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“Nem os pássaros gostam de estar presos”

José Picoto não pagou multa e apanhou quatro meses de prisão

O recluso mais velho do Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha é uma figura bem conhecida em Santarém. Injúrias a um oficial da polícia e uma multa de que diz nunca ter recebido notificação para pagar abriram-lhe as portas da cadeia aos 76 anos. José Picoto só tem elogios para as condições que encontrou e para o pessoal. E diz que, se quisesse, já lá tinha tirado um curso de assaltar bancos.

Edição de 26.02.2009 | Sociedade
Ver Vídeo em: http://www.omirante.pt/omirantetv/entrevista.asp?idgrupo=2&IdEdicao=54&idSeccao=514&id=28611&Action=noticiaJosé Picoto Ferreira é o recluso mais velho do Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha. Aos 76 anos foi detido para cumprir 120 dias de prisão por não ter pago uma multa de 480 euros a que foi condenado em Julho de 2005 por injúria agravada praticada sobre um oficial da polícia e por resistência e coacção. A justiça é cega e aplicou o que está estipulado na lei. Apesar de José Picoto garantir que nunca recebeu a notificação para acertar as contas com a justiça. Entretanto mudou de casa e essa pode ser a razão do alegado extravio, alvitra. Foi em Novembro passado que José Picoto desapareceu das ruas de Santarém. Quem conhece bem a cidade e nela faz vida diariamente deve ter estranhado a ausência daquela figura peculiar, circunspecta de manhã, expansiva à tarde, quando o álcool se emaranhava no sangue. A estadia forçada nas Caldas da Rainha é encarada com conformismo e até com algum humor. “É a primeira vez que estou preso na minha vida, com quase 77 anos. Não percebo nada disto. Se fosse um mês ainda aprendia alguma coisa, agora quatro meses é um bocado demasiado”, conta-nos num pequeno gabinete à entrada do estabelecimento prisional, onde já todos os guardas o conhecem.A adaptação ao novo quotidiano não foi fácil de início. Os dias esgotam-se com passeios no recreio, a ouvir telefonia, a comer e a dormir. “Presos nem os pássaros gostam de estar”. O desrespeito de alguns reclusos mais novos foi atenuado pelo trabalho dos guardas prisionais, a quem não poupa elogios. “É gente fora de série”. Fala com gratidão do acompanhamento médico a que tem sido sujeito, da dieta a que está submetido. Mas apesar dos oito comprimidos que toma por dia o vinho continua a ser uma ideia fixa. “Não me sai da ideia”, confessa. A abstinência tem sido aliás a maior provação por que tem passado no cárcere.Vai recebendo a visita de familiares regularmente e lamenta que alguns amigos não apareçam. Diz que as condições que ali encontrou até são mal empregadas para alguns dos hóspedes. ”Isto é bom demais para alguns que aqui estão. Dava bem para um lar de idosos. Se não tivesse a minha mulher já não queria de cá sair”, declara, acrescentando com um sorriso: “Eu é que não me junto com eles, senão já tinha tirado aqui um curso de assaltar bancos…”.A meio da conversa coloca a boina à Che Guevara na cabeça. Uma imagem de marca que chegou a aparecer na primeira página do Expresso aquando da última Festa do Avante. A barba crescida dá-lhe vagas parecenças com Fidel Castro, um ídolo de sempre. Na prisão das Caldas da Rainha já todos conhecem a militância de José Picoto, o tal que apregoa que “chuva fascista não molha comunista”.Com os dias por sua conta e sem a companhia entorpecedora do álcool, José Picoto tem tempo para reflectir. A revolta latente continua a minar-lhe as entranhas. Reconhece que não é um herói nem exemplo para ninguém. Mas tem dificuldade em entender porque foi ali parar durante quatro meses. “Nunca pensei passar por uma situação destas”, afirma.Este não foi o único episódio infeliz da vida de José Picoto. Há cerca de seis anos a esposa caiu da varanda quando estendia a roupa, no bairro do Girão, em Santarém. O varão cedeu ao peso. O apartamento era propriedade da Câmara de Santarém. A idosa, actualmente em casa de uma filha, ficou debilitada. O inquérito aberto pelo município não deu em nada. A indemnização pretendida nunca chegou. O marido passou a ter a responsabilidade de tarefas domésticas como cozinhar e lavar a loiça. A desgraça era afogada em álcool, que por sua vez potenciava a revolta. Sucederam-se situações menos felizes. E como vai ser a vida depois da passagem pela prisão? “Eu porto-me sempre bem. Não me vou portar melhor. Se houver alguém que me provoque respondo à letra”, diz José Picoto, um homem que trabalhou nas obras grande parte da sua vida e que hoje recebe uma pensão de 360 euros. Pelos vistos, as missas a que passou a assistir na cadeia ainda não o convenceram a dar a outra face.

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