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Rafael Duque ainda é nome de rua em Lisboa Na Chamusca a placa caiu com o 25 de Abril

Um superministro de Salazar no tempo da guerra que nasceu no concelho de Torres Novas e viveu na Chamusca

A rua Rafael Duque caiu na Chamusca há mais de 30 anos. Em Lisboa mantém-se. Mas ainda há quem queira trazer a placa de volta às ruas da vila. “Ainda não perdi a esperança que o meu pai volte a ter nome de rua na Chamusca”, confessa o seu filho, João Duque, a O MIRANTE.

Edição de 10.09.2008 | Sociedade
A rua General Humberto Delgado é uma das ruas mais movimentadas da Chamusca. Noutros tempos tinha o nome de rua Rafael Duque por ser a rua onde morava o antigo presidente da câmara municipal, agricultor abastado e várias vezes e durante vários anos Ministro de Salazar. Com o 25 de Abril, e à semelhança do que aconteceu por todo o país, a placa toponímica caiu pela força dos tempos revolucionários e deu lugar a um dos nomes mais festejados com as conquistas do 25 de Abril de 1974. “Se tivesse resistido havia desordem. Ainda hoje não sei quem foram as pessoas que estiveram na decisão de retirar o nome de rua ao meu pai. Foi claramente uma decisão política”, desabafa João Duque, filho do antigo Ministro e homem influente do regime de Salazar, numa curta entrevista a O MIRANTE na sua casa da Chamusca. Versão diferente tem o actual presidente da câmara, Sérgio Carrinho. Para o edil, eleito pela CDU, as coisas aconteceram naturalmente. Carrinho diz que a substituição da placa toponímica não surgiu de uma decisão política mas sim da vontade popular. “Tal como outras ruas, a rua Rafael Duque prestava homenagem a uma figura do regime anterior. Esses nomes de ruas, no seguimento do acto revolucionário do 25 de Abril, foram substituídos. Não pela autarquia mas por movimentos populares. Apesar de não ter participado assisti à retirada da placa cuja iniciativa foi de muitas pessoas. Eram mesmo muitas, posso confirmar. O que posso garantir também é que não foi iniciativa da autarquia. Nem tinha sentido que fosse, embora a época fosse propicia a esse tipo de iniciativas” esclarece.João Duque não esconde aquilo que entende ser uma injustiça: “Atribui-se um nome de rua a alguém que prestou um bom serviço à terra. O meu pai fez muito pela Chamusca. A água e a luz a ele se devem. Um dia ainda se vai voltar a fazer justiça. Ainda não perdi a esperança de voltar a ver o nome do meu pai numa rua da Chamusca”desabafou.Confrontado com essa possibilidade Sérgio Carrinho diz que é uma questão que não se põe nesta altura. Reconhece as qualidades e os defeitos do político e homem da terra que foi Rafael Duque, e salienta também o papel importante que ele teve no primeiro plano de urbanização da vila da Chamusca, para além de outros. Para Sérgio Carrinho deve-se ainda a Rafael Duque o retorno da freguesia de Vale Cavalos ao concelho da Chamusca. “Mas isso não é suficiente para mudar o actual estado das coisas”, salienta.João Duque, o último dos quatro filhos de Rafael Duque, e o único ainda vivo, afirma não se recordar de nenhum outro homem a merecer tanto um nome de rua na Chamusca como o seu pai. “A não ser Gomes da Silva. E talvez o actual presidente da Câmara, que tem feito também coisas boas pela terra”, diz.Apesar de reconhecer que “o tempo dilui quase tudo”, Carrinho não acredita que por enquanto Rafael Duque possa voltar a ser nome de rua na Chamusca. “Até pode ser injusto”, salienta, “mas nunca tivemos nenhum pedido nesse sentido e também penso que ainda não passaram os anos suficientes para apagarem certas memórias ofendidas”. Nos arquivos da câmara, conta Sérgio Carrinho, existe uma carta onde Rafael Duque, na altura já Ministro, agradece numa linguagem muito diplomática e com grande modéstia, o privilégio que sentiu por lhe ter sido atribuído o nome de uma rua na Chamusca. Segundo o actual presidente da Câmara é notório o tom modesto de Rafael Duque nesta carta em que agradece as honras que lhe foram prestadas pelos chamusquenses da sua época.Curioso é verificar, como nota Sérgio Carrinho, que persistem ainda na Chamusca, de forma algo contraditória, locais com designações que remetem também para o Estado Novo mas que, por um motivo ou por outro, conseguiram sobreviver às acções populares que se deram a seguir ao 25 de Abril, nomeadamente uma placa no depósito do Miradouro de Nossa Senhora do Pranto, informando que este foi construído com o auxílio do Estado Novo, e uma outra numa estação elevatória, situada na Estrada Nacional, contendo a mesma indicação.Lisboa manteve placa toponímicaTambém em Lisboa, mas em Maio de 1970, um ano após a sua morte, Rafael Duque recebeu as honras de nome de rua, na zona de Benfica, topónimo que permanece até aos dias de hoje. Ana Homem de Melo, responsável de área de toponímia no Centro de Estudos Olisiponenses (CEO) esclarece: “normalmente a cidade de Lisboa tem sofrido alterações toponímicas muito variadas que acompanham também os movimentos revolucionários das diversas épocas. Da Monarquia para a República, da República para o período do designado Estado Novo e deste para a nossa Democracia conquistada com o 25 de Abril de 1974”. Todavia, persistiram, ao longo da capital, muitos nomes ligados ao antigo regime. Além de Rafael Duque encontramos, só para citar um bom exemplo, a Avenida Marechal Craveiro Lopes”.