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Moinhos de Vila Franca de Xira fora das rotas turísticas nacionais

O engenho de João Faustino é o único que ainda funciona no concelho

João Faustino ainda faz girar moinho de Subserra nos dias de vento. Mas é um único no concelho de Vila Franca de Xira.

Edição de 06.05.2009 | Sociedade
João Faustino sai à rua para voltar a enrolar uma das quatro velas do seu moinho. Ao início da manhã, o antigo moleiro, 67 anos, colocou mais uma vez o engenho a funcionar para “matar o desejo”, como costuma gracejar. A meio da manhã, sem vento, já o moinho está recolhido e o homem verifica o estado do mecanismo que insiste em manter funcional, apesar de há dois anos ter deixado de fabricar farinha. O moinho, instalado na Subserra, freguesia de São João dos Montes, Vila Franca de Xira, é o único que funciona com regularidade num concelho que se encontra há vários anos fora dos roteiros turísticos dedicados àquelas atracções. “Chegaram a aparecer aqui alunos de escolas do Montijo, com a professora, que diziam querer ver o 'moinho da câmara', tendo vindo a convite da nossa câmara municipal. E explicava-lhes: Aqui, não há nada da câmara, é meu. Mas podem visitar”, conta. As quartas-feiras, sábados e domingos, dias em que aproveitava para fazer pão com chouriço, eram os preferidos dos visitantes. E até uma equipa de reportagem de uma estação de televisão chegou ao local, na década de noventa, munida de uma “autorização” da câmara, para fazer um trabalho sobre os moinhos da região. O negócio que manteve até 2007, de moagem de farinha e fabrico de pão, atraía turistas de vários pontos do país, alguns por indicação do município. Com o fim da moagem, só João Faustino, a esposa e um ou outro visitante ocasional ainda admiram um dos moinhos que resiste naquela zona. “O dos Tojais também está bem conservado. Era tal como este, do meu avô e ficou para o irmão da minha mãe. Este foi comprado por 6 mil escudos em 1927, mas não dura mais que eu”, vaticina o veterano. A conservação, explica, fica a seu cargo, tal como a manutenção do motor que em tempos usou para aumentar a eficácia da moagem. A segurança, no local, já teve melhores dias. “Às vezes aparecem aí jovens a querer vandalizar o moinho, agarrando-se aos mastros, e a tentar partir as bilhas”, conta João Faustino.A falta de apoios à conservação do engenho, construído em 1863, como noutros casos do concelho, mantém os moinhos de Vila Franca de Xira afastados dos caminhos do turismo na região. Em Abril, durante as comemorações dos dias mundial e nacional dos moinhos, promovidos pela Rede Nacional de Moinhos e a associação Nacional de Molinologia, estiveram abertos ao público 155 moinhos em 44 concelhos de 13 distritos do Continente e em duas ilhas da Região Autónoma dos Açores, propriedade das autarquias e de particulares. Da região, apenas o Moinho do Lebre, no concelho de Alenquer, e o Moinho de Rio Maior foram incluídos. A animação dos locais, o apoio das autarquias e a conservação dos engenhos são alguns dos critérios de selecção.Esaú Alves, membro do Clube Ibérico de Montanhismo e Orientação (CIMO), é um conhecedor dos caminhos da região e acompanha desde há vários anos o percurso dos moinhos do concelho. “A manutenção destes engenhos permite garantir um testemunho histórico importante, mas depende da sensibilidade cultural de cada autarquia”, considera. O caminhante, que promoveu no final de Abril uma caminhada pela freguesia de São João dos Montes, critica a responsabilidade da autarquia na promoção e conservação do património histórico do concelho, onde inclui não apenas os moinhos mas também os vestígios dos fortes da linhas de Torres. “São pedaços de património que necessitam de protecção urgente”, aponta. Dos orçamentos da autarquia de Vila Franca de Xira para a área da cultura estão ausentes quaisquer menções à recuperação dos moinhos de vento e de água. Em freguesias como Vialonga ou Forte da Casa, no sul do concelho, os engenhos, já em ruínas, sofrem os efeitos da erosão e do vandalismo. Na freguesia de São João dos Montes, no caso de dois moinhos em particular, a solução encontrada para manter o património foi outra. Há moinhos que foram transformados em casa de habitação.

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