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Bombeiros de Vila Franca ameaçam deixar de transportar doentes ao hospital

Bombeiros de Vila Franca ameaçam deixar de transportar doentes ao hospital

Presidente da direcção diz que os tempos das “lojas dos trezentos” já acabaram

Fazer transporte de doentes ao Hospital a euro e meio o serviço é incomportável para os Bombeiros de Vila Franca de Xira. A sessão comemorativa dos 127 anos foi também motivo para desabafos: “O tempo das lojas dos trezentos já acabou”, disse o presidente da direcção da associação, Carlos Fernandes.

Edição de 21.05.2009 | Sociedade
Os Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira ameaçam deixar de fazer o transporte de doentes ao Hospital por receberem apenas um euro e meio por serviço. Em causa estão os serviços que se realizam dentro da cidade. Segundo a direcção o primeiro serviço, até 15 quilómetros, é pago 7,5 euros. Pelo transporte dos restantes doentes a associação recebe 20 por cento, ou seja, euro e meio. “Já não estamos no tempo das lojas dos trezentos. Não há a possibilidade de irmos de Povos às Cachoeiras por euro e meio. Ou ir ao Bom Retiro a um terceiro andar buscar um doente que tem que ser transportado numa maca ou cadeira de rodas com dois profissionais”, disse revoltado Carlos Fernandes durante a sessão solene que assinalou os 127 anos dos soldados da paz, no sábado à tarde. O responsável considera que faz mais sentido este tipo de acordos quando os bombeiros percorrem longas distâncias. “É um bom negócio para as associações de Bragança ou do Porto. Transportar dois doentes e levar 20 por cento por cada um. Essa situação não pode aplicar-se dentro de Vila Franca de Xira”, alertou, pedindo algum cuidado às entidades que são ouvidas no âmbito das negociações. O responsável sublinha que a corporação tem características próprias já que se movimenta sobretudo na própria cidade.O comandante municipal operacional, António Carvalho, que é também presidente da federação dos bombeiros do distrito de lisboa, aproveitou para justificar que neste caso a responsabilidade não deve ser imputada à Liga dos Bombeiros, mas ao ministério da Saúde. “Quando se escreve que 'foi ouvida a liga' não quer dizer que a liga esteja de acordo”, esclareceu.Carlos Fernandes lembra que ao contrário do que se possa pensar a corporação não tem voluntários de segunda a sexta das 8h00 às 17h00. “Os voluntários têm a sua profissão e durante a semana estão a trabalhar. Os serviços são feitos com profissionais da casa. São vinte e temos que lhes pagar o vencimento”. Para assinalar mais um aniversário os bombeiros benzeram uma viatura a que atribuíram o nome da secção de desporto, cultura e recreio da associação. A ambulância custou 45 mil euros e foi integralmente paga pela associação que há seis anos não adquiria viaturas. O envelhecimento da frota estava já a representar muita despesa. “Mas não tenho dúvidas de que vamos este ano ter um saldo negativo”, revelou Carlos Fernandes a O MIRANTE, lembrando que apenas este mês vão conseguir fazer uma actualização mínima nos vencimentos dos profissionais da corporação, o que já deveria ter acontecido no início do ano. “Os vencimentos destes homens são baixos para aquilo que eles fazem”, admite.Carlos Fernandes compreende que há quem considere que ir de táxi sai mais barato. “Uma ambulância tem dois profissionais enquanto um táxi só tem um profissional. Nós também não somos para andar a fazer concorrência. Os nossos profissionais têm formação que não têm os homens dos táxis”, disse a O MIRANTE.Os cortes dos apoios sucedem-se e a associação ressente-se com diminuição do apoio da câmara e do Governo Civil. Nem o reforço do apoio ao material compensa os 15 mil euros que deixaram de receber do Governo Civil de Lisboa no âmbito do protocolo de cooperação, garante Carlos Fernandes. Apesar das dificuldades a associação centenária não descurou acções de solidariedade (ver caixa) e outras actividades de recolha de fundos para adquirir material para a corporação.Um quarto de século ao serviço da