“Não se devem alterar nomes de ruas por tudo e por nada. Os nomes das ruas representam determinadas épocas históricas que é bom preservar. Sem essas memórias do passado ficaríamos também sem a memória desses períodos da história político-cultural da cidade de Lisboa”, complementa a técnica da CEO. Curiosamente, o nome de Rafael Duque aparece na placa toponímica de Lisboa sem outras referências que não sejam a do seu nascimento e morte. Vasco Lourenço diz que não se podem apagar as memórias do passado Vasco Lourenço, um dos mais conhecidos capitães do 25 de Abril e principal figura da Associação 25 de Abril, disse a O MIRANTE que compreende as razões que fizeram cair o nome de Rafael Duque na Chamusca e a manter-se em Lisboa. “Nem sempre é benéfico para a nossa história apagar a marca dos tempos. Compreendo e até acho normal que a placa toponímica tenha caído na Chamusca. Em Lisboa, na altura do 25 de Abril, Rafael Duque já era um ilustre desconhecido uma vez que já tinha morrido em 1969 e depois de muitos anos de ter deixado a política activa. Como ninguém o pôs em questão, o nome da rua passou e lá continuará até que os homens queiram”. Questionado sobre se a Associação 25 de Abril tem alguma política que proponha a alteração de nomes de ruas de pessoas ligadas ao período do Estado Novo, Vasco Lourenço disse que não e que seria um disparate se alguém andasse a preocupar-se com isso. Para Vasco Lourenço “a existência de ruas com nomes ligados a períodos diferentes da nossa história também serve para conhecermos melhor a nossa história como país. Ninguém deve apagar o passado a qualquer custo” refere.Rafael Duque: um “superministro” nos tempos da guerraRafael Duque nasceu na Mata, freguesia da Chancelaria, concelho de Torres Novas, a 23 de Setembro de 1893. Filho de João da Silva Duque, proprietário, e de Anna Rosa das Neves, doméstica, Rafael da Silva Neves Duque casou em Julho de 1920 com Maria Rosa de Oliveira, natural do Chouto, concelho da Chamusca, que lhe viria a dar quatro filhos: Jorge, Rafael, Feliciano e João. É na cidade dos estudantes, em Coimbra, que Rafael Duque se forma em Direito e onde  priva, pela primeira vez, com António de Oliveira Salazar, na época seu professor de Economia e apenas quatro anos mais velho do que ele. Terminado o curso, exerce advocacia na comarca de Torres Novas. Entre 1920 e 1924 é por diversas vezes chamado para a chefia do gabinete do então ministro do Trabalho Republicano, o seu primo Júlio Ernesto da Lima Duque. Entre 1926 e 1929 fica à frente dos destinos da autarquia chamusquense. Aderiu ao golpe militar de 28 de Maio de 1926 e em 1934 Salazar convida-o para a chefia do Ministério da Agricultura, onde implementa um conjunto de medidas, tendo em vista a modernização da agricultura portuguesa. Tem um papel significativo no desenvolvimento do plano florestal do país estando na génese do Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa. Em Janeiro de 1936 é distinguido com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo. Em 28 de Agosto de 1940, depois de uma grande reformulação do seu Governo, Salazar convida-o para “superministro” acumulando as pastas do Ministério da Economia com a do Comércio e Industria. Era uma altura em que Salazar procurava um novo rumo para Portugal e em que ele próprio, para além da Presidência do Conselho de Ministros, acumulava as pastas das Finanças, dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Rafael Duque deixou o Governo em 24 de Novembro de 1944 passando a ocupar o lugar de deputado na Assembleia Nacional cargo para o qual tinha sido eleito em 1938 com uma reeleição em 1942. O “superministro” não resistiu ao desgaste político de uma época atravessada pela guerra e pelas dificuldades económicas que se repercutiram nomeadamente no abastecimento público dos bens essenciais como o pão e os combustíveis.Depois de sair da política activa Rafael Duque ocupa vários cargos importantes até que, em 1957, chega a Governador do Banco de Portugal, onde esteve até 1963, ano em que atingiu o limite de idade para ocupar o cargo.Em 1965 regressa às origens, para a sua casa na Chamusca, para viver no campo e gerir as suas terras. Reza a história que viu com amargura que o sector da agricultura, pelo qual tanto lutou, continuava com graves e renovados problemas. Rafael Duque morre no dia 28 de Abril de 1969. Tinha 76 anos.Uma biografia