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Portugal tem “dívida por saldar” com Maria de Lourdes Pintasilgo

Política natural de Abrantes foi um exemplo na combinação entre ideais e rigor

Sociólogo José Manuel Pureza diz que o “Portugal rasteirinho nunca lhe perdoou a teimosia de ser heterodoxa e coerente e a atirou para o desterro interior de que nunca saiu”.

Edição de 20.05.2009 | Sociedade
O sociólogo José Manuel Pureza considera que o país “tem uma dívida por saldar” com a antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo, que chefiou o V Governo Constitucional, entre Julho de 1979 e Janeiro de 1980. Intervindo na apresentação do livro “Maria de Lourdes Pintasilgo – Os anos da Juventude Universitária Católica Feminina (1952-1956)”, lançado na passada semana pela professora Ana Filomena Amaral, o investigador e professor da Universidade de Coimbra (UC) considerou que “aquela mulher foi uma intérprete maior da persistência e do querer, na combinação entre ideais e rigor”.“Foi um vulto maior da geração de católicos que teve a coragem de ir rompendo um dos pilares mais fundos do regime de Salazar, a Igreja, cuja missão estava ligada à defesa do regime, e abrindo janelas de diálogo ferreamente fechadas”, salientou. Considerando que Maria de Lourdes Pintasilgo “antecipou transformações no lado da Igreja e da Universidade”, José Manuel Pureza disse que o “Portugal rasteirinho nunca lhe perdoou a teimosia de ser heterodoxa e coerente e a atirou para o desterro interior de que nunca saiu”.“Portugal não soube ou não quis, através das suas elites culturais, políticas e universitárias, valorizar o brilho de Maria de Lourdes Pintasilgo, uma das figuras mais refrescantes do país do último meio século”, frisou. “Portugal tem uma dívida por saldar com esta mulher”, sublinhou o sociólogo.O livro, da autoria da professora Ana Filomena Amaral, da Lousã, aborda os anos de 1952 a 1956, período em que Maria de Lourdes Pintasilgo presidiu à Juventude Universitária Católica Feminina e organizou o primeiro congresso daquela instituição, que reuniu duas mil pessoas e contou com o apoio do Vaticano e da hierarquia eclesiástica portuguesa.A sua publicação resulta de uma tese elaborada no âmbito do Mestrado em História Económica e Social Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que obteve em Junho de 2008 a classificação de "muito bom por unanimidade", elaborada a partir do arquivo pessoal de Maria de Lourdes Pintasilgo, com recurso a documentação privada e manuscrita disponibilizada pela Fundação Cuidar o Futuro.Editado pela livraria Almedina, o livro incide particularmente na organização e concretização do I Congresso Nacional da Juventude Universitária Católica, em Abril de 1953, quando a antiga primeira-ministra, então com 23 anos, assumiu a sua presidência, em conjunto com Adérito Sedas Nunes.A sua leitura permite “perceber a importância do congresso para a discussão da situação no ensino superior em Portugal e ainda as suas consequências na vida de Maria de Lourdes Pintasilgo, que, logo no ano de 1956, assume a presidência do movimento Pax Romana (Movimento Internacional dos Estudantes Católicos), lançando assim a sua carreira internacional".Maria de Lourdes Pintasilgo foi a única mulher que desempenhou o cargo de primeiro-ministro em Portugal, entre Julho 1979 e Janeiro 1980, tendo chefiado o V Governo Constitucional por convite do então Presidente da República, general Ramalho Eanes. Foi ainda embaixadora na UNESCO e deputada do Partido Socialista ao Parlamento Europeu, em 1987, tendo falecido a 10 de Julho de 2004, com 74 anos.Casa-memória em Abrantes com processo paradoA Câmara de Abrantes manifestou há cerca de dois anos a intenção de adquirir a casa onde Lourdes Pintasilgo nasceu, na rua hoje rebaptizada com o seu nome. A intenção era reabilitá-la e transformá-la em museu evocativo dessa personalidade, tal como O MIRANTE noticiou na edição de 25 de Janeiro de 2008. Mas desde então o processo não conheceu grandes avanços. A vereadora da Cultura, Isilda Jana (PS), diz que “as negociações estão paradas”, já que o proprietário do imóvel pediu um preço considerado “muito alto” pela autarquia. Além disso, a câmara terá ainda de resolver o realojamento de uma pessoa que ali vive em regime de arrendamento.Foi a 18 de Janeiro de 1930 que nasceu em Abrantes, na antiga rua do Brasil e dos Oleiros, Maria de Lourdes Pintasilgo, mulher que viria a ser a primeira secretária de Estado, a primeira a assumir uma pasta ministerial, única primeira-ministra, primeira embaixadora e primeira mulher a candidatar-se à Presidência da República em Portugal.Lourdes Pintasilgo viveu em Abrantes até aos 12 anos e o seu percurso começou a diferenciar-se quando se formou em Engenharia, durante os anos 50 do século XX. Ligada aos movimentos internacionais de estudantis católicos, entrou na vida política antes da revolução de 1974.

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