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“Tenho muitas saudades do público e das palmas”

“Tenho muitas saudades do público e das palmas”

Fernando Salgueiro, o toureiro que nos anos 60 e 70 actuou em centenas de praças

É pai do toureiro João Salgueiro e avô do cavaleiro praticante João Salgueiro da Costa. Nesta entrevista Fernando Salgueiro conta episódios do tempo em que toureava. Faz parte da família que há mais gerações seguidas anda na festa brava. Aos 67 anos sente falta da agitação das praças, dos aplausos, mas dá a estocada nessas saudades à noite, sentado no sofá, relendo a história da família e as reportagens das suas tardes de glória dos anos 60 e 70.

Edição de 07.01.2009 | Entrevista
Como se sente ao fazer parte da família que mais gerações tem ligadas à tauromaquia?Quando toureava sentia que era uma responsabilidade muito grande, até porque era o único rapaz e tinha que dar continuidade à tradição familiar. Agora é uma grande honra. A partir do momento que o meu filho começou a tourear, e agora também o meu neto, sinto que cumpri o meu papel.Quando é que começa a ligação da sua família à festa dos toiros?Foi com D. João da Costa, meu avô já em sexto grau, quando ele alanceou toiros no Terreiro do Paço (Lisboa) nas festas de casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra. Mas o alancear não tinha nada a ver com as touradas que hoje conhecemos…São as práticas que dão origem ao toureio. O alancear era uma preparação para a guerra. Os guerreiros a cavalo corriam para o toiro e matavam-no com uma lança. Os toiros eram apanhados no campo pelas chocas, nome que ainda se chama aos cabrestos. As chocas eram vacas com o cio que eram conduzidas pelos campos para atraírem os toiros.Os seus avôs tiveram alguma influência na sua vida?O meu avô paterno teve um acidente quando toureava uma vaca na propriedade em Valada. O cavalo caiu-lhe em cima de uma perna. Deixou de poder montar a cavalo e passou a deslocar-se num carro de caça que mandou vir da América. Morreu cedo e acabei por acompanhar mais o meu avô materno, Fernando Andrade, que também era toureiro amador, até ele morrer quando eu tinha 17 anos. Quem teve mais influência na minha vida tauromáquica foi o meu pai. A ligação do seu pai aos cavalos não começou na tauromaquia…Era mais um cavaleiro de concursos hípicos de obstáculos e de picadeiro. Começou a tourear com dez anos mas de forma amadora, em brincadeiras com os amigos. Depois ganhou o bichinho das touradas e imaginou uma forma diferente de tourear. Que forma diferente era essa?Até essa altura havia um toureio com as sortes tradicionais, à meia volta, à garupa… Mas ele entendia que era possível tourear a cavalo como se toureava a pé, entrando de frente para o toiro. Para isso era necessário que os cavalos tivessem força e as raças nacionais não estavam preparadas para isso. Ele foi buscar um puro-sangue inglês. Foi o primeiro cavaleiro a utilizar esta raça em corridas de toiros. O meu pai andou seis anos a prepará-lo. O seu pai tinha a grande vantagem de ser equitador, o que hoje já não acontece tanto.Actualmente os cavaleiros compram já tudo feito. Dão milhares de euros por cavalos que depois não têm bases, não têm arranjo. Isso é uma crítica ao panorama tauromáquico actual?