confessa. Este Verão já foi passear duas vezes e na próxima quinta-feira o cenário repete-se. “Não sei muito bem onde. É surpresa!”, exclama. Quando lhe perguntamos se é feliz no lar, responde com um comovido “tenho de ser, não tenho outra hipótese”. “Sabe, é que a nossa casa é sempre a nossa casa, embora aqui tenhamos condições belíssimas”, acrescenta Isabel Maria Cardoso, à resposta da sua colega de lar. Isabel Cardoso tem 47 anos e por infortúnio do destino teve uma doença que a distanciou da sua filha de 14 anos, do seu marido e do seu emprego num supermercado da Amadora. Foram os irmãos que a inscreveram no IAC, onde entrou em Setembro passado, ainda inconsciente. Com a ajuda financeira dos irmãos permanece ali, em regime de internato. Diz que já fez amigos. “Para mim são todos amigos aqui”. Ao contrário de Maria Teresa, Isabel sai à rua com mais frequência. Não dispensa o seu cigarro com a sua companheira de fumo, Rosette. “Bem sei que é um vício mau, mas também fumo pouco”. As festas e os aniversários são sempre passados em família. Recorda que no Natal passado, falou-se no lar em organizar-se uma viagem aos Açores. Confessa que gostava de ir, mas que infelizmente, se a ideia se concretizar, dificilmente poderá participar. “Os meus irmãos já se vêem aflitos para pagarem a minha estada aqui, os remédios, criar a minha filha, quanto mais pagarem uma viagem dessas!”. Mas as férias de sonho de Isabel passam por outro arquipélago: o da Madeira. “Para mim era um sonho ir à Madeira, mas já perdi as esperanças de lá ir”, arremata. O Lar Grande do Forte da Casa tem 48 utentes, uma médica e duas enfermeiras permanentes. Garante um conjunto de serviços variados que passam desde a higiene à lavandaria. O custo médio varia entre os 500 e os 700 euros mensais, consoante o utilizador ter ou não acordo com a Segurança Social.“Aqui na residência tentamos com que os nossos utentes se ocupem da vida quotidiana e sobretudo que ainda tenham objectivos de vida”, afirma Paula Madeira, uma das responsáveis pelo Lar. Mas, apesar dos esforços, há idosos que estão completamente esquecidos e sem esperanças, desesperam. “Faça algum bem pela gente”, clama uma idosa já de rosto encovado e rugas fundas, ao aperceber-se que O MIRANTE visitava o local. “São esquecidos pelos familiares e esquecidos pelo Estado”, avança Manuela Lopes, assistente de acção directa da residência. Mais ainda por ser Verão e muita gente sair para férias. “Estes idosos para mim são como uma família. Mesmo nas minhas férias, venho sempre visitá-los, já que muitos familiares não vêm”, discorre. Manuela Lopes é da opinião de que o Estado devia auxiliar mais as pessoas nesta fase da vida. “Os custos são elevadíssimos, entre fraldas, remédios e pensão”, argumenta. E prossegue com um exemplo muito concreto: “Eu ganho 650 euros/mês e pago 400 euros pela renda da casa, sobra-me 250 euros. Se acontecer alguma coisa aos meus pais, como é que eu os vou poder ajudar?”
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