uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
30 anos do jornal o Mirante

“Futebol nacional e distrital precisam de uma reformulação muito grande”

Treinador, Vítor Alves garante que o regresso ao distrito de Santarém não foi um passo atrás na sua carreira

Vítor Alves nasceu para o futebol no Clube Atlético Riachense, passou por muitos outros clubes, mas foi na Académica de Coimbra que fez a maior parte da sua carreira, primeiro como guarda-redes e depois como treinador. Regressou ao futebol do distrito de Santarém, está orgulhoso do trabalho que se faz no Grupo Desportivo de Monsanto. Mas garante que está triste com a falta de ambição que graça entre os clubes e os jogadores do distrital. Fernando Vacas

Edição de 06.01.2010 | Entrevista
Onde é que começou a construir a sua carreira no futebol?Nasci para o futebol no Clube Atlético Riachense onde fiz todo o percurso das camadas jovens e fiz também a primeira época de sénior, sempre como guarda-redes. Após a primeira época de sénior, ainda com 19 anos, mudei para o Clube Desportivo de Torres Novas, então na terceira divisão nacional, onde tive uma época extremamente positiva e me abriu portas para outros voos.Foi aí que se lançou na aventura do futebol profissional?Sim foi aí que a semente foi lançada. Houve um jogo para a Taça de Portugal com o Futebol Clube do Porto a 4 de Janeiro de 1981, onde, modestamente, fiz uma grande exibição e passei a ser observado pelo Benfica, que no final dessa época me chamou para treinar no Estádio da Luz, estive ali uma semana. Era treinador do Benfica Mário Wilson, que por ironia do destino saiu do clube ainda antes do início da época, foi para a Académica de Coimbra e antes de qualquer proposta do Benfica convidou-me para ir com ele para a Académica e fui com ele, começou aí a minha ligação com o futebol profissional.Académica e Coimbra marcam a sua carreira?Sim. Nessa altura estive lá dois anos já como profissional. Mas nesses dois anos tive um grande obstáculo para a minha carreira que foi o cumprimento do serviço militar obrigatório.Isso complicou um bocado o seu desenvolvimento?Sim, sem dúvida que complicou. Eu levava na altura o sonho de avançar no profissionalismo e isso regrediu um pouco. Mas não perdi as expectativas, mas adiou um pouco o sonho. Passou depois por outros clubes do nacional antes de voltar de novo à Académica de Coimbra?Sim. Joguei no União de Leiria, Marinhense, Beira-Mar, Moreirense, Benfica de Castelo Branco, Feirense. Foram anos muito intensos, realizei mais de setenta jogos, o que me deu uma grande tarimba e abriu novas expectativas.Foi então que voltou à Académica e para ficar?Foi. Tinha 27 anos e mais de cem jogos disputados. Fixei-me na equipa com o treinador Vítor Oliveira. A minha permanência em Coimbra como jogador durou uma dúzia de anos. Que culminou com a subida da equipa à Super Liga, onde joguei durante duas épocas. Fui o jogador mais velho a actuar pela Académica, acabei por me estrear na Super Liga aos 38 anos.Foi renovando contratos e acabou por ficar como treinador?É verdade. O primeiro contrato foi por dois anos, que foram sendo renovados. Acabei por construir a minha vida, quer profissional, quer familiar e social em Coimbra. O convite para treinador surgiu quando decidiu colocar um ponto final na carreira de jogador?Sim. Na altura o treinador da Académica era o Carlos Garcia, um homem extremamente correcto, que apreciava a minha maneira de ver e estar no futebol e que me convidou para ficar como treinador dos guarda-redes. Depois disso outros treinadores passaram pela Académica e me foram convidando para ficar. Chegou a ser treinador principal na Académica?Sim. Estive como treinador adjunto cinco épocas, uma com o Carlos Garcia, Duas com o João Alves e duas com Artur Jorge. Foi precisamente na saída de João Alves e a entrada de Artur Jorge, que estive um curto período à frente da equipa principal. Na altura o clube passava por um período conturbado financeiramente, e o João Alves resolveu deixar o comando da equipa, que me foi entregue pela direcção. Fiz cinco jogos como treinador principal, ganhámos três, empatámos um e perdemos outro. Depois entrou o Artur Jorge.Mas o Vítor Alves não deixou a Académica?Não. Na altura foram criadas as equipas B, e o Artur Jorge indicou-me à direcção para treinador dessa