uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante

“Não é padre quem quer”

João Maria Borga nunca se arrependeu da vida celibatária que escolheu

O pároco de Fazendas de Almeirim diz que a família exige demais para se poder conciliar com o sacerdócio. “Um padre tem que estar de coração aberto e ter uma relação de amor com toda a gente e não só com uma”, diz na entrevista a O MIRANTE.

Edição de 04.09.2008 | Entrevista
Com que idade decidiu ser padre?Não me lembro de um momento ou de um acontecimento que tenha marcado a minha decisão. Sempre me lembro de querer ser padre. Cresceu comigo. Convivia de perto com o prior de Lapas (Torres Novas). Quando fui tomando consciência de mim pertencia a uma família e a uma comunidade. E as duas coisas estavam interligadas. Percebi desde cedo a importância dos meus pais na condução e segurança que davam à minha família. E também a importância do senhor prior que coordenava momentos muito importantes da vida colectiva da comunidade.O que é que sentia quando ia à igreja?Ficava muito contente por estar ali. Sentia um gosto enorme. Recordo-me que adorava ficar a ver o sol da manhã a entrar pelas janelas da igreja e o ambiente fresco onde as pessoas se juntavam para rezar. E o cumprimento simpático do senhor prior. São imagens marcantes.Entrou no seminário com quantos anos?Aos 10 anos. Mas antes já ajudava na missa habitualmente. Já participava na vida da comunidade. A minha mãe ia para o trabalho e deixava-me na igreja para assistir à missa antes de ir para a escola.Para que serve o seminário?O tempo em que estamos no seminário é de preparação intelectual mas, acima de tudo, de preparação espiritual e humana para a missão que nos propomos e que a igreja depois nos entrega. Não é padre quem quer. É padre quem sente o chamamento de Deus.Como se sente esse chamamento?Pode ser através de diversas situações. Pode ser através da Vespa (ver caixa), pode ser através da importância que vimos no padre que preside aos sacramentos e está próximo da vida das pessoas. A pouco e pouco vamos descobrindo isso e vamos vendo até que ponto o Senhor nos chama a esse chamamento que nos faz viver uma vida diferente, com outro tipo de valores.O que leva uma pessoa a optar por esta vida e dedicar-se aos outros?É preciso ter uma relação com Deus. É ele a razão de ser disto. Reconhecer que Deus nos criou para a vida e que a vida é um dom que temos que valorizar e partilhar com os outros e descobrir em Jesus Cristo, aquele que nos dá o verdadeiro rosto de Deus, que nos faz descobrir para que serve verdadeiramente a nossa vida. A vida de todos só tem sentido quando nos relacionamos com os outros. Quando cortamos relações com os outros abrimos portas à morte.Enquanto esteve no seminário nunca pensou constituir família, ter filhos?Isso é uma ideia que pode passar pela cabeça. Mas para ter essa ideia eu teria que ter sentido primeiro que Deus não me queria nesta vida que escolhi. Senti sempre que Deus me tinha chamado para esta missão. Entusiasmava-me com a descoberta de Jesus, aquele que está próximo de todos. Aquele que precisa de alguns para continuar a estar mais próximo das pessoas através daqueles que escolhem ou aceitam essa missão.Nunca teve dúvidas na opção que tomou?Temos sempre dúvidas. Uma pessoa pensa todos os dias em muita coisa. Mas depois sentimos que sim, que a vida só faz sentido se seguir desta forma.Pode-se ser padre sem ter vocação?