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Há quem tenha o vício da pesca, da caça ou do tabaco e há quem esteja apanhado pelo “tuning”

Há quem tenha o vício da pesca, da caça ou do tabaco e há quem esteja apanhado pelo “tuning”

Jovens de Azambuja alteram automóveis para tentarem criar exemplares únicos

Na Azambuja há uma vasta comunidade de adeptos de tuning mas são poucos os que se atrevem a mostrar o resultado da sua paixão. Falta de legislação e receio de serem multados impedem que os carros saiam das garagens.

Edição de 28.05.2009 | Sociedade
A paixão pelos automóveis pode assumir várias formas. O tuning é uma delas. Quatro jovens da Azambuja dão asas à imaginação com o objectivo de transformarem os seus carros em exemplares únicos. Marcos, Pedro, Nelson e Carlos procuram através das alterações que vão fazendo nos seus veículos, quer a nível estético quer a nível mecânico, atingir o ponto mais próximo daquilo que idealizam para as suas “máquinas” de quatro rodas. “Há quem tenha o vício da pesca, da caça, do tabaco ou do álcool. Nós temos este”, conta Pedro Moita, Assistente Social de 28 anos. Para Marcos Monteiro é a exclusividade que o fascina. “Quero ter algo diferente. É um sentimento espectacular termos alguma coisa que mais ninguém tem”, revela o operador de armazém com 28 anos.“Da mesma forma que eu gasto dinheiro para arranjar a sala, colocar uns sofás, mudar uma parede ou uma porta em casa, também o faço com meu carro quando acho que o devo alterar. É algo que é meu e tenho de me sentir bem com ele”, confessa o funcionário público Nelson Gonçalves de 26 anos. No seu Opel Corsa já gastou à volta de 28 mil euros em pintura, jantes, pára-choques, electrónica, suspensão, faróis, motor e interiores com bancos especiais, playstation e leitor de dvd, para “equipar a máquina” à sua imagem.O jovens azambujenses não consideram a paixão cara, uma vez que as alterações vão sendo feitas aos poucos e mediante as capacidades financeiras que cada um tem. Até porque a recompensa e a satisfação pessoal é muito superior ao dinheiro investido. “Não é uma questão de luxo. Tenho um carro alterado e não ando a nadar em dinheiro. Na vida temos de abdicar de umas coisas para ter outras”, diz o funcionário público.A constante busca da originalidade e da personalização do automóvel nunca está terminada. “Comecei pelo pará-choques. Depois olhei e disse que as jantes não estavam bem. Quando dei por mim já estava a alterar todo o carro. Só em som, já gastei à vontade13 mil euros”, garante Carlos Gonçalves, operador de armazém com 28 anos.Apesar de ser um gosto e um prazer alternativo e fora do que é “considerado normal”, os quatro amantes de tuning, sentem-se perfeitamente inseridos no seio da comunidade da Azambuja. A mudança de mentalidades tem-se vindo a verificar ao longo dos tempos e as mudanças já são notórias. “Há uns anos quem tinha uma tatuagem era um drogado. Quem usava brinco na orelha era maricas e os motards eram uns foras da lei. Hoje já não. E nós também não o somos. Somos profissionais no nosso local de trabalho e temos uma paixão. Modificar automóveis com todas as regras de segurança”, salienta Nelson Gonçalves.Na maior parte das vezes, as pessoas da Azambuja conhecem o carro em vez dos donos. “Toda a gente conhece o meu carro. É o rapaz do corsa branco”, conta Pedro Moita. Para os “tuners” da Azambuja, ha várias vertentes de tuning. “O que tem só um autocolante a dizer tuning no vidro da frente e umas luzes. Isso é o que normalmente chamamos de “xuning”. Essa é uma modalidade com a qual não nos identificamos. Somos adeptos de que, quando se faz, que se faça bem feito”, defendem em uníssono.Outra das lutas com a qual têm vindo a debater-se é com a ligação que geralmente é feita ao “street-racing”. “Não se pode comparar tuning com street-racing. O que nos dá gosto é alterar os carros para pôr em exposição e não fazer corridas e colocar vidas em risco”, garante Marcos Monteiro.O grande impulso do tuning deu-se após o final da Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos da América. Contudo, só há cerca de dez anos é que começou a desenvolver-se o “espírito e o fenómeno” tuning em Portugal. Na Azambuja, os quatro amigos resolveram criar um clube a nível nacional. O Custom Art Tuning (CAT), tem cerca de três anos.Recordam que a última concentração na localidade ribatejana “já se realizou há bastante tempo”. O facto de o tuning não ter legislação própria, que autorize a modalidade, faz com que muitos azambujenses não tirem os carros das garagens com receio de serem multados pelas autoridades. Mas há ainda quem arrisque.Se fossem convidados a participar na Feira de Maio, que se realiza até segunda-feira, as opiniões dividem-se.“Tuners” da Azambuja reclamam legislaçãoA falta de legislação, a incoerência dos políticos e das autoridades revolta os amantes de tuning. Para todos os efeitos a modalidade é ilegal em Portugal. Mas só quando convém, dizem os quatro jovens. “Aprovam a viatura na inspecção. Respeita as normas de segurança e obedece a todos os requisitos técnicos. Logo não estou a pôr ninguém em perigo. Vem um polícia, manda-me parar e multa-me?! É uma contradição”, afirma Pedro Moita. Lamentam que para os carros passarem na inspecção, muitas vezes tiveram de “pagar algum por fora” a quem faz a inspecção. “Há várias jogadas”, denunciam.Pagam o IVA do material que compram nas casas da especialidade, mas depois não o podem usar nas viaturas. “Se o Estado proíbe, porque deixa vender o material?”, interrogam, revoltados.Outra das “incoerências e contradições” do sistema é quando se realizam concentrações. São organizadas por autarquias, canais de televisão e é a própria polícia que gere a segurança do evento. “Deve ser das únicas alturas em que a polícia está ali e não actua. Fui convidado a estar presente na parada SIC, que juntou dezenas de amantes de tuning e lá até tive direito a passadeira vermelha” ironiza Nelson.Os quatro jovens da Azambuja sentem-se desiludidos e aguardam regulamentação jurídica há anos.” Não está legal mas há muita gente a fazer riqueza. É muito triste. Tenho o carro como sempre quis e não posso sair com ele. Conheço pessoal que está a vender o carro às peças. Não o conseguem vender inteiro, pois está ilegal, não tem inspecção e não podem andar com ele na rua”, confessa Marcos Monteiro.Concretizou o sonho de mãe e filhaDe acordo com os quatro jovens Azambujenses há cada vez mais mulheres a seguirem o “espírito” tuning por esse país fora e com “grandes carros”. Nelson Gonçalves já teve a oportunidade de realizar o sonho de uma fã. Do seu carro. “Foi na semana passada. Ela via-me passar e gritava. Tem 27 anos, mora em Samora Correia e simplesmente adora o meu carro. Depois de um contacto via internet, fui concretizar o seu sonho e o da filha. Sentou-se no carro, tirou fotos e ficou muito feliz”, recorda Nelson, o episódio que o deixou sensibilizado.
Há quem tenha o vício da pesca, da caça ou do tabaco e há quem esteja apanhado pelo “tuning”

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