equipa, foi aí a minha rampa de lançamento para treinador principal.A Académica marca a sua vida indelevelmente?Sem dúvida que sim. Foi ali que me formei como homem. Passei ali bons anos. A Académica é o clube do meu coração.Neste espaço de tempo qual é o momento que retém mais guardado na sua memória?Tenho muitos momentos bons, muitas histórias boas e menos boas. Foi uma longa caminhada de 22 anos no futebol. Mas o momento mais marcante foi a subida da Académica à Super Liga. O clube estava já há dez anos a lutar por isso foi sem dúvida uma coisa fantástica. No último jogo em casa com o Estoril precisávamos ganhar, o estádio encheu e ainda antes do final houve muita gente que saltou para a pista, só se via o rectângulo de jogo. Foi fantástico. Há outros momentos que marcam a minha vida, mas este foi sem dúvida o maior.E como treinador?Foi ser treinador principal da Académica. Foi um período difícil, havia jogadores com seis meses de ordenados em atraso e a quererem rescindir, foi preciso lutar muito para manter todos unidos. Os problemas resolveram-se e o clube manteve toda a sua identidade.Nesta altura a nível nacional o problema dos ordenados em atraso continua a ser um flagelo que ensombra o futebol. Como é que os clubes podem sair desse círculo vicioso?Dificuldades financeiras existiram sempre, os clubes ainda vão sobrevivendo porque há a televisão. Mas ainda continuam a pagar ordenados muito acima das suas possibilidades. Penso que cada vez mais é preciso parar para reflectir sobre tudo isso, para que o futebol não leve mesmo a machadada final. Cada vez mais se caminha para que o futebol volte a ser o que foi há 25 ou 30 anos, tem que se voltar a optar pelo amor à camisola.O regresso ao distrito de Santarém e ao amadorismoA vinda para o distrito de Santarém foi um passo atrás na sua carreira? Não. A minha saída para um escalão mais baixo não significa dar um passo atrás. Recebi um convite para continuar na Académica depois da equipa B ser extinta. O convite era para voltar a ser adjunto e eu entendi que depois de ter sido treinador principal se justificava dar um novo rumo à minha vida, devia ser eu a avançar sozinho.Foi aí que surgiu o convite do Abrantes Futebol Clube?Sim foi. O projecto era aliciante, o clube tinha excelentes estruturas, tinha subido à segunda divisão, e ajudava-me a dar um pouco de mim mesmo ao futebol no distrito de Santarém.Mas a realidade foi diferente?É verdade. Em termos de objectivos desportivos foram dois anos bastante positivos. Mas em termos financeiros foi o caos. Isso abriu-me os olhos e deixou-me espaço para dizer a mim próprio que vale mais jogar pelo seguro do que estarmos a sonhar demasiado alto.A sua maior tristeza no futebol acaba por estar ligada ao Abrantes?É verdade que sim. Os problemas financeiros ainda hoje aguardam por uma resolução. As pessoas não souberam resolver as coisas e continuam a atirar tudo para trás das costas. Tenho imensa tristeza quando digo que o Abrantes Futebol Clube foi o único patrão que tive que colocar em tribunal para ver se consigo receber algum do dinheiro que me devem, fruto do meu trabalho.A situação do Abrantes reflecte um pouco o que é o futebol no distrito de Santarém?Sem dúvida que sim. Há seis anos que estou a trabalhar no distrito de Santarém, posso dizer que tenho uma visão mais abrangente do que aqui se passa, quer do nível do valor dos atletas, quer dos clubes. É com alguma tristeza que digo, que um distrito com as potencialidades que nós temos as desperdice como o faz.Está a dizer que há bons valores no distrito?Há. Mas é lamentável que tenhamos apenas duas equipas nos nacionais. O Fátima que está por mérito próprio nos campeonatos profissionais, foi um clube que se soube organizar e modernizar, devemos orgulhar-nos por aquilo que tem feito pelo nosso distrito. Depois temos Grupo Desportivo de Monsanto, um clube de uma pequena aldeia do qual nos temos também que orgulhar. Daí para a frente é um vazio total. É triste ver que só temos clubes, jogadores e treinadores nos distritais. O Riachense, clube onde se formou, ganhou com mérito a oportunidade de subir à terceira divisão, mas os seus dirigentes abdicaram da subida. Isso foi mau para o clube e para o futebol distrital?Penso que foi muito mau para o futebol distrital. Não quero com isto dizer que a decisão