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“Santarém era uma cidade parada”

Há quatro anos abraçou um novo desafio: entrar no mundo da política autárquica pela mão do PSD. Ganhou a aposta e tornou-se presidente da Assembleia Municipal de Santarém. Cidadão independente, o médico António Pinto Correia revê-se na política do actual executivo de Moita Flores mas reconhece que nem tudo foi bem feito. Diz que Santarém recuperou amor-próprio, que o CNEMA é inviável nos actuais moldes e que o Médio Tejo tem saído beneficiado no contexto regional por ter tido políticos com voz activa em Lisboa.

Edição de 13.05.2009 | Entrevista
Ainda não se arrependeu de se ter metido no mundo da política?As pessoas não se podem arrepender destas decisões que são pensadas. Porque demorou tanto a chegar à política?Entrei por uma questão cívica, não para ser um político profissional. Achei que ao fim de 30 anos nesta cidade era altura de dar um contributo cívico, até porque achava que as coisas não estavam bem. Dizer mal não chega, é preciso também fazer alguma coisa.Porquê o PSD?Fui seduzido, entre aspas, por um projecto com Francisco Moita Flores e entrei…Entrou pelo partido ou pela figura?Entrei pelas duas coisas. Era amigo de algumas pessoas do partido, embora não seja filiado. Entrei pelo partido, entrei pela pessoa e estou de corpo inteiro, ainda...É uma ligação para continuar?É uma pergunta a que neste momento não sei responder. O projecto está a meio, tudo indicaria que será para continuar. Mas preciso de conversar com o partido e com o presidente Moita Flores. Temos conversado alguma coisa, mas falta a equipa. Porque se calhar as equipas não vão ser as mesmas e é preciso ver as pessoas. Nessa altura darei uma resposta em função do projecto. Tenho as minhas ideias sobre o próximo mandato e se achar que posso ser útil com certeza que vou. Se achar que não farei grande diferença estar lá, não irei. Até porque a minha profissão é ser médico.Está posta de parte a hipótese de suspender a medicina para se dedicar à política.É difícil quando se é médico por convicção. A medicina é uma actividade que não se compadece com paragens. Quando se pára em medicina morre-se profissionalmente. É uma actividade profissional que anda muito depressa. Temos de andar sempre atrás dela a actualizar-nos. Ficou com uma opinião mais lisonjeira dos políticos?Está na moda dizer mal dos políticos, mas há bons e maus. Devo dizer que encontrei na política local gente muito boa e às vezes até me espanto como é que há pessoas que conseguem dedicar tanto tempo a uma actividade em que o retorno não é muito. Falo sobretudo dos presidentes de junta.Nunca pensou filiar-se num partido?Não. Sinto-me muito confortável assim. Sou por convicção social-democrata, já votei PS, já votei PSD. É no centro que me sinto bem.Não gosta dos espartilhos partidários?Acho que os partidos são necessários, são importantes. Há pessoas que necessitam da militância e há pessoas que precisam de projectos. Eu sinto-me bem nos projectos. Lido bem com pessoas, mas não necessito do partido. Respeito profundamente o PSD e estou com ele. É o meu projecto. E se calhar o meu contributo como independente até é melhor.Chegou à política através do vereador Ramiro Matos. Teve pena que ele tenha suspendido o mandato na câmara ?Tive pena. Para mim, o Ramiro Matos fazia parte do projecto. É evidente que quando há algumas dificuldades de feitio e de relacionamento as coisas têm de ser resolvidas. E não vale a pena estar a alimentar situações que não podem continuar. O projecto continua e com certeza que o Ramiro Matos vai ainda dar muito a esta cidade pois é um jovem.Na assembleia municipal já foi criticado por ser excessivamente brando relativamente a algumas intervenções do presidente da câmara Francisco Moita Flores. É uma questão de feitio?Sou uma pessoa habituada a saber ouvir e a saber interromper. Claro que há pessoas mais difíceis de controlar. Se me perguntarem se concordo com algum tipo de linguagem usado na assembleia respondo que não. Mas o presidente da assembleia também nunca proibiu ninguém de fazer oposição. Nunca tirou a palavra a ninguém. Portanto, não concordando com algum tipo de expressões, ser brando neste caso quer dizer que aquela é uma casa onde as pessoas podem falar. As assembleias municipais deviam ter mais poderes?Acho que a assembleia tem pouco poder. Há uma proposta de reestruturação do poder autárquico, em que me revejo, em que se prevêem outros poderes para a assembleia.Essa mudança implicaria a criação de executivos monocolores nas câmaras.Exacto. Esta experiência autárquica pós-25 de Abril foi muito importante mas a organização dos executivos das câmaras, com várias forças partidárias e com alguns dos vereadores sem funções executivas, já demonstrou que chegou a altura de haver executivos de um só partido. E aí o controlo passaria a ser feito nas assembleias municipais, com outro tipo de organização, com outro tipo de orçamento… Porque aí entram também questões económicas e