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Manuel José Moedas é um símbolo vivo da dignidade e do amor à terra

Manuel José Moedas é um símbolo vivo da dignidade e do amor à terra

Quando os toiros da corrida da Ascensão entravam na quarta-feira de madrugada

Filho e neto de agricultores Manuel José Moedas simboliza uma Chamusca orgulhosa, digna, solidária e trabalhadora. Tem 70 anos e toda a vida trabalhou na agricultura. Como feitor, a maior parte do tempo. Continua a trabalhar e é um exemplo de verticalidade e honradez. Uma voz que transporta em si as múltiplas vozes da história de uma vila ribatejana.

Edição de 21.05.2009 | Especial Ascensão
“Um dia com a minha avó/ Que no colo me aconchegou/Fui ver uma entrada/ Foi ela que me disse então/Estes toiros que aqui vão/São amanhã para a tourada.”. Manuel José Prestes Moedas levanta os olhos do papel onde escreveu o poema e retira da parede da sala onde nos encontramos, uma fotografia a preto e branco de uma entrada de toiros da Semana da Ascensão.“Eu tinha cinco ou seis anos e ia com a minha avó e com a minha mãe ver as entradas. Lembro-me de estar à janela na casa do meu tio Afonso. Dali avistava-se tudo até ao areal. Quando víamos vir o Joaquim Conde a pedalar a sua pasteleira e a buzinar sem parar já sabíamos que vinham lá os toiros. Nessa altura acreditávamos que vinham”.Manuel José Moedas tem 70 anos. Toda a vida trabalhou na agricultura. O seu avô Simão era cingeleiro – trabalhava com as suas juntas de bois para donos de terras - o seu pai, cujo nome também era Manuel José Moedas, também trabalhou a terra toda a vida. A sua e a de outros. Começou aos 12 anos. Ele seguiu a tradição da família logo que abandonou a escola primária. Não são só os filhos de médicos que vão para médicos, ou os filhos de advogados que cursam advocacia. Já perdeu a conta às entradas de toiros a que assistiu e àquelas em que participou. “Antigamente os toiros vinham para a praça directamente do campo, conduzidos por campinos. Eram touros puros. Não eram transportados de camioneta, estavam habituados com os cabrestos e os cavalos. Vinham no engano por aí acima. Agora fazem só aquele pequeno percurso entre o Areal e a praça para lembrar outros tempos. Estes toiros agora são mais batidos, não querem saber dos cabrestos. Quanto mais depressa os levarem para a praça melhor, para estarem despachados”.Quando Manuel José Moedas era adolescente os toiros entravam pelo lado norte da vila. “Vinham conduzidos pelos campinos, ali das Trevas ou daqueles lados do Luzirão. Atravessavam a charneca toda, vinham passar aqui ao Casal da Pereira, direitos ao senhor do Bonfim. Depois iam por ali abaixo até à praça de toiros. Eu, o Carlos Lipampa e outros fazíamos fogueiras com cascas dos eucaliptos para nos aquecermos. Víamo-los chegar ao clarear, por volta das seis da manhã. Não nos aproximávamos porque ainda podíamos levar com a vara de algum campino. Se um animal fugisse eles tinham que andar todo o dia atrás dele. Houve uma vez um que tresmalhou e atravessou o Tejo”. Mostra na fotografia antiga o posicionamento correcto dos campinos no desempenho do seu trabalho. “Um da esquerda, dois ou três ao meio e um da direita. E os toiros vêm lá entalados no meio dos cabrestos”. A rua Direita de S. Pedro era empedrada. Os homens não vinham com traje de domingo mas com traje de trabalho. Calças de cotim, sapatos, faixa e barrete pretos. “Esta foto foi tirada mais tarde, já os toiros entravam por onde entram agora. Mas a entrada era na quarta-feira, na véspera da corrida da Ascensão”, conta. No espaço de tertúlia, adjacente à casa há uma zona com selas, esporas, estribos, arreios, freios…dezenas de freios de cavalo. O anfitrião vai dando algumas explicações. “Esta é uma meia sela. Este é um selim à Relvas, é raro. Esta também é uma sela muito antiga. Este é um selim à inglesa mas é para saltos e nós cá não damos saltos”. Mostra um aparelho de dar clisteres aos animais. Ali ao lado está o ferro que o avô usava para marcar os animais. “Agora metem um chip. Mas ainda há quem marque os animais”, diz.Manuel José Moedas está preparado para assistir a mais uma entrada de toiros, quinta-feira de Ascensão da parte da manhã. Vai com o filho e os netos, cada um em seu cavalo, jaqueta e camisa à portuguesa, chapéu de aba direita, colete. “Vamos lá ver se tudo corre bem porque a vida às vezes prega-nos partidas”, confidencia. O ano passado o filho aleijou-se num dedo, na altura em que estavam a preparar os cavalos. Agora é a doença da esposa que o impede de ter certezas. Maria Lisete não está presente. Manuel José Moedas conta, à sua maneira, a sua história de amor. “Na ponte da Chamusca havia uma barraca de tábuas e faziam lá um arraial na Ascensão. O pessoal ia nas bicicletas. Naquele tempo não havia carros e alguns nem bicicletas tinham. Iam a pé. As cachopas iam a pé. Só lá fui uma vez e foi por namorar com ela. O que as mulheres fazem. Por causa de ir ao arraial não fui à corrida de toiros que era uma coisa de que eu tanto gostava. Mas não foi sacrifício.”