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A antiga secretária de Estado da Educação que foi expulsa do internato

A antiga secretária de Estado da Educação que foi expulsa do internato

Ana Benavente deixou o Cartaxo cedo para ir estudar para Lisboa

A ex-secretária de Estado da Educação do Governo de Guterres, Ana Benavente, deixou cedo o Cartaxo, onde nasceu, e rumou a Lisboa para terminar o liceu. Foi camarada de Odete Santos no Sidónio Pais, um instituto para filhas de professores de onde foi expulsa. Integrava um grupo de raparigas que já desafiava o poder instituído. É socialista convicta, mas desiludida com o projecto da actual direcção. Não esquece as raízes cartaxeiras e o estigma de um Ribatejo marialva. Também por isso se levanta a favor da guerra dos direitos das mulheres.

Edição de 13.01.2010 | Entrevista
Como foi a sua infância passada no Cartaxo?Tenho a recordação de uma infância feliz numa terra pobre onde os grupos não se misturavam. De certo modo o meu percurso foi fugir ao destino. Vivi no Cartaxo até ao quinto ano do liceu. Andei no Colégio Marcelino Mesquita. Depois de frequentar a escola primária, que era mesmo atrás da minha casa. Não havia secundário nessa altura nas sedes de concelho. Fui para Lisboa para um internato de filhos de professores. Era o Sidónio Pais. Foi para mim uma experiência horrorosa. Mas conheci lá a Odete Santos e outras coisas aconteceram a partir daí. Como era a vida na terra?Na altura, tirando as feiras e os toiros não havia grande vida cultural. Não tem nada a ver com o que é hoje. Vinha-se à capital uma vez por ano. Antes do Natal para fazer umas compras ao Chiado. Só quem podia. Era um acontecimento. O que fazia uma menina à época? Estudava. Na altura os lavores eram para mim um tormento. Mais tarde descobri alguma apetência para tecelagem. A vida era muito limitada. A escola era pobre. Não foi para mim a idade de oiro. Era boa aluna, filha de professores, estudiosa. Ao domingo ia passear ao jardim. Um pouco de igreja quando era mais pequena. Tenho pena que a escola não me tenha permitido ter algum desenvolvimento musical ou na área das artes, que são aquelas aprendizagens que ficam para toda a vida. Que hoje existe. Afinal nem tudo é mau.Muito pelo contrário. Hoje é bem melhor. Naquela altura não existiam tempos livres. Os filhos dos médicos, advogados e grandes proprietários já tinham acesso a outras práticas culturais. Os professores eram conceituados, mas ganhavam pouco. Os meus amigos eram os filhos do senhor da sapataria, da loja de tecidos e os filhos dos outros professores. Algumas meninas não frequentavam a escola pública. Iam a casa do professor. A escola pública – e pratiquei isso com os meus filhos - continua a ser a experiência de maior troca social e universalização que existe. Depois a vida se encarrega de nos separar. Onde nos cruzamos mesmo é na escola. Meninos descalços e meninos calçados. Meninos vestidos pela feira e pelas lojas. Era menina vestida pela loja?Era vestida pela loja com camisolinhas tricotadas à mão pela minha avó e tinha sapatinhos. Ao contrário da maioria das meninas que andavam descalças. Sentia essa diferença?Sentia. É talvez uma das memórias mais antigas da escola. Acho que um certo sentido contra a injustiça sempre viveu comigo. Muito influenciada pela minha avó materna que vivia connosco. Era uma força da natureza. Analfabeta. Aprendeu a ler sozinha. Uma mulher despachada, cheia de energia, muito positiva, que me ensinou muito. Tal como os meus pais. Fui aluna da minha mãe da primeira à quarta classe.Não era incompatível?Não, mas tinha muita pena de não dizer ‘bom dia minha senhora’. Como foi ser camarada de Odete Santos no Sidónio Pais?Como éramos raparigas filhas de professores que ganhavam mal tínhamos um instituto que era gerido por senhoras perfeitas, absolutamente autoritárias, zangadas com a vida, que nos liam a correspondência. Cadeados nas janelas pintadas de branco. Era uma menina estudiosa e bem