É uma constatação. Mas apesar de tudo há uma evolução nítida no toureio a nível geral. Se é para bem ou para mal não sei. Continuamos a ver toureiros clássicos como o António Ribeiro Telles ou como o meu filho João Salgueiro que consegue improvisar, que tem génio.O estilo de toureio do João Salgueiro é muito diferente daquele que era praticado pelo seu pai e por si. Ele não quis seguir o estilo da família?Tanto eu como o seu avô nunca lhe impusemos o que quer que fosse. Ele sempre seguiu uma linha intuitiva. Eu segui a linha do meu pai, mas não por imposição. Como é que nasce a ligação da família a Valada do Ribatejo?O meu trisavô foi para Valada na sequência das lutas entre liberais e miguelistas. Ele era miguelista e D. Miguel entregou-lhe umas terras na zona para administrar.Como é que aparece o Salgueiro como nome de família, já que os seus antepassados não tinham esse apelido?Foi um episódio caricato. O meu pai assinava como Pinto da Costa, não tinha Salgueiro no nome, mas passou a usá-lo por causa do exército. Ele estava requisitado como veterinário no regimento de Cavalaria 7 e precisava de oito dias para ir tourear a Coruche por altura das festas de Nossa Senhora do Castelo. O comandante, que ainda era nosso parente, disse que não o podia dispensar tanto tempo. Mas às tantas lembrou-se que a avó do meu pai era filha do barão de Salgueiro e disse-lhe: não posso dispensar o Fernando Pinto da Costa, mas o Fernando Salgueiro não conheço e não está no regimento. Agora somos oficialmente Salgueiro da Costa. Começou a montar a cavalo com que idade?A primeira vez que saí à rua após ter nascido foi montado num cavalo, por sinal aquele que o meu pai tinha usado na sua alternativa como cavaleiro tauromáquico. O mesmo aconteceu com o meu avô e com o meu pai. É uma tradição da família que não sei como nasceu. Lembra-se da sua alternativa?Foi no dia 2 de Junho 1968 na inauguração da Feira do Ribatejo em Santarém e não foi fácil. Quinze dias antes tinha ido com a minha mãe ao alfaiate buscar uma casaca. Em Salvaterra de Magos começo a sentir umas dores horrorosas na barriga. Tive que ser operado de urgência a uma apendicite. Fui tourear todo ligado e com uma cinta, pior que uma senhora. Qual era a relação entre os cavaleiros tauromáquicos na altura?Havia uma grande amizade e entreajuda. Não existia a competitividade e a agressividade que há hoje. Comem-se uns aos outros, passe a expressão.Retirou-se ao fim de doze anos de actividade como profissional. Já se sentia sem forças?Não. Foi por razões familiares e porque achei que estava na altura. Porque tinha atingido um determinado patamar e pensei que o melhor era sair antes de começar a fazer figura de parvo.Qual foi a actuação que mais o marcou?Foi numa corrida em Burgos (Espanha). O director da corrida queria que eu toureasse em último lugar, quando devia ser o primeiro atendendo à antiguidade de alternativa. Recusei-me, mas na altura da corrida os meus colegas vieram pedir-me porque havia problemas com o piso da praça e acabei por aceitar. Não tinha vontade de tourear, mas quando entro na praça e dou com um público extraordinário, transformei-me completamente e fiz uma actuação estupenda. O director teve que sair com a protecção da polícia porque deu-me duas orelhas e não me quis dar o rabo do toiro o que fez as pessoas revoltarem-se. Porque é que agora os toureiros passam a vida a dizer que os toiros não prestam?É como o meu Sporting quando perde e diz que a culpa é do árbitro. Eles que joguem. O toiro é para ser toureado. Não há toiros que sejam intoureáveis, há é toureiros que não são capazes de lhes dar a volta.Hoje os cavaleiros durante uma lide trocam várias vezes de cavalo. No seu tempo também já havia este costume?Era um desprestígio para o cavaleiro não fazer a lide sempre com o mesmo cavalo. Se trocasse era sinal que o cavalo não estava bem preparado. Entendo que para se ser um bom cavaleiro tem que se ser um bom equitador e para se ser um bom toureiro tem que perceber os toiros. O espectáculo tauromáquico também foi evoluindo desde essa altura. Sim, mas não é o cavalo que deve estar preparado para mim ou para os diferentes comportamentos do toiro. Eu é que