.E o peru da casa Moedas foi para o General Vassalo e SilvaManuel José Moedas não foi à tropa mas comandou tropas no Tramagal quando era feitor na Casa do Engº Bairrão. “Havia uns militares caboverdianos a fazer instrução militar em Santa Margarida. Alguns oficiais que eram amigos do meu patrão pediram-lhe para lhes arranjar lá alguma coisa para fazer no campo porque quando eles estavam desocupados no quartel faziam muitos desacatos. “Eu punha-os a roçar mato naquelas barreiras. Eles iam acompanhados por um cabo e um sargento. Nunca mais criaram problemas”. A história de não ir à tropa meteu dois “padrinhos” pelo meio. “Um era o professor Tomás. Outro era filho da senhora da Taberna da Rita, ali do Pinheiro Grande. Ele trabalhava na estação dos comboios em Tancos e conhecia muitos oficiais, entre os quais o general Vassalo e Silva que fora governador da Índia portuguesa. Lá lhe falou no meu caso e fiquei livre”, conta.Como agradecimento a mãe de Manuel José Moedas, Maria da Luz Prestes Moedas, mandou ao general um dos perus que tinha andado a engordar para matar no Natal. “Foi o peru para o homem que nos disseram que tinha mexido os cordelinhos. Quanto ao professor Tomás fizemos aqui um jantar e convidamo-lo. A ele e à família”.“Em toda a minha vida nunca pensei fazer mal a ninguém”Um cavalo espreita para o pátio pela janela da primeira baia quando nos aproximamos. Manuel José Moedas faz as apresentações. “Este é o Salamim. Pus-lhe este nome por ser um cavalo pequeno e eu ter conhecido um homem aqui da Chamusca que era pequenito e a quem chamávamos Salamim”. Do outro lado há um picadeiro. Há mais cavalos para apresentar. “Este aqui é o Nicorrilha. É o meu cavalo. É velhote como eu. As pernas dele estão como as minhas”. O cavalo branco abana a cabeça. Solta-se outra história.“Havia um homem que ia com outro, que era caiador, para as brincadeiras na praça de toiros. Vestiam-se de branco, metiam-se dentro de uma barrica que as vacas iam empurrando. Era o Nicorrilha”. A Cigana é a égua da neta, o Bonfim é o do neto. Abre um sorriso e pergunta: ‘Sabem como se chama este que é do meu filho? Mirante!”Alguns cavalos foram comprados a ciganos. Manuel José Moedas diz que nunca teve problemas em lidar com ciganos mas que ficou desconfiado quando foi trabalhar para a casa do Engº Bairrão, no Tramagal, e viu tantas pessoas daquela etnia. “Fui para lá trabalhar como feitor. Fiquei admirado. Eram bandos de ciganos como eu nunca tinha visto. Passavam com os burros carregados de erva. Só se viam as cabeças dos animais e eles a cavalo lá em cima. Até pensei desistir. A metalúrgica Duarte Ferreira ficava com a mão-de-obra toda. Os mais novos andavam na guerra em África. Só ficavam os coxos e alguns mais ‘maluquitos’ que púnhamos a guardar o gado. Aquilo era mais uma casa de beneficência que uma casa agrícola”.Ri-se com gosto e alonga a descrição. “O meu patrão era boa pessoa. Iam lá pedir trabalho e ele dava. Não foi difícil eu adaptar-me à agricultura porque lá estava mais atrasados que nós aqui na Chamusca. Era um tractor a cair de podre, uns bois coxos, umas mulas marrecas e trabalhadores com mais de oitenta anos de idade, como o maioral dos bois. Em toda a minha vida nunca pensei fazer mal a ninguém e sempre pensei ajudar os mais desfavorecidos, respeitando quem me pagava, pois claro. Ajudei sempre os mais desprotegidos”.Manuel José Moedas trabalhou 20 anos no Tramagal. Antes tinha trabalhado com o pai e, durante dois anos, numa casa agrícola da Chamusca, da família Seixas Pires. “Foi o meu tempo de tropa conta. Depois de regressar à Chamusca foi trabalhar para a Casa Rafael Duque. O Dr. João Duque convidou-me e eu aceitei. Também já lá estou há quase vinte anos. “Tenho o meu trabalho e aos sábados tenho aqui muita coisa para fazer”. Uma vida inteira dedicada à agricultura.“Comecei a trabalhar com 11 anos. Nem tinha força para me agarrar ao rabo do arado. Fiz a 4ª classe e ainda andei num curso de agricultura uns dois anos com o professor Tomás. Depois, foi a escola da vida”.
Manuel José Moedas é um símbolo vivo da dignidade e do amor à terra

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