comportada. Não tinham que me tratar mal. Isso criou um ambiente propício à revolta. Crescemos nesse instituto a praticar a mentira para nos defender. Os livros, além dos obrigatórios, eram proibidos. Evidentemente o primeiro livro que li foram os discursos de Fidel Castro trazidos pela Odete e “Assim falou Zaratustra” de Nietszche. Os livros de Sartre iam para a missa, forrados de preto. Toda aquela repressão teve para nós o resultado contrário: não perceber porque é que os rapazes tinham uma liberdade de movimentos superior. Iam para os cafés e começavam a vida sexual mais cedo. Entretanto ingressou na faculdade.No primeiro dia de faculdade ficámos logo fechadas na cantina. Saímos com a polícia de choque à frente. Eu e a Odete dizíamos: ‘agora é que vamos ser expulsas do instituto’. No ano seguinte o instituto acabou por expulsar as mais velhas. Não tinha condições para ter raparigas que já desafiavam o poder instituído. Deixei o Instituto Sidónio Pais e fui para um lar de freiras onde já se podia ir e vir da faculdade sem uniforme e um pouco mais livre. E depois rumou à Suíça. Fui embora casada com um jovem de Direito. Tinha 18 anos e ele 20. Fomos porque ele ia ser mobilizado para a Guerra Colonial. Poucos meses depois de lá estar separamo-nos. Ele fez um percurso diferente. Foi para França e ainda voltou para Portugal antes do 25 de Abril. Eu fiquei até à revolução. Comecei a trabalhar a fazer inquéritos. Estava a ver que não conseguia estudar. Lá consegui uma bolsa e fiz a licenciatura. Foi uma grande vitória. Fiquei como assistente da faculdade e veio o Maio de 1968. A partir daí a vida mudou. A minha filha nasceu na Suíça em 1971 e é filha de outra parte da minha vida. Costumo dizer que vim do Cartaxo para Lisboa passando por Genebra. Só quando voltei é que conheci a cidade. Na altura o que tive foi uma passagem provinciana e assustada por Lisboa. Tenho pena de não ter comprado um apartamento no Cartaxo. É lá que me sinto em casa.Uma mulher politicamente incorrectaQuatro da tarde. Praça de Londres, Lisboa. O salão da pastelaria “Mexicana” é a sala de visitas da ex-secretária de Estado da Educação do Governo de Guterres, Ana Benavente. Cartaxeira de berço, cidadã de mundo, que assentou arraiais na capital. Viver em Lisboa, nas imediações da igreja onde nunca entra, é quase como viver no Cartaxo. Ambiente de bairro. Cumprimenta-se o vizinho da farmácia com a naturalidade com que se aborda o bancário e o agente de viagens. Uma viagem breve de táxi de casa ao café e está num dos seus sítios preferidos de Lisboa. O local é ponto de encontro de famosos. Manuel Maria Carrilho e Manuel Alegre cumprimentam-se na esplanada, mas Ana Benavente não estava na sua mesa, explicará mais tarde. Está, como outros, zangada com o dirigente do partido, José Sócrates, governante centrista, “sem projecto para o país”, a roubar espaço ao PSD. Nasceu a 11 de Agosto de 1945 numa casa térrea na Rua Luís de Camões que ainda hoje existe, perto do mercado municipal do Cartaxo. Os pais eram professores. Tem dois filhos, uma de 38 e um de 24 anos. “Os meus dois filhos têm pais estrangeiros. Não sou propriamente aquilo que o homem português espera”, diz com humor uma mulher de espírito aberto, professora de teorias da mudança social, teoria social da educação e sociologia da educação, a sua área por excelência. “Hoje digo nós: eu e o meu corpo. Comecei a perceber que há uma idade em que o corpo não nos obedece”. É leitora compulsiva, um hábito de herdou dos tempos de estudante. À cabeceira tem “O Segundo Diário Mínino” de Umberto Eco, entre outros. Reformou-se em Outubro do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Ainda está a desfazer os caixotes, mas não esquece a escola. Defende a tabuada e as pedagogias activas que exigem esforço. Dispensa os trabalhos de casa na escolaridade obrigatória, inferno para os pais e um factor de desigualdade. Esteve com os professores nas manifestações e chama “acordo de feirantes” ao avanço das últimas negociações. Quer mais para a educação além do Magalhães. Foi coordenadora do estudo nacional de literacia, um problema que continua a preocupá-la. Assusta-a mais o sofrimento que a morte. Fazer projectos a longo prazo não condiz com a ex-governante que usa indumentária a fazer lembrar a cultura oriental e tem a pose típica de quem teve uma educação rígida em menina. Nunca pensou chegar aos 64 anos, mas confessa-se em harmonia com o mundo. “Quando há alguma coisa que me desagrada peço o livro de reclamações”.