comunidadeTinha sido pai há poucos meses quando a sirene tocou no quartel dos Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira. Fernando Baptista partiu para o local do acidente. Ver uma criança vítima de um acidente de viação foi a pior experiência que teve. “Custou-me. Tinha uma filha pequena. Cheguei a casa e abracei-me a ela”, recorda a pedir desculpa pela comoção.O soldado da paz, com 42 anos de idade e mais de 25 ao serviço da corporação, foi o bombeiro mais antigo galardoado no sábado, dia em que os bombeiros comemoraram 127 anos. Um acidente de viação na Póvoa de Santa Iria, que aconteceu há mais de 23 anos, também o impressionou. “Mexeu comigo porque envolveu muitos mortos. Para um miúdo, como eu era na altura, foi chocante, mas ao mesmo tempo deu-me coragem para enfrentar todos estes anos. Quando saímos do quartel nunca sabemos o que vamos encontrar”, assegura.A aventura nos bombeiros começou aos 16 anos. Fernando Baptista juntou-se à fanfarra. Aos poucos foi ficando fascinado com a abnegação dos soldados da paz que combatiam incêndios e salvavam pessoas em acidentes. A ligação aos bombeiros será eterna – tem amigos para toda a vida na casa que o viu crescer – mas um problema de saúde impede-o de continuar em pleno no activo.Compreende que os jovens se afastem da actividade porque hoje em dia são muitas as atracções da vida cá fora, ao contrário do que acontecia quando se juntou à família dos bombeiros. “Tem que haver alguém a dar continuidade a uma casa destas. A população é cada vez mais e os bombeiros cada vez são menos. Também temos a nossa profissão e custa deixar a família para estar aqui um noite ou um sábado ou domingo sem ganhar nada”, reconhece. Tem duas filhas, de nove e 16 anos, Carina e Débora, mas para já será apenas a mais velha a seguir as pisadas do pai.Barco para combater cheias parado há um anoUm barco dos Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira - que ficou danificado em Loures durante as cheias de 2008 – está há um ano à espera de verbas para ir à oficina. A garantia é dada pelo comandante da corporação vilafranquense que não se conforma que os bombeiros não recebam resposta por parte da Autoridade Nacional da Protecção Civil. “Com a enxurrada o barco deixou de funcionar. Foi contra um poste de electricidade e um bombeiro ficou ferido e teve que ser operado. Outro sofreu algumas escoriações”, descreveu Pedro Lopes.A embarcação está vocacionada para trabalhar em situação de cheia na lezíria. “Temos outra embarcação, mas este barco era mais válido para rio. É mesmo para ser usado em caso de cheias e para tirar animais do campo”, ilustra o operacional.Soldados da Paz ajudam a combater a fomeCerca de uma tonelada e meia de alimentos foram entregues à Cáritas e aos Companheiros da Noite. Os géneros foram angariados no âmbito de uma campanha de solidariedade promovida pelos Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira.Os alimentos foram entregues no domingo, dia em que decorreu o espectáculo “Danças contra a Fome”, organizado a favor da população carenciada, que decorreu no Ateneu Artístico Vilafranquense. Em vez de pagar bilhete os visitantes entregaram géneros alimentícios não perecíveis. Antes do evento já o quartel dos bombeiros estava a servir de armazém a alguns donativos. A iniciativa dos soldados da paz surge no ano em que se comemora o 127º da associação. “Somos uma instituição humanitária que não fica insensível a estes problemas”, explica um dos elementos da direcção, José Russo, que sublinha que o conceito de sem abrigo “já se estende mesmo a pessoas que têm um tecto onde dormir”. Para 30 de Maio está marcado um jantar destinado aos mais desfavorecidos em colaboração com os Companheiros da Noite. No domingo, dia 31 de Maio, a partir das 10h00, a manhã será dedicada às crianças com demonstração de toureio e actividades desportivas. No final os mais novos vão desfilar pela cidade nos carros dos soldados da paz. As iniciativas organizadas contam com a parceria da junta de freguesia local.
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