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O Dia de Portugal é o dia dos portugueses mas tem que ser celebrado sem nacionalismos ou bairrismos

António Barreto fala das Comemorações do 10 de Junho em Santarém

O responsável pelas comemorações do Dia de Portugal, que este ano decorrem em Santarém, defende que “em tempos de Europa, é bom não esquecer quem somos. Sem nacionalismo. Sem bairrismo.”. António Barreto fala no 25 de Abril, a propósito da homenagem nacional que vai ser feita a Salgueiro Maia e diz ser mais que tempo “de os portugueses tratarem bem os seus soldados, os seus mortos e feridos, os seus veteranos de todos os conflitos e de todas as missões”

Edição de 28.05.2009 | Sociedade
Que significado deve ter, hoje, o Dia de Portugal?Como sabe, este dia já teve várias designações. Conforme ao espírito do tempo. Hoje, para mim, o Dia de Portugal é o Dia dos Portugueses. Dos que vivem cá e lá fora. Mas também de todos os que vivem em Portugal, sem olhar à origem. Em tempos de Europa, é bom não esquecer quem somos. Sem nacionalismo. Sem bairrismo.O que pensa de todo aquele ritual de condecorações do 10 de Junho?Nesse dia, o país, por intermédio do Estado, presta homenagem a alguns dos seus. É dever do Estado reconhecer e distinguir quem merece. Desde que o faça sem pompa balofa. Mas tem de o fazer com a dignidade do acto e com o orgulho do mérito.A parada militar não é uma demonstração de força sem sentido no contexto actual?Não creio que se possa falar de “manifestação de força”. É, isso sim, uma demonstração de unidade nacional. E de homenagem do Estado e do país aos seus soldados, tanto os actuais, como todos aqueles que serviram o país. Convém não esquecer que muitos ficaram feridos ou morreram a cumprir o seu dever, em África, na Europa e na Ásia, ao longo das últimas décadas. As razões políticas de cada momento são ou foram circunstanciais: o essencial é o acto de servir o país, de cumprir o dever e de tudo arriscar por isso. O Estado e o país devem agradecer-lhes. Deixe-me dizer-lhe, a título pessoal: é mais que tempo de os portugueses tratarem bem os seus soldados, os seus mortos e feridos, os seus veteranos de todos os conflitos e de todas as missões. Podem discutir-se os motivos e as circunstâncias de cada guerra, de cada conflito e de cada missão. Mas que isso não perturbe a razão: os soldados cumprem os seus deveres e arriscam mais do que qualquer outro cidadão.Em que sentido teria sido a evolução do país se não tivesse havido o 25 de Abril?Um verdadeiro estertor.Não poderia ter havido uma transição tranquila para a democracia, como aconteceu em Espanha?Teríamos ganho tempo e recursos. Ou antes, não teríamos perdido anos e esforços. Se juntarmos os anos de guerra e ditadura, mais os de revolução e contra-revolução, com todos os erros e desperdícios, conflitos e sequelas, talvez cheguemos à conclusão de que perdemos o equivalente a vinte ou trinta anos de desenvolvimento.O Portugal de hoje corresponde às expectativas que criou após a revolução de 25 Abril de 1974?Nunca o presente ou o futuro correspondem às expectativas do passado. Ficam sempre aquém. É a natureza da vida das coisas humanas. Mas também é bom lembrar que, após a revolução, nos dias seguintes, as expectativas eram exageradas e ilimitadas, mas sobretudo contraditórias. Havia de todas as formas e feitios, incluindo as mais negativas, isto é, as que dispensavam a liberdade.Ainda hoje há quem fale do 10 de Junho como o Dia da Raça. É um sinal de que ainda há uma geração que não se conseguiu libertar do peso do passado?Também há quem diga Diário do Governo ou Assembleia Nacional. São tiques ou lapsos que o tempo apagará.Qual é a sua perspectiva sobre a manutenção de ruas e praças com nomes e figuras do antigo regime? Encara isso com normalidade?Os nomes das ruas e das praças dependem das comunidades, não do Estado central, muito menos de decretos. As câmaras e as freguesias devem ter a liberdade de dar os nomes que entendam. Em democracia, prestarão contas à comunidade. Se os cidadãos não partilham as suas escolhas, devem substituir os autarcas e mudar a toponímia. Há, em Portugal, milhares de nomes de ruas de gente desagradável e de mau feitio, de maus governantes e de adversários da liberdade. Cada comunidade deve resolver esses problemas e encontrar as soluções do seu agrado. Em liberdade.Como caracteriza a evolução da agricultura portuguesa e como comenta o facto de o sector primário ter perdido peso no Produto Interno Bruto?Por um lado, é um facto normal da evolução das sociedades. A indústria e os serviços, com mais capital, ciência, tecnologia e mais produtividade, crescem muito mais. Por outro, é também o fruto de políticas erradas que encorajam a reduzir as actividades produtivas do sector primário, da terra, do mar e da floresta. As gerações futuras não perdoarão às actuais o que fizeram com a agricultura e a floresta. Em parte, foram trocadas por dinheiros europeus para estradas e outros investimentos industriais e nos serviços.A Política Agrícola Comum (PAC) tem sido madrasta para o nosso país, ou os agricultores portugueses não têm sabido aproveitar as oportunidades?A PAC não foi concebida para as agriculturas do Sul. Com a PAC, pretende-se reduzir a produção agrícola portuguesa, incluindo com desperdício de recursos. Os governos portugueses não prestaram atenção a certo tipo de investimentos que poderiam ter sido feitos com recursos europeus: na floresta, nas águas do mar e dos rios, no regadio, na hortofruticultura e na formação de agricultores e empresários. Os governos transformaram-se em agentes da PAC e não representantes dos agricultores. Estes também não têm sabido aproveitar todas as oportunidades.O que Santarém pode esperar das comemorações nacionais do 10 de Junho?Estas comemorações são de carácter nacional e institucional. Têm um figurino e um programa que são, no essencial, mantidos. Como se desenrolam, cada ano, em cidade diferente, esforçam-se os organizadores por adaptar as cerimónias à realidade local, sem perder o seu carácter nacional. Tentaremos, por exemplo, valorizar o extraordinário património local. Entre os convidados a participar, encontram-se nomes relevantes da comunidade local. A Câmara Municipal de Santarém terá um papel relevante. Pessoas e instituições locais poderão organizar actividades e participar nas cerimónias. A cidade estará, nesses dias, nas primeiras páginas de todos os jornais e nos ecrãs de televisão. Este é um encontro entre o país e uma das suas cidades mais antigas e nobres.

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