“A vida do partido ainda é a vida do café”Porque se afastou do Cartaxo? Sempre procurei participar na vida local. Desde que deixei a assembleia municipal e me afastei do PS tenho sentido menos compromisso. Por outro lado também começo a não conhecer tanta gente. Vamo-nos afastando pela força das circunstâncias, mas tenho uma grande ligação ao Ribatejo. Um dos aspectos que lamento na minha vida política foi ter sido candidata no distrito de Viseu por causa das quotas. Porque aceitou?Porque me pediram em nome do interesse do partido. Como sou obediente e quando estou numa instituição acho que o interesse colectivo deve ser superior ao interesse individual, muito contrariada, aceitei. As mulheres são distribuídas um pouco à imagem da salsa que se põe nas travessas. Concorda com as quotas?Não posso concordar. As deputadas na Assembleia da República circulam muito mais. É um mundo de homens que cria as suas regras para as mulheres. As mulheres do PS chegaram a fazer reuniões porque não estavam contentes com o trabalho que lhes estava atribuído, mas depois as fidelidades locais aos padrinhos não deixaram avançar com tomadas de posição. Faz falta mais mulheres na política?Faz falta mais mulheres na política e com mais poder. Estava no auge da minha carreira académica quando precisaram de alguém para a educação. Eu vim. Quando comecei a ser incómoda – porque gosto de dizer o que penso – também saí e ninguém me voltou a convidar. Não perguntei nada a ninguém. E é assim que deve ser. Não deixo de pensar, numa análise mais sociológica, que se fosse homem não teria sido tratada da mesma maneira. Elas são substituíveis. Eles agarram-se às estruturas. Veja quantas mulheres existem nas distritais dos partidos. E nas concelhias. A vida do partido ainda é a vida do café. Não é a vida da casa nem dos filhos. Reuniões, conversas e copos. Tudo à imagem dos homens. Está decepcionada com a política?Não estou decepcionada com a política. Talvez com os políticos e com esta fase da política portuguesa. Portugal está a atravessar uma fase politicamente pobre e até perigosa pelo descrédito que traz junto dos cidadãos. Conhecendo as tropas de José Sócrates nunca vi que dali viesse um projecto de sociedade para Portugal com o qual me identificasse. Não se chateou com Paulo Caldas da mesma maneira que se chateou com José Sócrates. Ao Paulo Caldas o que disse foi que vivendo em Lisboa não sentia que fizesse o melhor que podia porque faria muitas propostas que depois não se concretizariam. Viver na terra é importante. Sei que a presidência das assembleias é sinal de distinção, mas custava-me o facto de estar longe do Cartaxo. Considera possível voltar ao Governo?Não. Vivemos ciclos e quando terminam, por vontade deliberada ou um conjunto de circunstâncias, passamos para outro. Comecei outro com tanta aprendizagem e descoberta que estou feliz. São os meus projectos e as minhas causas cívicas; as minhas consultorias para a Unesco e Banco Mundial e as minhas aulas de sociologia de educação ao nível de doutoramentos em Portugal e no Brasil. Estou activa no Comité Nacional do Tribunal Bertrand Russell para a Palestina e dou todo o apoio que posso à UMAR – União Mulheres Alternativa e Resposta. Acho que a afirmação das mulheres é um problema que em Portugal está longe de estar resolvido.