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Romaria à ermida da padroeira dos campinos na Lezíria Grande do Tejo

Romaria à ermida da padroeira dos campinos na Lezíria Grande do Tejo

Tradição de culto à Senhora de Alcamé voltou a cumprir-se em Vila Franca de Xira

Os campinos voltaram a carregar a imagem da Senhora de Alcamé até ao cais de Vila Franca de Xira. No barco varino “Liberdade” a padroeira das gentes do campo alcançou a outra margem até chegar ao lugar da ermida, na Lezíria Grande do Tejo.

Edição de 06.05.2009 | Sociedade
De colete encarnado, curvados ao peso do andor, os campinos seguem pelas ruas de Vila Franca de Xira levando aos ombros a imagem de Nossa Senhora de Alcamé. Já passam das nove horas da manhã de sábado, 2 de Maio. A réplica da imagem da padroeira (a original foi roubada) deixou para trás a Igreja da Misericórdia, de onde saiu, e segue em direcção ao cais da cidade. São poucos os que acompanham o andor. Uma mulher abeira-se. Quer lançar pétalas de flores à partida da imagem. O barco varino “Liberdade” segue depois ondulando até à outra margem. Campinos à proa. “É bonito, não é?”, comenta Orlando Vicente, 73 anos, com um sorriso rasgado. O campino é um homem crente à sua maneira que recusa os rituais certos de domingo porque a vida também não permite. “Ando nos campos com os toiros, mas quando tenho uma aflição peço a Nossa Senhora que me valha!”, diz a justificar a devoção o antigo feitor da casa Tomás da Costa, que hoje já mais parado – que um campino não se reforma - mantém ligação à família da Casa Pinto Barreiros, onde trabalhou.É um dos campinos que escolta a imagem durante a passagem sobre o Tejo. Foi também por ali que mergulhou aos nove anos agarrado a uma égua. Num tempo em que ainda não se utilizavam veículos de transporte rodoviário e os animais seguiam pelo rio, em barcos. “Estávamos a carregar os bois de trabalho. Mandaram-me entrar com a égua. O barco abriu. Mergulhei, mas nunca me larguei. Andava toda a gente à minha procura quando apareci no meio do Tejo com a égua”, conta. Foi no ano da “neve muito grande e do ciclone”. O mesmo Tejo servia de passagem a Fernando Casquinha, hoje com 76 anos, a residir no Bom Retiro, em Vila Franca de Xira. Aos 15 já ajudava o pai, lavrador. A família, que residia em Alhandra, tinha plantações na Lezíria Grande do Tejo, nas imediações da ermida. Por alturas de Maio a romaria era motivo para se enfeitarem as carretas e receber os amigos para almoçar. A bênção dos animais, que passavam sobre uma plataforma para receber as graças, durava quase um dia. “Eram benzidas para cima de 100 cabeças de gado”, recorda Fernando Casquinha que acaba de apear-se de uma charrete de regresso ao recinto festa do campo e da lezíria, para um almoço campestre. Do Cabo da Lezíria até à ermida de Alcamé, onde decorreu a cerimónia religiosa, percorrem-se oito quilómetros de terra batida. Percurso para se demorar quase uma hora quando se caminha em caravana ao ritmo compassado das charretes. À hora da benção concentram-se cavaleiros, amazonas e campinos frente à ermida. A lembrar os tempos em que os lavradores da lezíria ali romavam para pedir mais um ano de colheitas férteis. Povo, fazendeiros e campinos vestiam-se a rigor para acompanhar a imagem por rio e terra até ao local de culto. A ermida foi mandada construir no século XVIII pelo 1º Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida. “Servia as pessoas do campo que não se podiam deslocar a Vila Franca de Xira, a Povos ou à Castanheira para celebrar todos os domingos o dom da eucarista”, explica David Silva, 31 anos, responsável pelo arquivo histórico da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira.É um painel, feito a partir de uma foto tirada por Ana Serra em 1998 a pedido da Companhia das Lezírias, que ocupa o lugar do retábulo. “Um dia, quase que tive um pressentimento, e vim cá tirar uma fotografia”, conta Ana Serra, a dois visitantes em mais uma manhã de festa. A romaria resistiu até 1973 com várias interrupções pelo meio. Em 2000 a tradição foi recuperada. Reza a lenda que um campino terá sido salvo da mordedura de uma serpente ao invocar a Virgem Imaculada que fechou a boca envenenada da serpente com uma maçã. “De alguma forma representam os perigos que nos espreitam a cada dia”, conclui.
Romaria à ermida da padroeira dos campinos na Lezíria Grande do Tejo

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