esse modelo sai mais caro.As moções e recomendações ao executivo camarário aprovadas nas assembleias raramente têm efeito prático. Os executivos desvalorizam as assembleias.A assembleia municipal toma algumas decisões no sentido de ser parte activa na resolução de alguns problemas mas depois tem pouco poder efectivo.Revê-se na política do actual executivo camarário?Revejo-me em muitas coisas. Era preciso dar um pontapé. Não direi que os pontapés foram todos certeiros. Isto também depende da experiência. Quando se começou este mandato foi com muita vontade e pouca experiência. Era preciso fazer alguma coisa. Esta cidade estava parada e havia que recuperar os seus pergaminhos. Aí as coisas funcionaram.Apesar de haver quem critique o excesso de festas…É cómodo criticar as festas. Não vou dizer se são muitas ou poucas. O que posso dizer é que havia uma necessidade urgente de devolver o amor-próprio às gentes da cidade. Nada se fazia aqui e as pessoas saíam. Os que tinham mais posses iam para fora. Os que tinham menos ficavam em casa porque não havia nada que lhes desse noção de pertença à cidade e ao concelho. As festas custam dinheiro, é evidente. Não vou dizer se faria as festas da mesma maneira, mas o que é facto é que funcionou. E há coisas que já não se dispensam, como a passagem de ano, o Carnaval, as festas da cidade…Que projecto é que gostava de ver concretizado neste mandato?Há coisas que se quis fazer e que não vão ser concretizadas. Como a reabilitação do centro histórico e da zona ribeirinha. Acho que este último vai ser importantíssimo para a cidade, vai dar-lhe visibilidade, vai chamar pessoas para a frente ribeirinha. Tudo isto é muito lento, leva tempo, mas com as empresas municipais estão criados instrumentos para se ir buscar alguns fundos.Quanto ao antigo campo da feira?É a última zona do planalto nobre e tem de ser uma intervenção muito bem pensada. Já houve muitos projectos e há a questão da praça de touros, que é muito complicada. O que for feito vai ser sempre criticado, mas seguramente tem de ser feita alguma coisa e desde que cheguei a esta cidade que já ouvi de tudo sobre esse espaço. Parece-me que há coisas que esta cidade tem de ter nessa zona, como um pavilhão multiusos ou uma sala de espectáculos grande.Um homem do desporto e do ar livreAntónio Pinto Correia nasceu em Luanda, Angola, onde viveu até à descolonização. O último ano do curso de Medicina fê-lo já em Lisboa no período quente pós-25 de Abril. Rumou a Santarém em 1977 para trabalhar no hospital local, porque não gostava da vida da capital e porque recebeu um incentivo monetário suplementar do Estado. Foi aprendendo a gostar da cidade, mas de início foi um choque para quem estava habituado aos grandes espaços e a pessoas mais abertas e alegres. “Sou um angolano de cultura portuguesa, embora a minha família seja transmontana. Vim parar aqui porque não gostava de Lisboa. Tão simples como isso”, sintetiza o clínico, que há quatro anos se meteu pela primeira vez na política sendo o cabeça de lista do PSD à Assembleia Municipal de Santarém. Foi eleito presidente desse órgão, melhorou a sua opinião sobre a política e os políticos, mas trocar a medicina pela política é cenário que não coloca. Hoje considera-se um “escalabitano convicto” embora tenha trocado o apartamento na cidade pela vivenda na pacata aldeia da Moçarria, a meia dúzia de quilómetros.Casado com uma médica, pai de duas filhas já formadas, uma delas também em medicina, Pinto Correia tem no desporto de ar livre o seu escape. Foi dos primeiros a praticar BTT na cidade. Pratica canyoning, vela, ski alpino. Nada de estranhar para um homem que se habituou desde novo a competir. Foi nadador federado em Angola, onde também foi treinador dessa modalidade para ajudar a pagar o curso.“O CNEMA tal como existe é completamente inviável”A cidade perdeu com a ida da Feira Nacional de Agricultura/Feira do Ribatejo para o Centro Nacional de Exposições (CNEMA)?No meu conceito de escalabitano de adopção, sim. Muito. Não sei se foi por ter ido lá para baixo, não sei se foi pela mudança dos tempos, agora que houve um corte abrupto da cidade com a sua feira houve. E esse corte sentiu-se muito. A feira representava para Santarém a festa onde toda a gente estava todos os dias. Isso perdeu-se. Hoje, mesmo as pessoas de fora que vêm à feira não vêm à cidade, não lhe dão vida. Acha que o CNEMA tem sido potenciado convenientemente, designadamente na articulação com a cidade?O CNEMA é um tema muito delicado. É o Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas. Ou seja, a visão era ser um grande centro nacional de exposições. Que por erros de gestão, de organização, de filosofia, não sei, nunca o foi. E passou a ser de facto um monstro, entre aspas, que nunca foi aproveitado. Não sei se tem a ver com pessoas, com políticas, mas de facto não foi. E acho que tal como existe é completamente inviável. É uma morte anunciada a curto ou médio prazo. Não vejo que aquilo possa ser auto-sustentado com as exposições que faz. As comemorações nacionais do 10 de Junho em Santarém são uma oportunidade única para a projecção da cidade?