“O Ribatejo cultiva a figura do marialva em torno da festa brava”A luta pela igualdade entre homens e mulheres alguma vez vai acabar? Não sei. Em Portugal a paridade ainda não está assumida. Enquanto houver um lugar que dê pouco trabalho e seja bem pago não é para uma mulher. Ou então é para pagar um favor.Isso não é muito abonatório para os homens…Pois não. A questão da paridade não é uma questão feminina. É dos dois. A sociedade melhora quando as mulheres têm mais poder. Estive há pouco tempo no Ruanda, um país que conheceu um genocídio tremendo. Uma das curas que estão a tentar para este tipo de guerras entre povos passa pela promoção das raparigas e mulheres. Porquê?Porque a ligação das mulheres à vida tem outras raízes. A ONU começou a privilegiar as mulheres na distribuição da ajuda em situações de catástrofe ou guerra porque a percentagem que chega aos mais vulneráveis – crianças e velhos – é brutalmente superior. O que não quer dizer que não haja mulheres que façam mercado negro. Claro que isto com uma música de fundo cultural e sócio-histórica muito marialva, como acontece no Ribatejo e não só, é mais difícil. Essa ideia do Ribatejo marialva corresponde à realidade?Acho que se cultiva a figura do marialva até em torno da dita festa brava, mas até costumo dizer a brincar que gostava era de vê-los a pegar a vida pelos cornos. Não era o toiro. Depois vejo muitos ex-forcados encostados aos marcos de correio e às paredes de cafés às vezes a dizer do que herdaram e do que ganham as mulheres. Conhece muitos casos assim?Sim. Aquilo que em termos sociológicos se poderia dizer o fim de uma figura social. Aquele rapaz que herdou e que foi educado com aqueles valores, mas a vida já não corresponde a isso. Ficou preso à propriedade e à afirmação do poder e os tempos já não se compadecem com isso. Mas isso acontece também em outros sectores da sociedade.Evidentemente, mas o Ribatejo é muito marcado por essa afirmação marialva. Hoje menos, mas no passado os alunos da escola agrícola eram quase todos pegadores de toiros. Um tipo masculino, autoritário e marialva que decidia.Considera-se feminista?Sou feminista no sentido de afirmação das mulheres. Vivemos num tempo em que nos é permitido por lei ocupar espaço público, mas toda a organização social está contra nós. Lembro-me de estar no Governo a produzir um documento, começava a chover e pensava na roupa estendida. Será que algum dos meus colegas tinha este pensamento? A retaguarda no que diz respeito à casa, filhos e bem-estar está completamente assegurada pelas mulheres. Isso torna a vida mais difícil, mas a situação evoluiu muito. Como conseguiu cumprir a tarefa?Por um lado porque os pais dos filhos não são portugueses (risos). Porque sou lutadora e tinha muita energia. A afirmação pública é mais difícil porque exige de nós o dobro. Um falhanço de uma mulher ou um erro é sempre visto à lupa. A tarefa não está facilitada para as mulheres.Portugal é dos países onde é mais difícil criar filhos. Uma mulher que se queira afirmar tem dificuldade em gerir a maternidade. Não acredito na instituição das oito às oito. Sei que são precisas creches. Mas é uma resposta de uma sociedade que já está mal organizada e que não deixa uma criança até aos três anos ter um ritmo próprio. Quando criei a minha filha mais velha na Suíça há 38 anos estava a trabalhar a meio tempo como assistente na Universidade. Machismo primário é a sociedade não fazer esse tipo de evolução. Mas a maternidade alargada é incompatível com o espírito das empresas.Não só para as empresas. A menina do cabeleireiro tem medo de perder as clientes para outra colega. Isso acontece em todas as actividades por razões de competição. Era necessário fazer um pacto social.Não é uma utopia?Porque há-de ser? Aderimos à Europa para umas coisas e não para outras. Entrámos muito mais para a economia do que para as práticas sociais. Não estamos a viver mais felizes e a prova é que mais de metade do povo europeu toma anti-depressivos. A tendência é para voltar para atrás e encontrar caminhos mais adequados às necessidades da pessoa.
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