uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
30 anos do jornal o Mirante

As letras para músicas são tratadas como parente pobre da poesia

Vitorino Ventura num debate em Ourém diz que só agora os preconceitos começam a ser esbatidos
Edição de 20.01.2010 | Cultura e Lazer
A Biblioteca Municipal de Ourém recebeu sábado mais uma sessão do seu programa “(Con)tributos”. Desta vez, o escritor Vitorino Ventura apresentou a sua obra, “(As) letras com(o) poesia”, e lançou o debate sobre a poética do pop/rock em Portugal, com exemplos como JP Simões, Sérgio Godinho, Regina Guimarães ou Rui Reininho. Ficou a ideia de que o mundo académico “ainda trata as letras para músicas como um parente pobre da poesia”. A apresentação do escritor foi feita pelo presidente da Câmara Municipal de Ourém, Paulo Fonseca (PS), que sublinhou a importância da cultura no percurso das gerações mais novas. Vitorino Ventura apresentou então um conjunto de letras, como “Problema de Expressão” dos Clã ou “Pronúncia do Norte” dos GNR, procurando o debate sobre uma literatura que considera “marginalizada” entre o meio académico português.A O MIRANTE, Vitorino Ventura explicou que a ideia para “(As) letras com(o) poesia” surgiu aquando da sua experiência na Escola Secundária de Gondomar, convidando letristas próximos do universo musical dos alunos para alguns colóquios. O objectivo seria “fazer uma ponte” entre autores como Camões e, por exemplo, os textos de Regina Guimarães, de modo a cativar o interesse dos estudantes para a leitura das obras escolares.O resultado foi “muito bom”, e daí nasceram dois livros escolares intitulados “Oficina de Letras I” e “Oficina de Letras II”. O caminho de Vitorino Ventura passou então pela formação a professores, cursos de Verão e conferências sobre os temas das poéticas do rock. “As coisas começaram a ser tentaculares na divulgação desta literatura”, afirmou, esclarecendo que a temática ainda está muito ligada ao preconceito “sem fundamento” enquanto género “menor” das letras. A trabalhar na área há 10 anos, diz que só agora os preconceitos começam a ser esbatidos e alguns destes textos passam pelas universidades. Apesar de tudo, ainda não há teses de doutoramento sobre nomes mencionados, como Rui Reininho ou Sérgio Godinho, e se existem resultam de trabalhos fora das letras. “Parece que o Rui Reininho, o poeta, é diferente do Rui Reininho quando é letrista”, referiu.O autor reconhece que efectivamente 90 por cento das canções pop e rock obedecem ao efeito “chiclete”, em que as letras são feitas para funcionarem bem como sons. No entanto, existem alguns exemplos que “têm realmente um valor autónomo” e é sobre eles que Vitorino Ventura se debruça. “Não há nenhum obstáculo à partida” em alargar o circuito do pop/rock, que foi o núcleo desta obra, para outros géneros musicais. O próximo livro do tema, no qual está já a trabalhar, deverá incluir alguns exemplos de rap. No geral, são textos que foi ouvindo, uma vez que também esteve inserido no meio musical, e que o “tocaram de alguma maneira”, convivendo mal com o desprezo de que eram alvo pelas faculdades e alguns escritores de gabarito. Vitorino Ventura vive no Porto e é licenciado em Direito e Literaturas Modernas. Foi vocalista do grupo U Nu, tendo editado “A nova portugalidade” e “O regresso dos diabos”. Além do seu trabalho no âmbito do tema das poéticas do pop/rock, possui três obras de ficção publicadas: “Da cidade neste Corpo”, “Memórias de Ansiães” e “Crónicas de Sancho Pança”.

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...