É muito difícil acontecer. Primeiro porque é preciso ultrapassar o crivo do seminário. Não se anda 15 anos no seminário sem se ter vocação. Para se ser padre é preciso ser-se persistente. Não se pode ser padre só porque um dia se acordou com essa vontade. Há um tempo de namoro que é existente. Aquilo que nos segura à missão é, como sempre, a nossa relação com Jesus Cristo. A nossa missão faz as pessoas felizes por isso temos que ser felizes no nosso trabalho.Nunca se apaixonou por ninguém?A minha paixão sempre foi a comunidade, o poder estar com o máximo de pessoas na partilha do gosto de viver. E vivi momentos muito interessantes como na altura do 25 de Abril em que descobrimos a liberdade e a necessidade de liberdade. O sonho de um mundo diferente que ensaiávamos em pequenas iniciativas tanto no seminário como nas actividades de férias, o trabalho nos bairros de lata e, mais tarde, no convívio com gente de outras faculdades com quem descobrimos a vida.E nunca ninguém se apaixonou por si?O facto de ser seminarista e querer ser padre tinha da parte das pessoas com quem convivia, sobretudo das raparigas, uma relação diferente, de simplicidade e confiança. Por vezes, isso provocava ciúmes nos outros.“O meu problema era como haveria de pedir namoro a alguém”Nunca teve nenhuma namorada?Não. Quando tinha sete anos observava os mais velhos a namorar e achava que quem pedia namoro tinha que ser muito corajoso. Punha-me a pensar que se não fosse para padre e tivesse que casar ia ser muito complicado porque não sabia como havia de pedir namoro a uma rapariga. Comecei a pensar e cheguei à conclusão que brincava mais vezes com uma moça minha vizinha. Como brincava mais vezes com ela achei que talvez fosse mais fácil constituir família com ela. Resolvi antecipar a coisa e disse-lhe: “Olha, não sei se vou ser padre ou não, mas se tiver que casar queres namorar comigo quando formos grandes? É que assim escuso de pedir namoro e começamos logo a namorar quando crescermos” (risos). O meu problema era como haveria de pedir namoro a alguém.E pretendentes?Penso que isso é normal na juventude. Havia alturas em que algumas pessoas se aproximavam mais e, por vezes, dizia que ainda não tinha desistido de ser padre. Mas tive a sorte de sempre me relacionar com pessoas que sempre respeitaram a minha vontade.Nunca lhe disseram para desistir do seu sonho?Antes de entrar para o seminário já me diziam que não tinha perfil para ser padre. Quando vinha nas férias, as pessoas perguntavam-me sempre se era desta vez que eu não voltava para o seminário. Isto durante 15 anos. Tinha sete colegas da minha terra que estudavam comigo e foram desistindo. Só fiquei eu. Nunca acreditaram muito que esta minha vontade fosse mesmo a sério. Até as velhotas me perguntavam se eu ainda não tinha desistido de ser padre. Diziam que era um rapaz mal empregue.Um padre também lida com a tentação. Como é que enfrenta e ultrapassa isso?Procuro não ceder à tentação o mais possível. Um padre também é pecador. Às vezes, não do jeito que as pessoas imaginam. Sou uma pessoa que precisa de ser salva como os outros. Nosso Senhor morreu por mim também. Existe a tentação de ser orgulhoso, teimoso. A tentação é trabalho do Diabo. Temos que ser capazes de saber o que fazer a essa tentação. Muitas vezes, essas situações são um desafio a purificarmos as nossas motivações ou a reconhecermos as nossas limitações.Concorda com o facto de os padres não poderem casar?A vocação para o sacerdócio normalmente é acompanhada da vocação para o celibato. Tem a ver com o dito amor universal. Somos alguém que está próximo de todos sem eleger ninguém em particular. A família exige demais de uma pessoa para se poder conciliar ambas as coisas. Um padre tem que estar de coração aberto e ter uma relação de amor com toda a gente e não só com uma.Antigamente, existia sobretudo nas aldeias as governantas que moravam em casa dos padres. E alguns padres tinham vários afilhados que, na verdade, eram seus filhos. É preferível essa situação de mentira?As coisas devem ser sempre bem feitas. Não deve haver mentira. Se uma pessoa fez uma opção de serviço à comunidade em geral e não ter ninguém em exclusivo deve cumprir essa opção. Normalmente quando isso acontece, os padres optam por resignar e dedicar-se à família que constituíram.Nunca teve governantas?Nunca. Confesso que daria jeito no princípio da minha missão de modo a ter uma casa