tenho que preparar o cavalo para fazer tudo o que preciso. O meu avô Fernando Andrade costumava dizer-me que um cavalo estava preparado quando fazia aquilo que nós queríamos. Hoje os cavaleiros em vez de no Inverno estarem no picadeiro a preparar cavalos andam à procura daqueles que podem fazer determinado tipo de coisa e pagam um dinheirão por isso. Quando toureava quantos cavalos tinha?Ia semanas para Espanha tourear e levava apenas quatro cavalos na camioneta. Hoje o transporte de cavalos tem mais condições para os animais que tinham os tratadores na minha altura, que dormiam em cima dos fardos de palha. Na década de 70 o José Samuel Lupi fez 112 corridas numa época com quatro cavalos mas praticamente só dois é que eram os mais usados. Desligou-se completamente da tauromaquia?Ultimamente afastei-me mais. Tenho andado muito desiludido. O meio taurino tornou-se agressivo demais. Deixou de ser uma diversão para ser um trabalho. Prefiro estar em casa a beber um copo e a ver as corridas na televisão.Uma família onde as mulheres predominamFernando Salgueiro, 67 anos, casou quatro vezes. Actualmente está divorciado. Diz que é uma pessoa apaixonada que vive de paixões. Teve oito filhos, mas só um é rapaz, o cavaleiro João Salgueiro. Não conseguiu fugir à que parece ser a malapata da família que tem mais mulheres que homens. Dos 14 netos que já tem, só quatro são rapazes. Também parece já ser tradição no clã as mulheres terem filhos muito cedo, por volta dos 20 anos. O cavaleiro dos anos 60 e 70 foi o último a tourear na chamada África portuguesa, em Lourenço Marques, nos dias 2 e 3 de Fevereiro de 1974, numa corrida pela reintegração social dos mutilados de guerra. Toureou pela primeira vez na sua terra natal, Almeirim, quando tinha dez anos. Considera-se uma pessoa simples, que preserva as amizades, que respeita toda a gente seja qual for a sua condição. Não liga a títulos nem a privilégios. Gosta de ir ao café ler o jornal. Quando não tem nada que fazer ouve música dos anos 70, 80 e 90, escreve, lê livros de História e Filosofia. Sobretudo à noite, porque “a noite é boa conselheira”. Nas paredes de casa não faltam retratos, do seu pai e do seu filho. Fotos suas antigas. Aguarelas e desenhos do mundo taurino. Quadros com cavalos. Bandarilhas com a bandeira monárquica e com a bandeira com o ferro da antiga ganadaria da família. Fernando Salgueiro é um homem bem disposto, simpático, que parece carregar o peso de uma família com ligeireza. Nas paredes de casa também estão expostos quadros com agradecimentos ao lado de prateleiras carregadas de livros. Uma moldura confirma que a Santa Casa da Misericórdia o fez sócio honorário. Noutra lê-se o agradecimento pela “sua generosa colaboração no festival tauromáquico realizado na monumental de Santarém a favor da construção de um bloco operatório do hospital de Santarém”. Foi em 21 de Junho de 1975. “Na agricultura empobrecemos alegremente”Depois de deixar a tauromaquia no início de 1980 dedicou-se a quê?À casa agrícola. Mas tenho muitas saudades das palmas, do público. O pior para quem é ou foi artista é o silêncio. A sensação que se tem quando se acaba uma lide é a de dever cumprido. É como um orgasmo. E como tem corrido a actividade na agricultura?Na lavoura empobrecemos alegremente. Mas para esquecer isso vou enriquecendo intelectualmente. Gosto de ficar à noite a estudar nas áreas da História e Filosofia, a recordar as histórias de família, a escrever. Mas ainda cultiva alguma coisa?Não. Agora tenho as terras arrendadas, infelizmente. Porque muitas vezes não pagam as rendas.Dizem que é um “bon vivant”.Se andar na vida da melhor maneira possível, com alegria, sem prejudicar alguém, sem chatear os outros, é ser um bon vivant