autorizada e com boa colaboraçãoJosé João Marques Pais é o autor de uma biografia de Rafael Duque publicada em Agosto de 2007 que nos chegou às mãos já este ano. O livro é uma encomenda de João Duque, o filho mais novo de Rafael Duque e o único ainda vivo. Segundo informação que recolhemos recentemente o livro não teve distribuição pública. João Duque comprou e pagou toda a edição e tem vindo a oferecer os livros a amigos e admiradores da figura e da obra de seu pai. “Houve pessoas, cujos nomes não posso revelar, que me surpreenderam ao pedirem-me o livro. Não o enviei para jornais e jornalistas porque hoje a informação está muito automatizada. Enviei-o a alguns historiadores como Fernando Rosas, por exemplo. Mas pelo interesse histórico que o livro testemunha talvez um dia mais tarde o venha a publicar para distribuição nas livrarias”, acrescentou”A biografia conta a história de um Homem que disse numa intervenção na Assembleia Nacional, em 1945, que “se não houver independência económica não há liberdade, e a liberdade é o selo da dignidade humana”.José João Marques Pais escreveu um livro bastante informativo sobre a vida de Rafael Duque embora sem uma perspectiva crítica da época. Sendo uma obra encomendada, que terá contado com toda a colaboração de João Duque, que deverá ter reunido o máximo de informação sobre o seu pai e a época em que viveu, ao historiador de Alpiarça coube a obrigação de escrever e compilar os dados para a referida biografia. Não deixa de ser um bom trabalho, bem escrito e organizado, que contribui para o conhecimento e estudo de uma parte da História de um homem que deixou marcas no país e na região.O professor Joaquim Veríssimo Serrão, autor da História de Portugal ( Editorial Verbo), faz bastantes referências a Rafael Duque, num dos volumes dedicados ao período do Estado Novo, e diz que o superministro de Salazar era um dos políticos mais brilhantes da sua época.Comentário Um dia destes falei de Carlos Amaral Netto, um político da minha terra já falecido, que era à altura do 25 de Abril de 1974 presidente da União Nacional, hoje Assembleia da República. Veio à conversa o episódio à volta da toponímia chamusquense e o facto de no período revolucionário o nome de Carlos Amaral Netto ter sido arrancado da parede como foram muitos outros ligados ao antigo regime. Fiquei com o assunto de memória porque o meu interlocutor confessou saber que Carlos Amaral Netto sempre disse que não queria nome de rua enquanto fosse vivo. Parece que adivinhava. Por isso, dizia o meu interlocutor, o seu desgosto foi maior quando soube que os populares tinham arrancado a placa toponímica com o seu nome. Aquele espectáculo foi para ele mais humilhante que tudo o resto. Afinal esta era a sua terra e este era o povo que estava mais próximo de si e que ele cumprimentava todos os dias quando estava na Chamusca.Conheci Carlos Amaral Netto nos últimos anos da sua vida. Conversei com ele algumas vezes e confesso que não lhe vi rancor ou despeito pela sua terra e pelo seu povo. Lembro-me dele logo a seguir ao 25 de Abril e de o ver regressar do campo em botins, cheios de lama, passando do escritório para a sua casa, com aquele corpo já um pouco pesado da idade. O pessoal que estava ali perto da câmara municipal (na altura a “revolução” fazia-se todos os dias), via-o passar e nem bulia. Era como se ele fosse um cidadão normal. E no entanto passava por nós a segunda figura do antigo regime.Depois desta conversa sobre Carlos Amaral Netto aconteceram duas situações curiosas. Caiu-me em cima da secretária uma biografia de Rafael Duque (1893-1969), e descobri num mapa de Lisboa uma rua com o seu nome. Quem conhece bem a Chamusca e a região sabe que Rafael Duque foi um dos maiores proprietários de terras e um homem muito influente, tendo desempenhado entre outros cargos o de presidente da câmara. Ministro muito influente do Governo de Salazar, nos anos difíceis da guerra, a placa toponímica com o seu nome numa rua da Chamusca também caiu no período revolucionário do 25 de Abril. Em Lisboa mantém-se até aos dias de hoje.Rafael Duque teve quatro filhos. João Duque, o seu filho mais novo, hoje com 82 anos, está na origem da publicação deste livro. Homem de letras, advogado de profissão, também ele foi figura importante do anterior regime tendo passado pela presidência da Administração da RTP durante os anos sessenta. Ainda hoje tem casa na Chamusca onde faz a gestão da sua casa agrícola.O texto que se publica nestas páginas é uma tentativa de contar um pouco a história de outros tempos com episódios e declarações dos nossos dias. Encontrar uma rua em Lisboa com o nome de Rafael Duque foi o pretexto para este trabalho. Mas também não é todos os dias que um filho encomenda uma biografia de um pai que foi Super Ministro de um Governo de Salazar. JAE

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