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Os versos brejeiros do Quim Barreiros desnudam o povo que nós somos

“Eu adoro comer rabo/Seja cozido ou grelhado/Cada um come o que gosta”

Canções brejeiras de duplo sentido e muitos subentendidos. Uma sucessão de trocadilhos que remetem para um universo erótico-trolha. Num concerto de Quim Barreiros é sempre a bombar. Remédio santo para as dores do povo que é mesmo povo.

Edição de 27.05.2009 | Sociedade
Ao fim de cinco minutos já há meia dúzia de pares a dançar em frente ao palco. Ao fim de uma hora metade do público dança animadamente. Rostos alegres, transpirados, animados. São às dezenas. Quim Barreiros troca o acordeão pela concertina. Vai de uma canção brejeira e um Vira do Minho. Brinca, canta, dança. Com ele em palco mais três músicos. Chegam e sobram para as encomendas. “Há um estudo científico que prova que qualquer senhora que venha a um concerto do Quim Barreiros, perde pelo menos um quilo só de bater o pezinho”. O sorriso malandreco debaixo do bigode “à gajo do Porto”. Chapéu de aba na cabeça. O técnico dispara o som de ovelhas a balir. Há quem olhe em volta à procura de animais. “Não nos responsabilizamos pelas marradas das cabritinhas”, anuncia o cantor antes de atacar mais um dos seus êxitos. “Quando eu nasci a minha mãe não tinha leite/ Fui criado como um bezerro rejeitado/ Mamei em vacas em tudo que tinha peito/E cresci assim deste jeito/Fiquei mal habituado”. Levantam-se mais pares para dançar. Está tudo frenético no imenso pavilhão. Acabam-se as dores nas pernas; nas costas; nos joanetes. Adeus cansaço. Adeus padecimentos. Na hora do refrão tudo canta minha gente. “Eu gosto de mamar/Nos peitos da cabritinha/Eu gosto de mamar/nos peitos da cabritinha”.“Atenção. Atenção”, pede o artista. “Agora vamos para uma coisa mais calma. Vamos tocar a música mais romântica que eu já gravei. Quem quiser pedir namoro ou declarar-se é agora”. Aos primeiros acordes da música explode uma gargalhada e de repente está tudo outra vez aos saltos. Crianças, velhos, pessoas de todas as idades. Quim Barreiros conhece melhor que ninguém o que vai na cabeça do povo. As canções estão cheias de trocadilhos e alusões de carácter erótico-trolha. A multidão ululante exulta. “Quero cheirar teu bacalhau, Maria/ Quero cheirar teu bacalhau/ Mariazinha deixa-me ir à cozinha/ Deixa-me ir à cozinha/ P’ra cheirar teu bacalhau”. Há pares que dançam longe do palco. As crianças andam aos bandos a correr pelo pavilhão. Há quem tire fotografias com o telemóvel. Com pequenas máquinas digitais. Mães embalam bebés ao som de “A Padaria”, “Chupa Teresa”, “Eu sou o mestre de culinária”. Há mulheres completamente endiabradas. Endemoninhadas. Quase possessas. Alguns maridos olham para elas como se fosse a primeira vez que as vissem. A qualquer momento parece que tudo pode acontecer. “Tire a roupa tire a roupa que já está a anoitecer/ Tire a roupa tira a roupa do estendal que vai chover /Meu amor eu tiro as calças e tu tira as calcinhas /Vai tirando as tuas roupas que eu vou tirando as minhas”.Não há subtilezas poéticas nem grande apuramento musical. É tudo directo. Puro e duro como na pornografia. Os ritmos são conhecidos, fáceis. Vira o disco e toca o mesmo. Música para desbundar. Para desopilar. Tanto sai uma chula como uma marcha. Um bolero ou um Corridinho. “Agora vamos cantar em inglês de Inglaterra” anuncia o cantor. Ao primeiro acorde do Rock da Miquelina já estão todos de óculos escuros . Depois vem “A picada de enfermeiro”. Enquanto os pares recuperam o fôlego e os músicos bebem garrafinhas de água para evitar a desidratação soa o relincho de um cavalo nas colunas. Já passou mais de uma hora e não há quem desista. “E os animais lá da quinta/ Conta-me como é que vai/ A égua da tua mãe/ e o cavalo do teu pai / A égua da tua mãe e o cavalo do teu pai”.A letra mexe com o que se esconde em recantos esconsos do cérebro. Apela ao animal que há em todo nós. Os espectadores deixaram os pruridos à porta. Aspiram tudo de ouvidos atentos e “A égua da tua mãe/ Tinha um lindo trotar/ Tentei muitas vezes/Nunca a consegui montar/ Porque o cavalo do teu pai estava sempre a relinchar”.Há quem aceite o convite do cantor e se dirija ao local onde está o técnico de som para comprar o último CD de originais que tem como título “O Peixe”. “Cinco euros. Não paga a capa”, publicita Quim Barreiros. Antes de atacar a última da tarde e de pedir uma salva de palmas para o presidente da câmara que o contratou avisa que assim que acabar está disponível para dar autógrafos e posar para fotografias. Depois de um cantar ao desafio com a voz de cana rachada do baterista e de uma repetição da Cabritinha, Quim Barreiros, encharcado em suor, junta-se ao seu público em frente ao palco. Um verdadeiro artista sabe que o prometido é devido. Vinte minutos depois ainda lá está, sem sinais de impaciência ou cansaço. Nota: reportagem feita no concerto de 24 de Maio, que encerrou a semana do Idoso, no Pavilhão Municipal do Entroncamento.

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