então é o que sou. Mas também não quero que me prejudiquem ou aborreçam. É monárquico?Sou monárquico racional, porque entendo que é o sistema que dá identidade a um país. E na política qual é a sua tendência?Cheguei a colaborar com o CDS, mas apanhei uma desilusão com o Freitas do Amaral, que não é uma pessoa vertical, e afastei-me. Sou de direita mas nunca militei em qualquer partido, apenas acredito em pessoas. O único político por quem tenho respeito é o Álvaro Cunhal. Nunca me enganou como pessoa.O 25 de Abril marcou-o?Era necessário para o país, mas foi uma fantochada. Uma revolução não se faz com cravos. Faz-se com pessoas que querem melhorar o que está bem e corrigir o que está mal. E o que aconteceu foi que aumentaram o mal e acabaram com o bem. Ainda hoje andamos com discussões à procura do caminho sócio-económico do país. O que é que fez na sua juventude além de aprender a tourear?Joguei râguebi pela Faculdade de Direito de Lisboa. Cheguei a estar matriculado sete anos no curso sem nunca ter entrado no edifício ou assistido a qualquer aula. Só jogava. Acabei por tirar o curso de regente agrícola em Santarém e com muita sorte. Já o meu pai também era um grande desportista. Chegou a jogar futebol pelo Sporting. O clube quis contratá-lo, mas ele disse que jogava quando precisassem dele porque ao domingo tinha que montar a cavalo. Teve uma educação rígida?Tinha uma professora particular que me ia dar aulas a casa, na altura os meus pais estavam em Valada. Por causa de qualquer coisa que fiz a minha mãe resolveu castigar-me e mandar-me para a escola pública. Foi o melhor castigo que podia ter tido na vida, porque assim andava com a malta com quem não me podia dar, na brincadeira, aos ninhos. Mas só durou três meses porque a minha mãe percebeu a situação e mandou-me para um colégio em Lisboa. Quando entra para a Escola Agrícola de Santarém voltou à farra…Mas aprendi uma coisa para toda a vida. Estava num quarto em Santarém e tinha uma mesada para as despesas. Na altura para se andar naquela escola tinha que se ser homem, o que significava embebedar-se, ir às meninas, jogar… Numa tarde fui com uns colegas jogar às cartas a dinheiro. Perdi a mesada. Foi uma bênção de Deus. Fiquei com uma raiva ao jogo que não posso ver cartas à minha frente. A escola sempre teve fama de ter umas praxes muito duras.Eram praxes como deve ser, não eram como as fantochadas de agora. Enquanto caloiros tínhamos que andar sempre fardados, não podíamos andar na rua depois das nove da noite. Havia regras…Sente que o nome da sua família ainda tem peso em Almeirim?O tempo dos privilégios já acabou há muito. Tenho o maior respeito pela ascendência familiar, mas não transporto isso para a minha vida. Valho pelo que sou e não pelos nomes, pelos títulos dos antepassados, pelos brasões. Considero-me uma pessoa simples. Como tem visto a evolução de Almeirim?Tem sido feito um bom trabalho. O único erro foi ter passado a cidade. Porque era uma vila de primeira, de excelência, e agora é uma cidade de terceira.Santarém foi a cidade onde estudou e onde tirou a alternativa como cavaleiro profissional. A cidade ainda lhe diz alguma coisa?Tanto o meu pai como eu fizemos várias corridas gratuitamente em beneficência de instituições da cidade. Gosto de Santarém, mas a cidade não reconhece o que fizemos. O meu filho quis fazer a alternativa na Celestino Graça e não cederam a praça. Veio fazê-la a Almeirim onde temos uma boa relação com a Misericórdia que é dona da praça. Há uns tempos fizeram uma homenagem aos toureiros que tiraram a alternativa em Santarém. Fui o primeiro a fazer a alternativa naquela praça e não me convidaram. Nem bom dia me disseram.
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