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Pagar favores com ovos

Edição de 20.05.2009 | Opinião
A Primavera é a minha estação preferida. Gosto de ver os dias a crescerem e de observar como a vida no campo se prepara para nos dar lições de humildade. É nesta altura do ano que tudo começa a fazer sentido debaixo dos nossos pés. E por cima da nossa cabeça o sol anuncia muitos destinos de férias que já foram em direcção à Nazaré, numa Zundap com quarto marcado na pensão Parreirinha, mas também já foram em direcção a Chilan, a mais de seiscentos quilómetros de Santiago do Chile, onde dormi algumas noites na casa de um escritor (Gonzalo Rojas (n. 1917) que me deu a ver quase todas as primeiras edições dos meus poetas de culto. Sempre que os dias começam a ficar maiores, e a maracha do Tejo é um lugar onde nos podemos esconder do mundo, lembro-me dos tempos das searas e das minhas visitas, nas férias da escola, aos campos da Azambuja onde o meu pai foi seareiro durante alguns anos. Foi lá, entre tomateiros, que descobri o lugar distante onde uma das galinhas andava a pôr o ovo. Com a descoberta tive direito a um prémio que me tinha sido prometido: uma gemada feita com cinco ovos. Eram um terço dos ovos que descobri. Foi até hoje o prémio mais valioso que recebi em toda a minha vida.As galinhas dos ovos de ouro nunca foram o meu forte. Mesmo em criança, quando ouvia as histórias que o meu avô paterno me contava sentado à lareira, eu embarcava nas fantasias mas lembro-me bem que tinha sempre algumas perguntas para fazer. Mas foram os ovos das galinhas que mais marcaram a minha alma de criança e que me deram a perceber o valor do açúcar numa boca muito debiqueira.A minha avó pagava com cestos de ovos (não eram cestos eram sacos de plástico e muitas vezes até podiam ser folhas de couve que são um excelente suporte para embrulhar), os favores que recebia do funcionário do centro de saúde, do enfermeiro, do médico, do farmacêutico e sei eu lá mais de quem, pois a minha avó era pobre mas gostava de dar do pouco que tinha. Não vou perder tempo a explicar que os favores que a minha avó pagava são aquilo que nós hoje exigimos em voz alta e que muitas vezes até conseguimos obter de boca calada pedindo o livro de reclamações.No tempo em que não havia subsídio de desemprego, nem formas de ganhar dinheiro que não fosse a trabalhar no campo ou a ripar camisas, a minha avó criou os seus filhos e ainda deu uma mão a criar os netos. E do seu galinheiro ainda sobravam ovos e frangos para dar a quem era generoso com ela ou com os da sua família.A Primavera é a estação da generosidade. E eu não me esqueço que ainda sou do tempo em que os nossos avós enfiavam o dedo no cu das galinhas para saberem se elas tinham ovo. JAE

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