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Uma vida passada a moldar o barro

Uma vida passada a moldar o barro

Domingos da Silva é um dos dois oleiros existentes na freguesia de Muge, concelho de Salvaterra de Magos

Após muito tempo como empregado, Domingos estabeleceu-se há 15 anos por conta própria com a olaria do número cinco da rua Infante Dom Henrique.

Edição de 06.01.2010 | Identidade Profissional
Desde os 13 anos que Domingos da Silva não faz outra coisa do que trabalhar com as mãos o barro das terras de Muge, concelho de Salvaterra de Magos. Natural e residente na terra, foi através do cunhado que começou na actividade de oleiro quando a outra opção de vida era o trabalho agrícola. Cedo deixou a escola. Entre os 15 e os 17 anos, Domingos da Silva ajudou a fazer pequenos vasos com eucaliptos para o Estado. “A ganhar 45 escudos por dia fui ajudando a produzir 200 mil vasos por ano, 1,2 milhões de vasos num período de seis anos de encomendas”, recorda, lembrando tempos áureos. A tropa interrompeu o seu aperfeiçoamento como oleiro entre 1964 e 1967. Após cumprir o serviço militar tentou ingressar na carreira de guarda-fiscal mas não conseguiu e acabou de volta à roda de oleiro. Após muito tempo como empregado, há 15 anos Domingos estabeleceu-se por conta própria com a olaria do número cinco da rua Infante Dom Henrique, em Muge. Trabalha o barro que recolhe em terrenos da Casa Cadaval. Um barro que considera forte e mais gorduroso, importante para impermeabilizar as bilhas e outros artigos que produz. Com ajuda de um tractor recolhe barro que dura para uma a duas semanas. A matéria-prima é amontoada no exterior da casa. É recolhida e peneirada para separar impurezas. Passa por uma máquina que a alisa antes de ser despejada num tanque. Por cada camada de barro é despejada uma quantidade de água e assim sucessivamente até ao topo do tanque, quando o barro ficar na textura certa, nem mole nem demasiado duro. É depois cortado em pedaços com cerca de 20 a 30 quilos e envolvo numa saca. Em cima da mesa de madeira o barro é amassado vigorosamente como se massa para pão se tratasse e fica pronto a ser trabalhado.Com um fio de pescador, Domingos corta a quantidade que precisa. Possui duas rodas, uma eléctrica e outra que gira a movimento dos pés. O balanço com os pés na grande roda debaixo da mesa de madeira faz girar a roda mais pequena onde o barro é colocado ao alcance das suas mãos, que começam o trabalho de moldagem do barro. Com ajuda de um recipiente com água o oleiro embebe as mãos para a matéria ser mais flexível e ficar alisada. Passado um minuto de roda nasce o formato uma pequena bilha que há pouco era um pedaço de barro em bruto. Pequenos formões de madeira a que chama alfaias vão traçando os pormenores da peça. Os efeitos no objecto podem ser conseguidos com pequenos brinquedos com rodas. Moldadas as peças, Domingos reúne o que pode e empilha-as num forno forrado a tijolo com a altura de um adulto, até à capacidade máxima. O forno é depois tapado com tijolo burro (sem furos) e lama, apenas com uma abertura para poder fumegar. As aberturas na base do forno fazem passar o calor da lenha a arder até 800 a 900 graus. Domingos cumpre essa rotina perto do meio-dia. Depois de encher o forno e de o acender, deixa ganhar calor durante sete horas. Vai-se deitar e volta às quatro da manhã para ver como está tudo. A cozedura demora 13 a 14 horas. Aberto o forno, as peças precisam de um dia para arrefecerem. E estão prontas.No barro original, de tom alaranjado ou avermelhado, podem-se conseguir efeitos com o barro preto derretido que fica com uma cor acinzentada e um acabamento feito com vidro.Os seus clientes são essencialmente pessoas do concelho que ainda têm nos objectos de barro uma referência. Mais ocasionalmente surgem encomendas ou visitas de turistas. A peça mais pequena que produz, uma pequena taça, custa 35 cêntimos. As maiores, alguidares de mais de 70 centímetros de diâmetro e 20 quilos de peso, custam 40 euros e servem para a matança do porco. É frequente ainda ser chamado para fazer apresentações do seu trabalho em escolas do concelho. Feiras e mercados não frequenta. “Não vale a pena, não se vende o suficiente para o trabalho que dão”, garante.Domingos da Silva gasta várias horas na feitura do barro mas tem outro meio de subsistência: dois hectares e meio de vinha em Muge e Marinhais, cujo vinho é entregue na Adega Cooperativa de Benfica do Ribatejo.
Uma vida passada a moldar o barro

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