arrumada, mas seria uma criada e isso nunca quis. Pela vida que levo, hoje em dia, teria muita dificuldade em aceitar que alguém vivesse comigo. Não criei espaço na minha casa para conviver com outras pessoas. Não tenho horários para partilhar a minha casa com outra pessoa. Não me sentiria à vontade. Tenho apenas uma senhora que vem semanalmente tratar da roupa e limpar a casa.Passadas três décadas desde que foi ordenado padre arrepende-se da decisão que tomou?Não, nem dei pelo passar do tempo. Depois de sermos padres sentimos que temos mais bagagem para a missão que o Senhor nos oferece. Nasci para servir e cumprir esta missão.Nunca foi para os copos com os amigos?Convivia muito, sobretudo nas férias, com os amigos. Saía à noite com eles. Cheguei a ter que levar alguns à cama. Esse é o problema de quem não se embebeda: temos que levar os outros.Um padre pode ser considerado um psicólogo?Antigamente não havia psicólogos mas sim confessores. As pessoas abriam o coração a Deus através do padre. Agora, as pessoas passaram a pagar aos psicólogos. Quando não resulta com os médicos recorrem aos padres. As perguntas dos psicólogos devem ser muito mais complicadas do que as perguntas dos padres. Temos que saber ouvir o que as pessoas querem dizer.O que faz nos tempos livres?Costumo ter pouco tempo livre. Aproveito para descansar e ler. Tenho dificuldade em acompanhar todas as notícias, porque cada vez nos chega mais informação. Gosto de visitar os amigos mas eles queixam-se que eu não apareço. Faz falta conviver um pouco mais com aqueles com quem estamos mais à vontade.Recorda algum episódio especial da sua meninice?O senhor Pereira era cego e passava o dia no adro da igreja. Quando terminavam as aulas íamos ter com ele porque contava histórias engraçadas. Mas fazia-me impressão porque via outros mendigos a apanhar beatas de cigarros para fazer novos cigarros. Eu pensava que o sr. Pereira não podia fazer o mesmo. Nessa altura decidi ser os olhos dele. Apanhava as beatas dos cigarros e pedia à minha mãe que em vez de me dar um doce me desse mortalhas. Tudo para lhe dar. Ele ficava muito contente.Acha que influenciou o seu irmão – padre José Luís Borga – a ser padre?Não. Ele é que se deixou influenciar. Foi bonito quando, aos 16 anos, ele foi passar uma semana comigo à Várzea e me perguntou o que era preciso para ser padre. Nunca me tinha falado no assunto. Disse-lhe que, ao contrário do que poderia parecer, esta era uma missão exigente. Respondeu-me que se eu era feliz ele também podia ser. Depois entrou para o seminário e seguiu o seu caminho. Somos muito amigos mas muito independentes também. Uma Vespa conduziu-o ao sacerdócioJoão Maria Borga nasceu há 56 anos na freguesia de Lapas, concelho de Torres Novas. Queria ser padre, músico e bombeiro. Aprendeu a tocar viola e ensinou os irmãos e sobrinhos. Mas confessa que, hoje em dia, a família sabe mais que ele. Não foi bombeiro mas ainda é capelão dos Bombeiros de Tomar.Desde criança que sentia que o seu caminho era na igreja. Quando era pequeno adorava sempre que o padre da aldeia lhe dava boleia na sua Vespa. Dizia que quando fosse grande queria ter uma. Achava que para ter essa mota italiana tinha que ser padre. A ideia das motas desapareceu mas o sonho da vida religiosa manteve-se.Aos 10 anos entrou no seminário. Esteve três anos em Santarém, sete em Almada e cinco nos Olivais até ser ordenado padre em Outubro de 1977. Foi professor de Religião e Moral durante 12 anos.O actual padre da paróquia de São José em Fazendas de Almeirim esteve durante 15 anos à frente de uma paróquia de Tomar. Confessa não ser um homem de ter saudades. “O que temos pela frente é tão importante e tão exigente que é uma perda de tempo olharmos para trás. Tenho pena das pessoas que vivem de saudades. É sinal de que desistiram de procurar a surpresa de cada dia e o empenho”, afirma.

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...