tomada pelos dirigentes do Riachense tenha sido uma má decisão, para eles foi a melhor para o clube, não tenho dúvidas. Então porque é que entende que foi mau para o futebol distrital?Quando digo que foi uma opção má para o distrito tem a ver com o facto de não deixar qualquer equipa na terceira divisão. Para os jogadores foi mau porque deixaram de ter um degrau mais baixo para progredirem. “Nunca pensei em vir a treinar um clube como o Monsanto”Vai na quarta época no Monsanto é um clube com estabilidade?No momento que surgiu o convite para treinar o Grupo Desportivo de Monsanto até fiquei admirado. Mas a verdade é que a forma como as pessoas me abordaram, e transmitiram sua ambição, que gostariam de saltar a barreira da terceira divisão. Quase me colocaram entre a espada e a parede, levou-me a abraçar aquele projecto.Um projecto que ao fim de quatro anos tem um balanço muito positivo? Posso dizer que estes quatro anos passaram de forma rápida e objectiva. Estou no Monsanto porque gosto de lá estar. Porque as pessoas me têm acarinhado, porque os objectivos iniciais foram atingidos, ao ponto de nesta altura o clube continuar a lutar pelos primeiros lugares da Segunda Divisão Nacional. Isso mesmo sem ter campo próprio para jogar?É verdade. Temos de andar a pedir aos clubes vizinhos para lá disputarmos os jogos do nosso campeonato, Neste momento o Monsanto é um clube ímpar, não tem campo para jogar mas está a efectuar um campeonato dentro das melhores 48 equipas nacionais. O trabalho desenvolvido até hoje tem sido meritório, bem pensado e bem executado, é um trabalho que nos enche de orgulho.Os clubes da região têm tido a abertura para ajudar o Monsanto a encontrar o melhor campo para jogar?Esperava mais, principalmente do concelho de Alcanena. O Monsanto tem dignificado o concelho e por isso penso que merecia mais alguma atenção. O que eu desejava era que as pessoas fossem mais abertas, às vezes esbarramos em portas que gostávamos de encontrar abertas. Uma situação que teve o seu ponto alto na Taça de Portugal?Sim. Fomos bafejados pela sorte e pudemos receber o Benfica num jogo da Taça de Portugal. É um orgulho que todos os clubes nacionais gostariam de ter. Em função disto tudo parece que chegou o momento do treinador perguntar o que é que há mais para ganhar no Monsanto?E não há mais nada para ganhar?Há mais coisas para ganhar. Há mais coisas para fazer. Há um projecto de alargamento do campo de futebol de Monsanto, para que as pessoas continuem a desenvolver este projecto. Isso leva-nos a acreditar que há sempre coisas para ganhar.É por isso que o treinador Vítor Alves e o Monsanto apostam muito na juventude do distrito?É, o projecto do Monsanto passa muito pela valorização dos jovens do distrito, todos os anos fazemos uma observação cuidada e no final de cada época vamos buscar três ou quatro jovens, que consegue valorizar e transmiti-lhe ambição.O clube tem uma gestão bastante cuidada?Sim sem dúvida. O Monsanto consegue equilibrar as coisas em termos financeiros. Também é verdade que os jogadores gostariam de receber um pouco mais, mas o clube não pode ser hipotecado por erros que outros clubes têm feito no passado e assim as coisas têm funcionado bem.Tem ainda a ambição de voltar ao futebol profissional?É claro que sim. Mas gostaria sobretudo de ver uma maior ambição nos jogadores do distrito de Santarém. Às vezes nota-se uma grande falta de ambição nos jogadores jovens. Temos valor e qualidade, mas falta ambição. Penso que os jogadores não são culpados, o que vêm à sua volta é clubes no distrital, e pensam que não vale a pena lutar muito mais para continuar porque não têm para onde sair. A família como o grande suporteE a família como é que fica no meio desta vida tão agitada?A minha vida pessoal e familiar tem tido, como é natural, os seus altos e baixos. Mas a minha mulher e os maus filhos são pessoas conscientes e vivem fundamentalmente a ambição e o gosto que eu tenho por esta modalidade. Toda a minha família me acompanhou sempre em todos os clubes em que eu joguei ou treinei. Nunca a família ficou distante, é evidente que ficou privada de muitas coisas que as outras famílias têm. Eu não tenho domingos, jantares, trabalho durante o dia e por isso vivo algo distante da família.

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...