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Faleceu Eduardo O.P.Brito conhecido como o “pai dos fenómenos do Entroncamento”

Escreveu ao longo de 70 anos em dezenas e dezenas de jornais nacionais e regionais
Edição de 06.01.2010 | Sociedade
Duas das suas grandes paixões eram o cinema e o Entroncamento. Não foi jornalista profissional porque nos caminhos-de-ferro pagavam mais que nos jornais mas publicou muito mais notícias que alguns profissionais do jornalismo. Deu, sem querer, a designação de “Terra dos Fenómenos” ao Entroncamento. Faleceu a 30 de Dezembro de 2009, no hospital de Cascais onde se encontrava internado, Eduardo O.P. Brito. Tinha 97 anos de idade e, para além de funcionário da Companhia de Caminhos-de-Ferro, CP, foi, ao longo da sua longa vida, colaborador de uma imensidade de jornais, nacionais e regionais. Ficou conhecido como “pai dos fenómenos do Entroncamento” devido a uma série de pequenas notícias sobre assuntos invulgares, durante a década de cinquenta. Apesar de ter nascido em Abrantes, a 13 de Julho de 1912, na casa de seus pais, a sua terra foi sempre o Entroncamento onde viveu desde os nove anos de idade e onde foi sepultado, na tarde do último dia do ano. Eduardo O.P.Brito foi quem mais escreveu sobre o Entroncamento. Sobre as pessoas que habitaram e habitam o Entroncamento. Era um jornalista à moda antiga que escreveu até há poucos anos.Numa entrevista dada a O MIRANTE em 1997, Eduardo Oliveira Pereira Inchado de Brito, contou que só não foi jornalista a tempo inteiro por “uma questão de cifrões”. Quando acabei o liceu disse ao meu pai que já não queria estudar mais. Ele desejava que eu seguisse advocacia mas acabou por se conformar. Um amigo que eu tinha no jornal Diário de Lisboa avisou-me que iam contratar jornalistas. Concorri e fui aceite mas no dia em que me devia apresentar decidi concorrer para um emprego na secção de via e obras da CP e também fiquei aprovado. Como os caminhos-de-ferro pagavam melhor que os jornais, desisti de ser jornalista. Mas o bichinho ficou sempre”. Uma das grandes paixões de Eduardo O.P. Brito era o cinema. O primeiro texto que publicou tinha por título “Os que ressuscitam no écran” e foi publicado no semanário “Jornal de Cinema” a 29 de Novembro de 1929. Na mesma entrevista conta que, quando trabalhava em Lisboa chegava a ir a três sessões por dia. “Levava umas sandes para poder assistir à sessão da hora do almoço”, confessa. Os seus filmes preferidos eram os grandes clássicos. “O Mundo a Seus Pés”, “E Tudo o Vento Levou”, “Casablanca”. Como começou a ver filmes mudos, confessava que lhe quando chegou o cinema sonoro lhe custou habituar-se.Em Maio de 2008 foi editado pela câmara municipal do Entroncamento uma colectânea de textos de Eduardo O.P.Brito sobre aquele concelho intitulada “Cá Pelo Burgo”. O trabalho de recolha, selecção, correcção e elaboração de notas foi feito por Manuela Poitout, uma estudiosa da história do Entroncamento e Ana Geraldes, jornalista que, antes de se formar colaborou com o extinto jornal “O Entroncamento” ao longo da sua adolescência. O livro com 339 páginas e capa dura é uma história do quotidiano do Entroncamento feita de histórias e pode ler-se como um livri de contos. Há a história da sopa a escaldar, a das reuniões da farmácia, a dos passeios à estação para ver as espanholas, a do misterioso desaparecimento do Perlingó, a do Tio Maurício e da burra Atmosfera… Sempre elegantemente vestido, Eduardo O.P. Brito tinha como imagem de marca o facto de usar laço em vez de gravata. Era uma pessoa afável e cordial. As pequenas notícias que acabaram por baptizar o Entroncamento como terra dos fenómenos foram publicadas em finais dos anos 50 e princípios dos anos 60 no jornal Diário Popular. A primeira era sobre um melro branco que havia na Quinta do Dr. Rivotti, para os lados de Riachos. Seguiram-se a da cordeira que amamentava uma vaca e um burro, carneiros que davam lã e erva, o carneiro com quatro cornos, uma laranja do tamanho de uma abóbora, a galinha com três pernas…em 1997, quando entrevistado por O MIRANTE, Eduardo O.P.Brito confessava que ainda lhe batiam à porta para lhe comunicarem fenómenos embora ele já tivesse deixado há décadas de escrever sobre aqueles temas.Um bairrista numa terra sem tradições de bairrismo“(…) só terei de dar graças a Deus em me ter permitido, na minha qualidade de velho bairrista, testemunhar todas as promoções com que o nosso Entroncamento tem sido distinguido. Assim, se em 1926 rejubilei com a elevação a Freguesia, por sua vez, em 1932, tornei a viver nova alegria, com a promoção a vila, sentindo, depois, em 1945, a ascensão mais saborosa de entre todas: a da autonomia administrativa com a criação do concelho! Porém, quando já poucas esperanças alimentava de ver, ainda, concretizado o meu derradeiro sonho de bairrista o de Entroncamento Cidade eis que Deus me concedeu essa satisfação! Portanto, desde simples aldeola a Cidade passando sucessivamente, por freguesia, vila e sede de concelho a tudo assisti!”Notícias do Entroncamento 26 de Junho de 1992

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