É um evento que, de facto, devemos ao actual presidente da câmara pela sua visibilidade, pela sua capacidade de lóbi, pela sua capacidade de movimentação e mobilização. Dificilmente o 10 de Junho seria em Santarém se não fosse isso. E será o 10 de Junho das nossas vidas, porque por muito que a cidade cresça e se embeleze não vai ter outro provavelmente tão cedo. Vem dar à velha senhora que é a Scalabis uma semana de exposição a todo o país.E é reconfortante também para a auto-estima dos escalabitanos…Voltamos à mesma questão. Não é por acaso que as coisas acontecem. Porque é que a cidade não cresceu, não se desenvolveu, porque não se reestruturou como merecia? Porque se calhar não tivemos políticos com capacidade de lóbi. E isto passa pelos partidos todos.Santarém não tinha voz em Lisboa...Olhando para trás, a nível da política central, veja-se o Médio Tejo. Como é que o Médio Tejo se separou? Porque teve políticos em Tomar, Abrantes, Torres Novas com capacidade de lóbi central. Basta ver o caso dos hospitais. Como é que se fazem três hospitais naquela zona? Por erros políticos, erros de decisão... Continua-se a pagar cara essa decisão?Sim. E a cidade de Santarém e o seu hospital pagaram também a sua fatia pelo crescimento dos outros sem capacidade. É uma constatação como médico, não tem nada a ver com política. O dr. Correia de Lima conseguiu trazer para aqui um hospital novo muito à frente dos outros hospitais do país, que cresceu, que faz formação própria, faz formação em muitas especialidades, e agora estamos a assistir à sua morte lenta, passe a expressão, porque não conseguimos captar profissionais novos.A falta de médicos é um drama nacional, sobretudo fora dos grandes centros.É um drama, mas ao mesmo tempo em que este hospital está velho e cheio de remendos, gastaram-se recursos tremendos em dois hospitais novos. Este hospital tinha um projecto para uma consulta externa nova, de raiz, que não foi feita. Como vê essa situação de os seus colegas de profissão não quererem trabalhar na província?Os meus colegas querem trabalhar na província. O problema não é esse.Então qual é?Ninguém faz contas neste país e durante anos houve pouca formação. A minha geração e a que entrou antes estão agora a reformar-se. E os que há e são formados aqui são depois atraídos pelos hospitais centrais porque há vagas lá. Vamos ter cinco ou seis anos de dificuldade.Mas também há alguma relutância dos médicos em trabalhar na província.Porque são mais mal pagos. Há aqui uma questão económica também. O grosso do vencimento de um médico resulta do trabalho extraordinário. Há especialidades que não fazem trabalho extraordinário, que não têm urgências 24 horas. Estamos a falar de vencimentos que são compensados com a actividade privada. Em Lisboa os grandes hospitais privados absorvem cada vez mais médicos. Para se trazer para aqui bons profissionais, têm que ser bem tratados.Em que sentido?Dar-lhes sobretudo boas condições de trabalho. E perspectivas de uma carreira. Concorda com os incentivos dados por algumas autarquias para a fixação de médicos?Estou nesta cidade porque tive um incentivo. Não foi da autarquia mas foi do Governo, que pagava um subsídio de fixação. Na altura eram três mil escudos. E a Câmara de Santarém da altura também disponibilizou algumas casas. Foi uma maneira de nos fixar cá.Como médico como é que viu a iniciativa da Câmara de Santarém de enviar alguns cidadãos a Cuba para receber tratamento oftalmológico?Na altura exprimi o meu pouco entusiasmo com esse processo. Disse ao presidente da câmara que essa oferta devia ser feita em concordância com o hospital.Porquê?Porque há uma lista de espera no hospital e havia casos mais complicados. E poder-se-ia talvez resolver esses casos. Essa foi a minha discordância. A mais valia foi que levar-se pessoas a Cuba fez despertar no Governo central a necessidade de resolver um problema que toda a gente sabia que existia e que ninguém resolvia. Foi criar métodos rápidos de fazer produção cirúrgica da catarata. Mais uma vez funcionou a política de reacção.Infelizmente temos muito na saúde a política da reacção. Reagimos aos factos e não prevenimos os factos. Esta ida a Cuba de meia dúzia de pessoas desencadeou também neste hospital, e isto não tem a ver com o hospital em si mas com aquilo que vem de Lisboa, programas de produção cirúrgica acrescida da catarata. Mas não concordo de forma alguma que as câmaras assumam por si só a resolução dos problemas de saúde. Porque senão qualquer dia têm de assumir tudo. A criação de um hospital a sul do distrito fez parte do discurso político pelo menos durante a última década. Qual é a sua opinião sobre isso?Um dos três hospitais construídos a norte devia ter sido construído a sul. Mas penso que quando construírem o novo hospital de Vila Franca de Xira as coisas ficam mais equilibradas.

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