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Artesão trabalha a madeira há mais de três décadas, mas não vende

Fernando Farinha já ofereceu alguns trabalhos embora a muito custo

Mora em Alverca do Ribatejo, mas é natural da Pampilhosa da Serra. O artesão Fernando Farinha começou a esculpir madeira em 1973. Ao longo de mais de três décadas tem-se dedicado a dar forma ao castanho e pinho e já perdeu a conta a quantas peças criou.

Edição de 21.05.2009 | Cultura e Lazer
“A madeira é que me diz o que vou fazer”. É com simplicidade que Fernando Farinha, 69 anos, revela que a inspiração surge de forma natural, assim que se depara com um tronco ou com um mero pedaço de madeira.Natural da Pampilhosa da Serra e a residir em Alverca do Ribatejo há trinta anos, o artesão começou a criar as primeiras peças em 1973, na Alemanha, quando era emigrante a trabalhar na metalomecânica. “Fui fazer recuperação numas termas na Alemanha e na clínica existiam várias oficinas de trabalhos manuais. Todos os doentes podiam fazer e depois levar para casa”, conta Fernando Farinha, que durante a estada criou três objectos. A partir daí nunca mais parou.De regresso a Portugal trabalhou numa sapataria em Alverca. À medida que ia fazendo novos trabalhos levava alguns para expor no estabelecimento comercial. Incentivado pelos clientes, que achavam as suas peças interessantes, foi-se dedicando cada vez mais à criação de peças em madeira.“Não sei dizer quantos objectos já fiz. No Norte tenho duas garagens completamente cheias”, revela o artesão que na casa em Alverca tem mais uma garagem repleta de trabalhos feitos ao longo de mais de três décadas. Fernando Farinha garante que nunca vendeu nem fez qualquer exposição e justifica. “O objectivo não é ganhar dinheiro nem nome”, garante enquanto apanha do chão uma peça porque o espaço é pouco para tanto material.Apega-se com facilidade a tudo o que faz e revela que, o que lhe dá mais prazer, é simplesmente ficar com todas as peças que faz e aumentar o acervo artístico. “ Já dei algumas aos meus filhos mas fico com pena. Tenho vontade de pegar nelas e trazê-las de volta cá para casa. São coisas que passaram pelas nossas mãos, que nos deram trabalho e a gente gosta de olhar para elas e de as ter”, confessa.Nem sempre é fácil arranjar materia-prima à altura. “Trago uns bocadinhos de castanho e pinho quando venho da Pampilhosa. Ou então vou às carpintarias e trago três ou quatro pedaços de madeira para casa”, revela o artesão.Depois começa o verdadeiro desafio. “Não faço nada que seja estudado ou previamente pensado. Simplesmente quando chego a casa é que vou estudar o que fazer da madeira em bruto”.De uma forma humilde afirma que o que faz não tem nada de especial e que há pessoas que fazem coisas muito melhores. Basta mais tempo e dedicação. O reformado divide o tempo entre Alverca e Pampilhosa da Serra e vai construindo as peças ao sabor do dia-a-dia sem grandes preocupações. Não tem dúvidas de que se se dedicasse todos os dias a criar já não teria sítio para colocar mais nada. Fernando Farinha assume-se como um curioso e rejeita o título de artista. Já foi convidado a expor os seus trabalhos, mas nunca aceitou. Agora pensa de maneira diferente. “Se alguém entendesse que valia a pena expor parte do material seria uma hipótese a considerar. Mas sem o intuito de receber nada em troca”, garante o artesão, que em breve poderá ter parte do seu imenso espólio, exposto na Casa da Sertã, em Lisboa.Deslumbrado pelas antiguidades“A minha paixão maior são as antiguidades”. Quem o diz é o artesão Fernando Farinha. Quando se entra em sua casa percebe-se porquê. Guarda religiosamente dezenas de objectos com décadas e em óptimo estado de conservação. Desde material agrícola, passando por utensílios até peças de indumentária usada em outros épocas. O artesão colecciona ainda isqueiros, selos, moedas, tem postais de animais com mais de 40 anos e documentos antigos, como escrituras ou letras, usadas há dezenas de anos, que serviam de garantias bancárias. Mas é, na colecção de pedras antigas, que Fernando Farinha trata com muito cuidado, que tem mais orgulho. Um artesão com a paixão da escritaAs coisas antigas são uma paixão para Fernando Farinha, mas a escrita é o grande amor da sua vida. O artesão, militar durante quatro anos e meio, foi escriturário no conselho administrativo. “Passei a gostar da escrita e admiro muito a maneira de escrever”, confessa rendido aos encantos das letras. Escreve sobretudo sobre a família e já se aventura na poesia. Já escreveu algumas crónicas para jornais e tem o vício de copiar, com a sua letra, tudo aquilo que lhe dá prazer ler. Mas nunca pensou em escrever um livro. “Não tenho essas condições. Não sou uma pessoa letrada. Tenho só a quarta classe, mas escrevo melhor do que falo”, garante o artesão Fernando Farinha.

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